
O Ministério da
Educação (MEC) quer ampliar os debates acerca da educação domiciliar antes de
definir um marco regulatório. Segundo a coordenadora-geral do Ensino
Fundamental da Secretaria de Educação Básica do MEC, Aricélia do Nascimento,
esta é uma pauta que não deverá sair do papel no curto prazo. "Estamos nos
organizando para que possamos ampliar em grupos de trabalho essa discussão para
aí sim elaborar um planejamento para o médio e longo prazo. Não estamos
colocando essa pauta em curtíssimo prazo", diz.
A
preocupação da pasta é que as crianças e adolescentes tenham assegurado o
direito à aprendizagem e que o ensino siga o que está estabelecido na Base
Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que estipula o mínimo a ser
ensinado na educação básica, que vai do ensino infantil ao ensino médio. A BNCC
ainda está em fase de implementação no país.
Segundo
Aricélia, apesar de discutir o ensino domiciliar, o MEC não deixa de lado a
pauta de acesso à uma educação de qualidade. "Em nenhum momento a educação
domiciliar substitui a instituição escola. Entendemos que o Brasil pode e tem
ambições de neste momento ampliar o debate para que a sociedade possa ter
possibilidade a mais para aqueles que entendam que essa possibilidade possa
assegurar o direito subjetivo das crianças, adolescentes e jovens de terem
garantido o direito ao ensino".
O
Brasil ainda não cumpriu a meta de universalizar a educação básica. Por lei,
pelo Plano Nacional de Educação (PNE), até 2016, o país teria que universalizar
a pré-escola e o ensino médio. Ainda há cerca de 1,9 milhão de crianças e jovens fora da escola.
A
coordenadora-geral participou hoje (30) de seminário de educação domiciliar na
Câmara dos Deputados. Na casa, tramita o Projeto de Lei 2401/19 regulamenta a
educação domiciliar no país. Pelo projeto cabe ao MEC registrar as
famílias e aplicar uma avaliação aos estudantes cujos responsáveis optarem por
essa opção.
A
secretária nacional da Família do Ministério da Mulher, Família e Direitos
Humanos, Ângela Gandra, defendeu a educação domiciliar: "Nosso ministério
vem apoiar não uma vertente educativa, mas a liberdade e a responsabilidade dos
pais com relação à educação. Sendo fundamento à liberdade, tivemos a
preocupação em garantir o direito e viabilizá-lo sem sufocá-lo através da
oportuna regulação. Por outro lado, queremos acompanhar a oportuna
flexibilidiade para que as crianças que sejam educadas dessa forma sejam
efetivamente bem educadas".
A
pasta defende como pontos fundamentais do Projeto de Lei a garantia de que cabe
aos pais escolher o gênero de educação que dará aos filhos, a existência de uma
base cadastral das famílias que optarem pela educação domiciliar e a avaliação
da aprendizagem desses estudantes.
Para
a coordenadora do Comitê DF da Campanha Nacional pelo Direito à Educação,
Catarina de Almeida Santos, a educação não deve ser tarefa exclusiva da família.
"A educação é direito de todos, dever do estado e da família. Isso
significa que as famílas não estão excluídas. Na verdade, têm papel
fundamental. O processo formativo fica mais rico quando tem a participação da
família, mas isso não prescinde da participação do Estado", diz.
Representante
do Movimento Interfórum de Educação Infantil do Brasil, Maria Aparecida Martins
defende que é dever constitucional do Estado garantir a educação básica
gratuita para brasileiros de 4 aos 17 anos de idade, inclusive para quem não
tiver acesso na idade adequada. Pela legislação, é dever dos pais matricular
seus filhos na rede de ensino. Para ela, a proposta desobriga o Estado e os
pais desses deveres.
Segundo
Maria Aparecida, é importante que a criança vivencie experiências para além do
ambiente familiar. “A convivência com seus pares e com a diversidade é de
fundamental importância para o desenvolvimento da criança”, disse. Ela
questionou ainda se os órgãos do Estado brasileiro estariam preparados para
acompanhar e fiscalizar a aprendizagem em casa.
Defensor
do ensino domiciliar, o presidente da Associação Nacional de Educação
Domiciliar (Aned), Rick Dias, defendeu que o debate não se trata de família
versus escola, mas de um "trabalho de solidariedade" entre ambos. De
acordo com ele, é preciso olhar para a realidade, independente do que se gosta
ou não. No Brasil, de acordo com a Aned, em 2018, 7,5 mil famílias praticavam a
educação domiciliar. "Essas famílias estão em um limbo jurídico".
Segundo
Dias, a educação domiciliar é permitida em 65 países. Ele ressaltou que o
Brasil ocupa a 58ª posição no ranking internacional de liberdade educacional em
ranking da organização sem fins lucrativos Oidel, com sede em Genebra, na
Suíça. (Ag. Brasil)
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