Muito apreciado
e aplaudido o pronunciamento do deputado federal Pe. José Linhares Ponte (PP) feito nesta
sexta-feira, 10, na Câmara dos Deputados. O parlamentar sobralense fez uma reflexão
sobre a problemática das drogas, de modo especial o crack. Demonstrando profundo
conhecimento do assunto Padre Zé concluiu sua fala com um ultimato: “O crack é hoje o maior problema
psíquico-social do Brasil, ou o Brasil vence o crack ou o crack destruirá o Brasil.”Acompanhe o discurso na íntegra.
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores
Deputados,
Obscurecer os
progressos e as conquistas do Brasil nestes últimos anos, seria padecer de uma
miopia ideológica que estaria, certamente, conspirando contra a transparência
dos fatos e negando o óbvio da realidade.
Melhoramos,
sensivelmente, na educação, haja vista a quantidade de jovens que vem tendo
acesso ao terceiro grau, embora haja críticas quanto à qualidade desta etapa do
sistema educacional.
Elevamos o nível
social e econômico da população de baixa renda, fazendo emergir uma grande
parcela da classe pobre para a média, constatação que se faz, não só pelas
estatísticas conhecidas de todos nós, mas, sobretudo, pelo acesso ao consumo do
que se costuma chamar de bens duráveis.
A macroeconomia
agigantou-se, elevando-nos no ranking
mundial ao 6º lugar, fazendo-nos superar até a economia inglesa.
Os programas
governamentais vêm logrando grande êxito e, se até 2015, tivermos a
transposição das águas do São Francisco, a finalização da Transnordestina, o
aumento de energia com os barramentos já iniciados, certamente, galgaremos o
patamar de país do primeiro mundo.
É certo que a
jornada ainda é longa, sinuosa, plena de obstáculos, com grandes desafios, a
exigir-nos prioridades para nossas políticas públicas em muitas áreas ainda
sensíveis em nosso tecido social.
Abordo hoje, um dos
capítulos mais alarmantes da história do nosso século. É, por si só, capaz de
extinguir o esforço coletivo que vem de ser feito pelo governo, pela escola,
pela sociedade, pela família.
É tão devastadora
sua ação que posterga valores, avilta comportamentos, destrói convicções, mata
o indivíduo, dilacera a família, fragiliza a Nação.
Como uma avalanche
vem invadindo ruas, bairros, cidades, desafiando instituições, destruindo
crenças, ameaçando a paz social.
A urgência do meu
apelo, não se circunscreve tão somente ao espaço deste parlamento, mas clama
por ações efetivas e conjuntas do Judiciário, da sociedade organizada, mormente
do Executivo, que tem por obrigação priorizar políticas que sejam,
prioritariamente preventivas, mas, quando for o caso, como este que vamos
enfocar, curativas, remediativas.
Falo da DROGA,
especificamente do CRACK. Há 10 anos passados, 200.000 brasileiros haviam tido
contato com o crack, em uma década
esse número saltou para 800.000, segundo o psiquiatra, Ronaldo Laranjeira, da
UNIFESP, um dos maiores especialistas do País no assunto. Além de romper as
divisas estaduais, 91% dos nossos municípios já têm viciados.
O crack derrubou as barreiras de classe.
Há muito deixou de ser usado somente por marginais e moradores de rua, hoje invadiu
as portas da classe média. A ação encetada em São Paulo, no recém-findo mês de
Dezembro, traçou um esboço da cracolândia e descobriu que dos 178 ocupantes, 16
tinham curso superior completo, 24 eram alunos de faculdades e 02 deles
cursavam medicina. O que indica um percentual de 23,65%. Antes, diz o
proprietário da Clínica Green Wood,
psiquiatra Pablo Roig, os pacientes se hospitalizavam por causa da bebida ou
cocaína, hoje, o índice de viciados em crack subiu para 60%. A Clínica
situada em Itapecerica da Serra, São Paulo, cobra por mês de internação
R$23.000,00(vinte e três mil reais).
Vejam, Senhoras e
Senhores Deputados, como o tratamento vem se tornando inacessível para a
maioria dos brasileiros da classe média ou mesmo alta.
Caberia aqui uma
primeira reflexão: porque pessoas provenientes de alto padrão social, que se
dizem ter família, que estudaram em excelentes colégios, que excursionaram pelo
exterior, animam-se a experimentar um entorpecente que eles sabem, que poderá
dilacerar suas vidas? Eles sabem que ousando experimentar uma vez criarão
dependência, mas assim mesmo o fazem. Porque será? Ignorância não o é, quem
sabe, ouso eu afirmar, falta-lhes a presença do transcendente, do espiritual,
de Deus. São vítimas do vácuo psíquico, dos valores permanentes, do afeto por
si mesmo e pelos outros.
Geralmente buscam o
prazer imediatista. É certo que o crack
provoca no cérebro um célere aumento de dopamina, o neurotransmissor que regula
a sensação fugaz do bem estar. Assim, bastam algumas poucas experiências para
que o mecanismo cerebral responsável pelo sistema do prazer se acelere e
produza um êxtase prazeroso. Numa escala, cientificamente conhecida: a comida
produz 50% de prazer, o álcool 90%, o sexo 100%, a cocaína 230%, o crack 900% de dopamina no cérebro. O crack vicia tão rápido que para o
usuário, muito frequentemente, a primeira tra gada é o começo do fim. A partir
dela pobres e ricos se igualam na trajetória de autodestruição.
Produzida a partir
da pasta base de coca, matéria prima que pode se transformar também em cocaína,
ficando a escolha a critério do produtor. Para os traficantes o crack é mais vantajoso devido à
quantidade e a velocidade com que é consumido. O preço é um determinante.
Em três anos, a
quase totalidade dos viciados estará gravemente doente, envolvida em crime,
desmantelando a família e marchando, após cinco anos, para a morte.
Se ricos e pobres
se igualam no momento de se viciarem, muitos se diferenciam na tentativa de se
livrarem da droga. Os ricos podem dispor de boas clínicas, de bons médicos, de
bons psicólogos, de bons estímulos dos familiares, em síntese, de um bom
aparato sócio-afetivo-científico. Enquanto os pobres, largados muitas vezes na
sarjeta, de nada dispõem, a não ser da própria droga para afogarem seus desânimos
e rejeições.
É desta constatação
que parte a necessidade urgente da intervenção do Estado para, com coragem e
determinação, enfrentar o que já se encontra no patamar de uma epidemia ou uma
pandemia.
No ano passado, a
Câmara dos Deputados constituiu uma Comissão
específica destinada a promover estudos e proposições de políticas públicas e
Projetos de Lei destinados a combater e prevenir os efeitos do crack e de outras drogas ilícitas
(CEDROGA). O resultado foi um alentado relatório produzido pelo nosso colega
Givaldo Carimbão, magnífica síntese de 17 audiências públicas, onde mais de 31
especialistas foram ouvidos; 27 seminários estaduais; dezenas de visitas a
centros de atenção psicossocial de álcool e drogas, hospitais gerais,
psiquiátricos, comunidades terapêuticas; uma agenda internacional na Bolívia,
no Peru, na Colômbia; reuniões com a Presidente, Ministro, Governadores, enfim
com todos os segmentos responsáveis pelo problema, incluindo, naturalmente, os
próprios usuários.
O exaustivo
trabalho merece ser compulsado por todos que, direta ou indiretamente, se
interessem por tão relevante tema.
O Ministério da
Saúde, por sua vez, produziu um relevante plano com três tópicos fundamentais:
Prevenção – Cuidado – Autoridade. Segundo o documento, serão capacitados 210
mil educadores, 3.300 policiais militares educadores do Programa Educacional de
Resistência às Drogas e a Violência (PROERD); atuação em 42 mil escolas,
visando atingir a dois milhões e duzentos mil alunos; implantação de 16 Centros
Regionais de Referência; Ofertas de 34.200 vagas em cursos de aperfeiçoamento
em Prevenção, além de 135 mil lideranças comunitárias, 35 mil lideranças
religiosas, 35 mil profissionais de saúde e assistência social, 45 mil
operadores do Direito, campanhas publicitárias e outras ferramentas.
O governo irá
disponibilizar: 4 bilhões de Reais.
Belíssimo plano,
inteligente projeto, competente e excelente abordagem. Mas, senhoras e senhores
Deputados, se os recursos alocados se perderem nos escaninhos da burocracia; se
forem dispensados como as emendas dos parlamentares; se receberem
contingenciamento da área econômica, como sói acontecer; se tiverem de ser
repassados através da Caixa Econômica, sejamos realistas, tudo não passará de
um belo engodo, cujas consequências desastrosas recairão, irreversivelmente,
sobre nós, constituintes formais dos Três poderes desta Nação.
Oxalá este nosso
grito de alarme ressoe e repercuta junto aos detentores maiores deste País, ou
sejam, os que são despenseiros de nossos recursos e sensibilize-os para a
urgência, para responsabilidade, para sustar o quanto antes a hemorragia que
sangra a Pátria.
O crack é hoje o maior problema
psíquico-social do Brasil, ou o Brasil vence o crack ou o crack destruirá o Brasil.

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