sexta-feira, 24 de julho de 2015
Indefinição sobre cotas raciais coloca o governo federal em saia justa
A Lei nº 12.990/14, que reserva 20% das vagas para
cargos e empregos em órgãos da União a candidatos que se autodeclararem pretos
ou pardos, está colocando o governo federal em uma saia justa. Em junho, o
Ministério do Planejamento lançou três concursos de nível superior, sendo que
em apenas um deles — que prevê 80 vagas para analista de planejamento e
orçamento (APO) — estabelece a criação de uma comissão específica formada por nove
servidores da própria pasta e da Secretaria de Políticas de Promoção de
Igualdade Racial (SEPPIR) para analisar a veracidade da autodeclaração de cor
ou raça do candidato. A medida agradou aos representantes do movimento negro,
mas, segundo juristas, é ilegal.
Os outros dois editais para concursos do
Planejamento não preveem análise da autodeclaração, mas deixam claro que o
candidato será eliminado em caso de constatação de declaração falsa, como prevê
a legislação. “A lei não estabelece critério objetivo para a avaliação dessa
autodeclaração. Sem regulamentação, vai continuar em aberto e subjetiva”, disse
o advogado Pedro Henrique Magalhães, do escritório Magalhães e Mamede.
A polêmica em torno da lei está motivando
candidatos contrários e favoráveis a entrar na Justiça, situação que deve se
agravar com o tempo, avaliou o presidente da Associação Nacional de Proteção e
Apoio aos Concursos (Anpac), Marco Antônio Araújo. “Se não for regulamentada,
em cinco e seis anos, não tenho dúvidas de que essa matéria possa ser discutida
no Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, entendo que as bancas
examinadoras podem e devem verificar a autenticidade da autodeclaração. Está
previsto em lei”, sustentou.
A falta de uma regulamentação é igualmente
criticada pelo movimento negro. “Precisamos de mecanismos que assegurem
objetividade à lei. Meu medo é que, por irresponsabilidade do governo federal,
todos os órgãos lavem as mãos e sigam a lei moral”, reclamou o presidente da
organização não governamental (ONG) Educafro, Frei David de Castro.
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