Desde
que foi apresentada pelo governo federal, em dezembro, a proposta de Reforma da
Previdência tem atiçado ânimos. De um lado, os que a consideram essencial para
as contas públicas. De outro, os que a julgam prejudicial para os direitos dos
trabalhadores. Diante
da resistência de diversos setores nos últimos meses, o projeto acabou alterado
de forma a tentar facilitar sua aprovação no Congresso.
A nova
versão foi apresentada nesta terça-feira em comissão especial da Câmara por seu
relator, o deputado Arthur Maia (PPS-BA), e traz mudanças que suavizam o texto
original. O tema será discutido pelo colegiado ao longo da semana que vem - a
estimativa é que só seja votado em maio.
No
parecer de Maia, mulheres se aposentam com 62 anos - em vez dos iniciais 65 - e
o tempo de contribuição para ganhar aposentadoria integral fica em 40 anos de
trabalho, e não mais 49. O mínimo de contribuição continua, no entanto, em 25
anos.
O
governo vem dizendo que as transformações no texto estão dentro do previsto e
que, com elas, a economia da reforma será diminuída em 20% - de R$ 800 bilhões
em dez anos para R$ 630 bilhões.
Especialistas
dizem que as substituições apenas atenuaram a primeira versão. Eles dividem-se
entre aqueles que veem as mudanças um aprimoramento capaz de fazer a PEC passar
no Congresso, garantindo um necessário ajuste fiscal, e os mais críticos que,
apesar de uma leve melhora, ainda consideram os critérios muito duros. Esses
últimos temem a criação de uma multidão que ficará fora da Previdência,
enquanto militares e servidores públicos mantêm privilégios.
Conheça
a seguir as principais modificações anunciadas por Maia, e entenda como elas
afetam o trabalhador.
Idade
mínima e tempo de contribuição
Como
era - A
proposta original estabelecia que, para se aposentar, homens e mulheres
precisariam preencher dois requisitos: ter no mínimo 65 anos de idade e 25 anos
de contribuição.
Como
ficou - No
parecer do deputado, a idade mínima no caso das mulheres cai para 62 anos. Os
65 anos são mantidos para os homens, assim como tempo de contribuição, que fica
em 25 anos para ambos os sexos.
O
que dizem os economistas
A
mudança foi considerada positiva por parte dos economistas ouvidos pela BBC
Brasil. O professor de economia da USP José Roberto Savoia diz que, apesar de
não seguir o padrão europeu, onde muitos países têm a mesma idade para homens e
mulheres, o novo texto leva em conta as dificuldades das brasileiras no mercado
de trabalho.
Dados
da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílios) de 2015, elas trabalham
mais, ganham menos e ocupam vagas piores do que seus colegas homens. "(Essa
alteração) demonstra uma situação do mercado de trabalho local, onde ainda
existe um processo de discriminação contra a mulher."
No
entanto, para o professor da USP Jorge Felix, autor de livros sobre o assunto,
o principal problema da reforma não foi alterado: o tempo de contribuição. Ele
diz que o mínimo de 25 anos é excessivo e inalcançável para boa parte dos
brasileiros.
"As
pessoas não conseguem atingir esse tempo. Dados já mostraram que, pelas novas
regras, 90% dos que recebem o benefício hoje não conseguiriam se aposentar.
Como não mexeu nesse quesito, não vejo um grande impacto."
Regra
de transição
Como
era - As
regras anunciadas pelo governo em dezembro estabeleciam um regime de transição
entre o atual e o novo sistema de Previdência. Poderiam fazer parte desse
regime, que tinha critérios específicos, mulheres acima de 45 anos e homens
acima de 50 anos.
Eles
deveriam pagar um pedágio de 50% sobre o tempo que faltasse para se aposentar,
de acordo com as regras atuais: 30 anos de contribuição para mulheres e 35 para
homens ou 60 anos de idade para mulheres e 65 anos para homens, com 15 anos de
contribuição.
Por
exemplo, se para uma mulher de 55 anos faltassem cinco anos para receber o
benefício, ela teria que trabalhar por mais dois anos e meio, que representam o
acréscimo de 50%. Em vez de cinco anos, ela ficaria no emprego por mais sete
anos e meio.
Como
ficou - O
parecer de Maia traz um regime de transição diferente, sem idade mínima para
participar. Logo, todos os atuais trabalhadores entram automaticamente nesse
grupo.
No
documento, consta um pedágio menor, de 30%, sobre o tempo de contribuição que
falta para a aposentadoria, segundo as regras atuais (35 anos de contribuição
para homens e 30 para mulheres).
Por
exemplo, um homem que hoje precisa contribuir por mais 20 anos para se
aposentar teria mais seis anos acrescentados a essa conta, totalizando 26 anos
de trabalho. No
entanto, se as regras forem aprovadas dessa forma, todos os brasileiros deverão
atingir uma idade mínima para se aposentar.
No
regime de transição, a idade mínima começará com 53 anos para mulheres e 55
anos para homens e aumentará progressivamente até atingir os 62 anos para as
brasileiras e 65 anos para os brasileiros na década de 2030.
O
que dizem os economistas
O
professor de Economia da Fundação Getulio Vargas Nelson Marconi diz que incluir
todos nas regras de transição suaviza os impactos da reforma. Na primeira
versão da emenda, uma mulher de 44 anos e meio não entraria no grupo por
questão de meses. Pelo parecer lido hoje, todos poderiam entrar aos poucos no
novo sistema.
Entretanto,
pondera o professor Jorge Felix, o regime de transição não é tão confortável
quanto parece. Segundo ele, é apenas melhor do que o sugerido inicialmente, que
seria "muito ruim".
"Quando
você coloca um bode na sala e depois tira, tudo parece muito melhor, mas é
apenas um paliativo. O custo para o brasileiro, que vai precisar trabalhar
muito mais, continua o mesmo."
Aposentadoria
rural e pensões
Como
era - A
proposta de emenda constitucional (PEC) da Reforma da Previdência enviada pelo
governo ao Congresso igualava a idade mínima e o tempo de contribuição do
trabalhador rural ao do trabalhador urbano: 65 anos de idade para homens e
mulheres e 25 de contribuição.
Em
relação às pensões, o primeiro texto permitia que o benefício fosse inferior a
um salário mínimo. O documento estabelecia uma cota de 50% da média das
remunerações do falecido para a família, mais um acréscimo de 10% por
dependente. Também
não seria possível acumular pensão e aposentadoria.
Como
ficou - No
parecer apresentado nesta terça pelo deputado Arthur Maia, os dois critérios
foram diminuídos para trabalhadores rurais: 60 anos de idade para homens e 57
para mulheres, com 15 anos de contribuição.
A
proposta, no entanto, não determina qual será a alíquota de contribuição do
trabalhador rural, mas que será semelhante ou inferior ao do MEI
(microempreendedor individual) - que recolhe 5% do salário mínimo.
No
caso das pensões, o relator as manteve vinculadas ao salário mínimo. Além
disso, torna-se possível acumular pensões e aposentadorias, desde que o valor
não passe o de dois salários mínimos.
O
que dizem os economistas
Os
especialistas ouvidos se dividem sobre essas medidas. Para parte deles, ao
mudar as regras para os empregados rurais, o governo reconhece que eles têm
condições de trabalho diferentes das dos urbanos.
Por
exercer funções braçais, eles costumam parar de trabalhar mais cedo e muitos
não estão no mercado formal. Reconhecer essa realidade distinta seria, por si
só, um ponto positivo.
Apesar
da melhora, o professor da FGV Nelson Marconi considera que quem trabalha no
campo ainda corre o risco de não se aposentar.
"Diminuir
a contribuição para 15 anos não vai resolver o problema. Muitos vão continuar
sem atingir o benefício", diz.
"Eles
estão diminuindo o acesso ao programa de assistência que existe dentro da
Previdência, o que pode ter um impacto sobre a pobreza."
A
principal crítica de Marconi é a fragilidade frente a qual ficam trabalhadores
rurais e informais, enquanto servidores públicos não sofreram mudanças tão
extremas, mantendo o pagamento da aposentadoria igual aos últimos salários em
alguns casos.
"Ela
é melhor do que a original, mas ainda continua padecendo de dois problemas: não
estão atacando como deviam a aposentadoria dos servidores, inclusive dos
militares, e não conseguiriam resolver o impasse dos que não vão conseguir se
aposentar pelo regime."
O que
preocupa o professor Savoia, da USP, é o limite de dois salários mínimos para
quem acumula pensão e aposentadoria. Ela acredita que o teto deveria ser maior,
porque muitas famílias dependem desses benefícios para viver e o valor
estabelecido não seria suficiente.
"Vamos
combinar que alguém que recebe quatro salários mínimos ter que escolher entre
um dos benefícios pode levar a um aumento da pobreza." (BBC)

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