José
Wilson Brasil: Cem anos de sobralidade sem limites
“A DEUS, ZÉ WILSON! A ZÉ WILSON, ADEUS!” – Esta
frase intitulou a coluna Poucas & Boas (Artemísio da Costa), publicada
no Jornal Correio da Semana em 19 de setembro de 2009, quatro dias depois da morte de José
Wilson Brasil. Em alusão ao centenário do seu nascimento transcorrido ontem
(21), o Correio da Semana resgata essa matéria para novamente homenagear este
sobralense de origem humilde, negro, pobre e que pouco frequentou a escola.
Eram admiráveis a força de vontade de aprender e
ser útil, a dedicação à história, à cultura de sua terra natal e o extremado
bairrismo de Zé Wilson Brasil. Isso foi o suficiente para credenciar sua figura
para representar todos aqueles que se propõem a conhecer melhor, a amar e a
defender Sobral.
Origens – Filho de Maria do Carmo Genovina e de pai
desconhecido, José Wilson Brasil nasceu a 21 de abril de 1917 na Praça Dep.
Francisco de Almeida Monte (Praça São Francisco), num casarão que existiu no
local onde hoje funciona a Oi (Ex-Telemar). Nascido em família muito pobre, ele
e os três irmãos não tiveram condições de frequentar escola. Ainda criança,
José Wilson foi entregue aos cuidados de dona Maria Furtado de Mendonça (dona
Mundola), com quem morou até os 16 anos de idade. Sua protetora era filha da
abolicionista Maria Thomázia.
Ofícios - Seu amor às letras e à música, sua luta por
grandes causas, associados ao convívio “com os brancos”, como ele sempre dizia,
transformaram o modesto pintor de paredes em regente da Banda de Música
sobralense. Antes, havia sido aluno do respeitado maestro cearense Eleazar de
Carvalho, no Rio de Janeiro, onde fora estudar a mando do Pe. Dr. José Palhano
de Saboia. Zé Wilson foi criador de corais musicais e desde 1939 até a década
de 1990 era quem cantava os “Ofícios da Paixão” nas celebrações da catedral de
Sobral nas Semanas Santas. Também foi funcionário público dos Correios e
Telégrafos, onde se aposentou como Carteiro.
Além desses atributos, era assíduo leitor,
principalmente de assuntos ligadas à sua terra, tornando-se, também,
colecionador de documentos históricos raros. De memória privilegiadíssima e
espírito solidário, jamais se furtava em colaborar com quem o procurava. Com
imensa boa vontade sempre colocava seus conhecimentos, bem como seu arquivo
pessoal, à disposição daqueles que, como ele, se interessavam em levar adiante
a história da cidade. Por conta disso, era frequentemente consultado por
estudantes, escritores e pela imprensa.
Amigos - Mesmo sem ter completado o curso Primário,
deu provas de inteligência e interesse pelo saber, tendo até conseguido
aprender rudimentos de latim. Continuou sua luta buscando aprendizagem no
convívio com personalidades ilustres da cidade, dentre elas, o bispo Dom José
Tupinambá da Frota, de quem se tornou íntimo e com quem chegou a travar
conversas demoradas e reservadas. Outros grandes amigos foram Cônego Joviniano
Loiola, com quem aprendeu música, Pe. Palhano de Saboia e quase todos os
sacerdotes e intelectuais da cidade. Durante toda sua vida Zé Wilson Brasil
também dispensou igual tratamento às pessoas mais humildes do seu vastíssimo
círculo de amizade.
Gestões - Sem nunca ter exercido cargo público, não
obstante ter recusado o convite do Mons. Arnóbio Carneiro para candidatar-se a
vereador em Sobral, Wilson Brasil fez gestões dignas de registro. Dentre elas,
a que culminou na instituição de um carro fúnebre municipal para os pobres.
Outra conquista sua foi a construção da Pracinha, com busto de Maria Thomázia,
na rua de mesmo nome, depois de reiterados pedidos aos prefeitos Joaquim
Barreto Lima e Ricardo Barreto. Além disso, o maestro sempre esteve usando seu
prestígio e amizade junto às autoridades em busca de benefícios para os mais
necessitados.
Lamento - Como eterno apaixonado por Sobral, sempre
defendia que o estudo da história do município deveria ser levado às escolas,
principalmente às séries iniciais. “Se nossa juventude ficar alheia à história,
um dia não mais saberemos quem fomos, nem o que já possuímos”, disse várias
vezes. Reclamava também da falta de reconhecimento dos vultos locais do passado
pelos mandatários e políticos atuais. “Temos na cidade até rua com nome de
animais! Por que não homenagear com elas os sobralenses ilustres que ainda não
foram lembrados?”. Assim desabafava se referindo à rua em que morou nos últimos
anos de sua vida, no bairro das Pedrinhas, Rua Caititu, hoje com outra
denominação.
Desprendimento – Como prova de seu
amor a Sobral e às boas causas há anos doou à Câmara Junior um terreno no
bairro Sinhá Saboia, único bem de que dispunha além da sua residência, para a
construção de uma escolinha que recebeu o nome da sua esposa. Segundo o
Professor Almino Rocha Filho, na ocasião da lavratura do contrato de doação Zé
Wilson assim se expressou, emocionando os presentes àquela solenidade:
“Assinando este documento assino a carta de alforria para muitos jovens
escravos do analfabetismo”. Era assim, Zé Wilson, um poço de bondade.
Prestimosidade - Estava
sempre esbanjando educação refinada, sapiência no ouvir e no falar ou
aconselhar, com permanente sorriso sincero e amigo e sempre com uma brincadeira
ou frase jocosa e respeitável. Uns buscavam apenas saborear do seu agradável
bate-papo; outros, para colher experiência; outros mais para dirimir dúvida
sobre o passado de Sobral. E todos saíam mais enriquecidos depois de cada
encontro. Assim viveu o eterno guardião da história de Sobral. Continuamente
fazendo o bem. Por méritos, era membro do Centro Cultural Dom José desta
cidade, tendo muito colaborado com a entidade repassando valiosas informações
históricas.
Morte - José
Wilson Brasil faleceu aos 92 anos, às 12h45min, da terça-feira, 15.09.2009, na
Santa Casa de Misericórdia de Sobral, em decorrência de problemas
cardiorrespiratórios. Negro, de origem humilde e pobre de bens materiais
percorreu toda sua existência como homem simples, mas sempre ostentando uma
envergadura moral exemplar. A forma como amava e defendia Sobral, sua permanente
disponibilidade para servir e seu constante bom humor já se constituíam num
autêntico patrimônio cultural e afetivo da cidade, digno de respeito, admiração
e imitação. O maestro José Wilson Brasil era viúvo de Francisca Olímpia Brasil
(falecida), com quem teve os filhos Antônio, Margarida (falecida), Maria do
Carmo e Antônio Alberto (falecido).
Familiares e amigos prestaram-lhe homenagens na
Funerária São Francisco, sendo depois celebrada missa na igreja da Sé. Em
seguida, o caminhão do Corpo de Bombeiros que transportava o caixão fez parada
em frente à (atual) Escola de Música Maestro José Wilson Brasil. Após a Banda
de Música executar o dobrado José Wilson Brasil (de Carlos Patriolino) e uma
marcha fúnebre, o cortejo seguiu para o cemitério São José, onde ocorreu o
sepultamento. (Texto de Artemísio da
Costa)
Zé Wilson Brasil em momento de
descontração com o Colunista.
Bairro Colina
Depois de alguns anos com essa denominação, desde 2010 passou a se chamar oficialmente Bairro Dr, Juvêncio de Andrade. A mudança originou-se de um projeto do vereador José Crisóstomo Barroso Ibiapina (Zezão).
Responda se souber
Responda se souber
E quem foi Dr. Juvêncio de Andrade? Resposta na Coluna de manhã.
Domingo na Educadora (www.radioeducadora950.com.br)
Até amanhã (10h), no Programa Artemísio da Costa na
Educadora AM 950. Notícias, reportagens, curiosidades, música de qualidade e
entrevistas. Participe:
3611-1550 //3611-2496.
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CRITIQUE E SUGIRA



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