Nasci em Cariré. Na época era uma
pequenina cidade que vivia em função da chegada do trem. A passagem do trem era
a maior atração. Era um momento muito animado do dia. A estação era muito
movimentada. Uns chegavam outros viajavam. O comércio era intenso naquele
momento. A grande atração para o lanche dos passageiros era o arroz doce.
Cariré, por muito tempo caracterizou-se como a cidade do Arroz Doce. O mais
preferido era feito por D. Edite Rodrigues, esposa do seu Antônio Honório de
Brito. Outro preferido era produzido por D. Diolina Muniz Braga, esposa do Seu
Miguel Braga.
Crianças, jovens e adultos iam à
estação nas horas da passagem do trem. Geralmente passava em torno de onze
horas. Não havia uma hora muito certa, porque, vez por outra, o trem “dava o
prego” e se atrasava. Mas era sempre o momento de maior movimento na cidade.
Meus pais foram Manoel Filomeno
Bastos, um homem de pouquíssimos estudos. Lia soletrando, lentamente, mas
compreendia facilmente o significado das palavras. Tinha uma memória
extraordinária. Contava histórias do Ceará que deixava as pessoas encantadas. Sabia
dar explicações sobre tudo que a gente perguntava. Era pedreiro, agricultor e
fazendeiro. Tinha uma habilidade muito grande para a música. Tinha bom ouvido
e, por isto guardava na memória um grande repertório. Isto, certamente, influiu
nas minhas habilidades musicais. Cheguei a organizar uma banda de música com
instrumentos feitos de talos da carrapateira e fazíamos sucesso.
Minha mãe, Luzia Silveira Bastos,
como todas as mulheres de sua época, de poucos estudos, porque não teve
oportunidade de ir à escola. Não existiam escolas. Tornou-se cantora da Igreja,
uma missão que lhe dava um destaque na comunidade. Ela, ao lado do meu pai e
cercada pelos filhos, conduzia a reza do terço diariamente. Aquele era um
momento importante em nossa vida e nos marcou para sempre. Sabia costurar com
muita facilidade. Era ela quem cuidava de confeccionar as roupas dos seus
quinze filhos, além dos trabalhos domésticos.
Foram em Cariré os meus primeiros
passos. E foi lá que aprendi as primeiras letras. Não havia prédio escolar. Os
poucos que tinham o privilégio de estudar iam à casa da professora. A minha
primeira professora foi D. Maria Augusta Pereira. Era solteira e dedicava todo
seu tempo a cuidar de transformar a vida das crianças pelo estudo. Era estimada
e muito querida pelos alunos. Eu era atento às aulas, mas arranjava tempo para
algumas traquinagens, próprias de cada criança. Uma delas era ficar assistindo
aulas trepado numa meia parede que havia na sala. Mas não me descuidava do
estudo e, que eu me lembre, era um dos melhores da escola.
Mais tarde, já alfabetizado, tive
como professora D. Elisa. Um pouco austera, mas muito querida por todos. Havia
disciplina em sua sala de aula. Para o aluno sair da sala tinha que justificar
a ausência. Aquele período de afastamento era registrado por uma pedra que era
colocada sobre a mesa. Ao retornar, a pedra era recolhida. Sinal de que todos
os alunos estavam presentes. Sua filha, Ester, que lhe herdou a profissão,
adotou a mesma metodologia da pedra.
Passávamos o verão na cidade e,
no período do inverno íamos para a fazenda Soledade, distante quatro
quilômetros, de onde vínhamos para a escola montados em jumentos. Meus pais não
descuidavam de nossos estudos. Mesmo estando na fazenda, tínhamos que estudar e
a oportunidade foi dada a todos. No tempo livre, na fazenda, tomei a iniciativa
de construir a miniatura de uma igreja. Talvez fosse aquela uma forma de
demonstrar as minhas tendências vocacionais.
Dos tempos de infância, guardo a
lembrança de muita gente. Como a cidade era pequena, praticamente conhecíamos
todas as pessoas. Mas gostaria de destacar os nomes de Francisco Portela
Aguiar, José Augusto Aguiar, filhos de Raimundo Neri Aguiar,
conhecido por Raimundo Chicó, Dona Livramento,
mãe da professora Maria Augusta, Manoel Tomé, as Adelaides, Tobias, Miguel, Oto
do João Tomaz, comerciante de tecidos. João Tomaz era um homem culto, com
quem gostava muito de conversar. Uma de suas características: quando de pé,
ficava subindo e descendo na ponta dos pés, apoiando-se no bico dos sapatos.
Longe dele, eu o imitava. Havia também os filhos do Chico Rodrigues dos
Santos, Chico
Rodrigues Filho e Valdir que
depois foram morar em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba. Ainda
guardo nas lembranças estes nomes: Capitão Lucas
Rosa, fazendeiro e proprietário. Gostava muito de ler. O Padre Tibúrcio
emprestava-lhe os livros. Antônio Adriano da
Silveira era Tabelião. Era intelectual, poeta e orador em momentos
especiais. Era meu padrinho. Raimundo Elísio
Aguiar era comerciante e político. Foi prefeito de Cariré. Raimundo
Nery Aguiar era comerciante, proprietário, político e delegado. Foi a ele que
as Adelaides foram dar parte de alguns de nós meninos vadios e traquinas por
causa de nossas brincadeiras. Capitão Júlio Lima Rodrigues era
fazendeiro, político e proprietário da fazendo Retiro onde havia muitos
carnaubais e oiticicas. Meu pai era quem cuidava de colher os produtos. A
bodega de seu
Izaías Portela tinha de tudo que se procurasse. Interessante é que ele
sabia onde estava tudo que era procurado. Joaquim Taciano
Pereira, comerciante, proprietário e pai do Padre José Helênio Pereira. Foi
com o então seminarista que aprendi as primeiras declinações do Latim que muito
me serviram quando entrei no Seminário. D. Maria José Rodrigues
Ponte, esposa do senhor Eriberto de Sá Ponte, cuja ação política se
prolongou por muitos anos. Ela era uma pessoa extremamente caridosa. Tratava a
todos muito bem. Era a verdadeira Mãe dos Pobres. Seu Manoel Tomé era
ferreiro. Eu era atraído pelo som do ferro em que ele batia para dar-lhe a
forma desejada. As faíscas do ferro em brasa me chamavam atenção. Chico
Chagas era a grande atração nos leilões pelo seu estilo próprio de gritar os
nomes dos produtos oferecidos. Seu Galdino Mesquita era quem cuidava da
manutenção dos trilhos da Estrada de Ferro. Tinha um trolley à sua disposição
para o serviço de fiscalização. Aquilo deixava as crianças admiradas e com
vontade de passear naquele pequeno transporte. Seu Antônio Mangangá tinha
uma tarefa muito importante. Ele vendia água nas portas das casas. Como ele
sempre me punha na cangalha do jumento em que entregava água, os meus irmãos
passaram a me chamar também de Antônio Mangangá.
Seu João Hermeto de
Oliveira era um lojista muito preferido pela qualidade de seus
produtos. Sebastião Belo criou a sua própria fonte de renda. Como
não havia carteiros, ele tomou para si a tarefa de entregar as cartas que
chegavam. Fazia o papel de mensageiro e com isto ganhava gorjetas que lhe davam
pelo serviço prestado. Chico Doido e Izidora eram
dois personagens que despertavam curiosidade de todos. Numa certa desavença
entre os dois, Izidora correu para pegá-lo. Ele correu para Sinibu, hoje
Amanaiara, para nunca mais voltar, com medo. Chico Cego era filho da
Maria Ibiapina que era dona de um pequeno Café. Ele era um sanfoneiro renomado,
chamado para todas as festas populares da cidade. Quando menino eu ia à sua
casa só para ouvi-lo tocar. Com meu tio João Adriano da Silveira, também músico
que tocava piston, aprendi as notas musicais. A minha inclinação musical também
se manifestou quando confeccionei os instrumentos musicais com galhos de
carrapateiras para formar nossa própria Banda de Música de que eu era maestro. E
tantos outros nomes poderiam ser citados. Guardo comigo as melhores lembranças
de todos.
A minha caminhada para o
Seminário começou por Groaíras, então distrito de Cariré. Lá meu pai, com
frequência ia desenvolver a sua atividade de pedreiro. Eu o acompanhava para
ajudar em alguma coisa, especialmente encontrar seu cachimbo que, às vezes ele
perdia em algum andaime da obra. Foi lá que tive a oportunidade de
conhecer, à distância, o Padre João Batista Pereira, um virtuoso sacerdote,
então vigário de Santa Quitéria a que Groaíras, como capela estava vinculada. O
sacristão era José
Tomaz de Aquino, conhecido por Zé dos Padres e foi ele quem primeiro
escutou a minha manifestação de vontade de ser Padre.
Tive ainda como professora
querida, estimada e inesquecível Dona Altacir Muniz Braga. Foi ela quem me
preparou para o Seminário onde ingressei com muita facilidade, depois de
submeter-me aos exames considerados pré-requisitos. Em 1944 entrei para fazer o
Primeiro Ano Ginasial.
Começou ali uma nova e importante
história. Era uma vida bem diferente daquela que tinha em Cariré. O sistema era
todo diferente. A disciplina era muito rígida. Todos tinham que seguir as
mesmas normas. Estudávamos bastante, mas ao mesmo tempo tínhamos oportunidade
de brincar. O futebol era minha preferência e consegui ser destaque na seleção.
Outro destaque para mim foi a
música. Tive oportunidade de exercitar a tendência que já se manifestava na
infância. Fiz parte do coral e auxiliava o Padre Joviniano e depois o Padre
Cardoso na regência. Tínhamos que ser muito cuidadosos, porque qualquer falha
litúrgica ou musical numa celebração presidida por Dom José ele percebia. Certa
vez, nos perdemos na tonalidade. Eu era o regente enquanto o Sadoc acompanhava
no Harmônio, mas ao mudarmos o tom, numa certa parte do Ecce Sacerdos,
Dom José, de ouvido muito sensível, percebeu a falha quebrou a sua concentração
e, voltando-se para o nosso coral, falou: Parem essa
imoralidade... ninguém mais cantou ou tocou naquela cerimônia. (Continua
na próxima edição).
(*) Antonio Silveira Bastos,
de Cariré, é padre casado, professor aposentado. Este texto está no livro SEMINÁRIO DA BETANIA- AD VITAM –
65 DECLARAÇÕES DE AMOR – de Leunam Gomes e Aguiar Moura.


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