Ibsen - Não posso imaginar que uma
circunstância tão dramática como o afastamento de um governo eleito ocorra por
decisão de sete juízes do tribunal eleitoral ou por ministros do TCU, por uma
questão técnica. Qualquer questão de campanha se resolve nos limites da Justiça
Eleitoral. Ela não tem o condão de interferir, nesse grau, na vida do país.
Assim como uma decisão do TCU. O Congresso, ao examinar uma questão dessa
natureza, não dispensa os aspectos técnicos. Mas os determinantes são os
critérios políticos.
Não nego que haja um potencial que possa desembocar numa crise
institucional. Alinho três fatores que podem produzir esse resultado: crise
econômico-financeira, incapacidade do poder público de responder a ela e falta
de gosto ou jeito da presidente para lidar com esses temas.
BBC Brasil - Vê chances de o Congresso afastá-la?
Ibsen - Lembro de que, em 1992, tive de
interromper tudo para receber parlamentares australianos. A chefe da delegação
pediu licença para abordar temas do Brasil, estavam muito ligados na nossa
crise. E perguntou: "o senhor acha possível que, após 20 anos de ditadura,
o primeiro presidente eleito seja afastado? Acha possível somar dois terços de
votos?". Respondi: “Dois terços, acho impossível. Mais fácil é a
unanimidade.”
Numa circunstância de normalidade, não há dois terços para afastar
um presidente. Agora, a anomalia resultante de uma crise política pode criar um
ambiente tal que os votos [como] no caso de Collor sejam meramente simbólicos.
O combustível foi a crise.
BBC Brasil - Como o senhor vê o papel do PMDB?
Ibsen - O PMDB está condenado a uma
espécie de dupla militância. É parceiro do governo na sua sustentabilidade, mas
não gêmeo univitelino, porque não é o centro do governo. Com todo o seu
tamanho, o PMDB é periférico. Tem compromisso com a ordem institucional, com o
apoio ao governo na sua preservação. Mas, se o governo for atingido, talvez
tenha de demonstrar que não é o governo.
BBC Brasil - A Lava Jato colocou o PMDB em posição desconfortável.
Como avalia isso?
Ibsen - O
que fica sob suspeita é toda a atividade político-partidária. Um pouco por suas
distorções, e aí os partidos merecem o grau de culpa, mas também porque a
repercussão das distorções da política é maior que a de outras áreas da vida
institucional.
Nosso sistema público tem funcionamento precaríssimo. O Judiciário
acumula processos numa quantidade absurda, não responde às necessidades da população.
A política é criminalizada num grau que não é injusto pelas deformações, mas é
pela falta de isonomia, pois toda a máquina pública tem a eficiência
comprometida.
BBC Brasil - Como avalia a presidência de Cunha na Câmara?
Ibsen - Em algumas coisas teve um papel
positivo, como o de colocar a Casa para deliberar e trazer à pauta questões
relevantes. Outra é a Câmara não agir como anexo do Executivo. Isto ocorreu com
as presidências petistas. É claro que não é preciso, nem possível, ignorar a
pauta do governo, a vinda do Senado. Mas a Câmara deve ter independência. Desagrada
que ele tenha abandonado, na reforma política, o centro da questão, para ficar
na periferia. Também não me agrada ver um ou outro ato de mera hostilidade ao
Executivo.
BBC Brasil - Como vê o rompimento dele com o governo, acusando-o
de prejudicá-lo na Lava Jato?
Ibsen - Não acho que isso tenha causado
[um problema institucional] porque não mudou essencialmente o posicionamento
dele. Sobre a investigação, não tenho meios de opinar. Não posso ser solidário
sem saber dos fatos, mas também não posso condená-lo.
Entendo que, para aquilo que tenha de administrar como árbitro,
não vá praticar facciosismos. Vai administrar com imparcialidade as relações
com os demais poderes. Espero que assim seja. Quanto às acusações, tem a seu
favor a presunção da inocência. Mas, num clima dessa natureza, quase que se
inverte o ônus da prova. É preciso, pelo menos ao agente político, mostrar sua
inocência. Não basta dizer que a acusação tem que demonstrar a culpa.
BBC Brasil - Cunha deveria deixar a presidência da Câmara? A
acusação combina com o cargo?
Ibsen - Pode até não combinar, mas o
afastamento de alguém eleito pelos representantes do povo pode ser uma
violação. Diferente é o ministro que, acusado, procura o presidente e diz:
"meu cargo está à sua disposição, me afasto para não causar constrangimento".
Não é adequado o chefe de um Poder se afastar por uma acusação, isso seria um
precedente perigoso.
BBC Brasil - O senhor é do PMDB, presidia a Câmara e comandou um
processo de impeachment. Vê paralelo com o momento atual?
Ibsen - O
paralelo que vejo é um pouco forçado, mas é uma projeção. O impeachment do
Collor, em setembro, ou mesmo agosto, tinha uma lógica avassaladora, avançava
com grande ímpeto. Mas, se recuarmos a março, abril, é parecido com o ambiente
atual. Não havia clima para cogitar o afastamento. O processo de impeachment
que acolhi, se não me engano, foi o 14º ou 15º pedido. Os anteriores mandei
arquivar. Alguns, muito bem fundamentados. E mandei arquivar, pura e
simplesmente.
BBC Brasil - Por que?
Ibsen - Um
processo de impeachment não é um processo penal, é político. Têm que estar
presentes todas as circunstâncias do processo político, a representatividade
dos autores do pedido, no caso os presidentes da ABI, OAB, o ambiente no país,
a opinião pública. E estas condições, presentes em agosto, não estavam em
março. Qualquer tentativa de adivinhar seria um pouco arriscada agora. Se hoje
não há, não sei se ali adiante não haverá as condições para um processo
semelhante.
BBC Brasil - O rompimento entre Cunha e governo pode antecipar um
processo de impeachment?
Ibsen - Não
acho que o presidente da Câmara, na solidão do seu gabinete, que é onde tudo
termina, deixe de perceber todas as implicações de um processo dessa natureza.
Ninguém chega ao cargo para decidir as questões com seus humores. É por isso,
aliás, que esse tipo de decisão é solitária. O presidente da República, da
Câmara, do Senado escuta. Mas decide sozinho.
BBC Brasil - Recorda-se do momento de sua decisão no caso Collor?
Ibsen Pinheiro - Lembro muito. Ouvi tanto
lideranças políticas como assessores. Mas sempre tive clareza de que a decisão
de acolher o processo era minha. A decisão de levar ao plenário e sobre o rito
também. Por melhor que fosse a assessoria, e por mais competentes que fossem as
opiniões políticas que recolhia, no fim é presidente da Câmara que decide. E
essa decisão é política.
Cunha não vai decidir essas questões com seus humores. Pode até
dizer algumas coisas que correspondam seus humores. Mas quem o conhece pode
achar que isso é também um processo calculado de impacto. Acho eu. Na decisão
ele será equilibrado como deve ser o chefe de um dos Poderes da República.
BBC Brasil - O senhor passou por um processo de cassação, ficou
inelegível. Alguma mágoa?
Ibsen - Não
fui vítima de uma conspiração que alguns tivessem urdido. Fui vítima de uma
conjugação. Tinha alta visibilidade e não tinha poder político. Isto faz de
você um alvo. É cogitado para presidente da República, é lembrado. Isso
desperta em torno do seu nome o ambiente de conflito político. E você não tem a
aparelhagem que é o cargo de líder, presidente. Voltei para a planície.
Isto numa análise do quadro. Numa análise pessoal, aprendi algumas
coisas. Uma delas é que o ódio só faz mal ao seu depositário. Não a seu alvo. Considero-me
um privilegiado, meu sofrimento se desfez em vida, e é tão frequente que isto
só se supere no obituário.
BBC Brasil - Pensa em voltar à Câmara?
Ibsen - Não penso. Já não me candidatei em
2010, estava no mandato 2007-2011. Acho que tive um bom mandato, dediquei-me à
Justiça tributária, especialmente à questão dos royalties. Acredito que teria
uma eleição relativamente tranquila, mas não quis voltar. Fui de lá afastado
pela cassação. Acho que queria, talvez como sentimento íntimo, voltar e sair
por vontade própria, e não pela alheia. Acredito que cumpri isso. (BBC)

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