O Centro de Controle e Prevenção de
Doenças americano (CDC) recomendou que gestantes evitassem viajar para o Brasil
e outros 13 países da América Latina onde há transmissão do zika vírus, por
causa dos casos de microcefalia em bebês que estão sendo relacionados à doença.
Na noite de sexta-feira, o CDC –
principal agência voltada para proteção da saúde pública nos Estados Unidos –
atualizou seus alertas para pessoas que pretendem viajar a Brasil, Colômbia, El
Salvador, Guiana Francesa, Guatemala, Haiti, Honduras, Martinica, México,
Panamá, Paraguai, Suriname, Venezuela e Porto Rico.
Os alertas já recomendavam medidas de
proteção contra a doença nesses países, mas foram atualizados com informações
sobre possíveis efeitos em gestantes. "O zika vírus pode passar da mulher
grávida para o bebê. Há relatos de um sério defeito no cérebro chamado
microcefalia e de outros problemas em bebês de mulheres que foram infectadas
pelo vírus na gravidez", diz o texto.
Para as grávidas em qualquer trimestre
da gestação, o CDC recomenda adiar a viagem para algum destes países. E para as
que planejam engravidar, a recomendação é conversar com seus médicos sobre os
riscos.
Em entrevista à BBC Brasil um dia antes
da atualização do alerta, o diretor da Divisão de doenças transmitidas por
vetores do CDC, Lyle Petersen, afirmou que o Brasil não seria o único país ao
qual a recomendação se referiria, apesar de ter sido o primeiro país do
hemisfério ocidental a registrar uma epidemia do zika vírus e o único, até o
momento, a detectar casos de microcefalia associados à doença.
"O Brasil foi o país do continente
que primeiro teve uma epidemia de zika. Mas pode ser razoável assumir que o
pior já tenha passado, enquanto que em outros países, ainda pode estar
começando", disse.
"O que tende a acontecer em surtos
desse tipo é que um número muito grande de pessoas é infectada na primeira
onda, quando o vírus atinge a população. Depois disso, o nível de transmissão
pode tornar-se bem menor. Os dados que temos mostram que o maior número de
casos de zika, especialmente no nordeste do Brasil, aconteceu no começo de
2015. Por isso estamos vendo os casos de microcefalia agora", disse.
"Então é possível que o nível de
transmissão já tenha atingido seu pico ao menos nessa parte do país."
Vírus
nos EUA - Na última quarta-feira, a confirmação de que uma
mulher de Harris County, no Texas, estava com zika após uma viagem a El Salvador
preocupou as autoridades americanas.
No final de dezembro, a chegada do vírus
a Porto Rico também soou o alarme na imprensa, que especula a possibilidade de
uma epidemia associada à microcefalia semelhante à brasileira no país.
Petersen, no entanto, diz que o caso do
Texas não foi o primeiro registrado da presença zika vírus – do tipo asiático,
como o que estaria presente no Brasil – nos EUA. "Há alguns anos identificamos
pessoas que chegam aos Estados Unidos infectadas com o vírus, principalmente da
região do Pacífico. É uma doença que se espalha por viajantes, então casos
'importados' assim são esperados e esse número deve crescer", afirma.
"Identificamos 11 pessoas que
chegaram ao país com zika entre 2010 e 2014. E como muitas pessoas não têm
sintomas, o número dos que vêm com a virose deve ser bem maior."
Segundo o pesquisador, a explicação para
que a presença do vírus nos EUA – e possivelmente em outros países do
continente americano – não tenha causado epidemias até então não é simples. "O vírus pode ser introduzido em
uma área muitas e muitas vezes antes de a infecção local começar. É um caso de
má sorte, de certo modo. Se a pessoa infectada entra no país e não é picada por
um mosquito, nada acontece. Então o vírus provavelmente entrou nas Américas
muitas e muitas vezes antes de as condições serem as ideais para uma
epidemia."
Mas Petersen acredita que, a julgar pelo
histórico de outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, que só
está presente nas regiões mais ao sul dos Estados Unidos, é menos provável que
o problema lá tome a mesma proporção que tem no Brasil.
"Ainda não detectamos transmissão
local aqui. Estamos preocupados com essa possibilidade, mas se o vírus seguir o
mesmo padrão da dengue, poderemos ter transmissão local e surtos menores, mas
não uma epidemia gigante como a que se vê no Brasil ou em outras regiões
tropicais", afirma.
"Foi exatamente o que aconteceu com
a chikungunya. Houve milhões de casos nas Américas, mas nos Estados Unidos
tivemos cerca de uma dúzia."
Na sexta-feira, o Ministério da Saúde
afirmou que o número de casos notificados de dengue no Brasil chegou a 1,6
milhão em 2015, em uma das maiores epidemias da doença, cujos sintomas se
confundem com os da chikungunya e os da zika.
Boatos - Após confirmar que o zika vírus foi encontrado em
bebês brasileiros com microcefalia mortos após o nascimento, o CDC acredita
estar mais perto de comprovar a conexão entre a doença e a má-formação, segundo
o cientista. "Eu diria que a chance de a microcefalia não ter sido causada
pelo zika vírus é extremamente pequena."
Um grupo de patologistas do CDC examinou
quatro amostras coletadas no Rio Grande do Norte e enviadas ao centro americano
pelo Ministério da Saúde. Duas delas eram de bebês microcéfalos que morreram 24
horas depois de nascer. As outras duas eram de placentas de mulheres que
tiveram abortos espontâneos de fetos com microcefalia.
Os testes encontraram o vírus tanto no
tecido cerebral dos bebês quanto nas placentas das mães. Para o pesquisador, os dados já reunidos
deixam pouco espaço para teorias como a de que vacinas ministradas em gestantes
ou contato com agrotóxicos poderiam ter causado o aumento de casos da
má-formação.
O Ministério da Saúde já negou ambas as
possibilidades, mas as teses ainda circulam nas redes sociais brasileiras. "Acho que a chance disso é bastante
pequena por algumas razões. A primeira é que nenhuma vacina ministrada em
mulheres hoje foi associada a nada do tipo. Temos anos de experiência e milhões
de pessoas testadas. E eu nunca vi algo assim com nenhuma vacina", afirma
Petersen.
"A segunda razão é que, dado o fato
de que o aumento de casos também aconteceu na Polinésia Francesa após um surto
de zika, a ideia de que algum agrotóxico local possa ter causado isso não faz
muito sentido. Teria que ser um químico presente nos dois países e que tenha agido
ao mesmo período da epidemia do zika vírus."
"Além disso, quando você examina
imagens dos cérebros das crianças, elas têm semelhanças com o que se vê em
casos de infecções como a rubéola. Por isso, parece mesmo ser uma má-formação
causada por infecção."
Mesmo assim, ele diz que mais estudos
serão necessários para estabelecer definitivamente a relação entre o vírus e o
sintoma nos bebês. "Ainda não podemos falar em 100% de
certeza, mas estamos chegando lá. O Ministério da Saúde brasileiro está certo,
mas ainda queremos ver mais evidências como esta que acabamos de encontrar.
Estes são alguns casos no meio de mais de 3.500 bebês (com suspeita de
microcefalia) no país."
O CDC vai colaborar com pesquisadores
brasileiros em novos estudos que tentarão dimensionar os riscos de mães que
tiveram o zika vírus na gravidez de terem bebês com microcefalia. "Esses estudos poderão responder a
perguntas como: 'Quão grande é a chance de o bebê ter microcefalia se a mãe
teve zika? É certeza que isso acontecerá ou é uma chance em 100?", diz. (BBC)

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