sexta-feira, 15 de novembro de 2019

LITERATURA CEARENSE: Escola Maria Marina Soares: 66 anos! (Leunam Gomes*)


Lembro bem a história do primeiro prédio escolar público de Guaraciaba do Norte. O único prédio público, até então existente, era a Cadeia Pública, localizada na Praça do Mercado, onde, posteriormente, funcionou o Banco do Brasil.

As Escolas Reunidas, com duas salas pela manhã e duas à tarde, funcionavam em casas alugadas. Por alguma razão, vez por outra mudavam de local. Para as crianças, as mudanças eram interessantes. Uma novidade. Não havia a mínima estrutura, além das duas salas de aula. Não havia merenda escolar. Só as salas, carteiras onde se sentavam dois alunos e um quadro negro, na parede.

Sob a gestão de Vicente Nobre de Sousa, de 1950 a 1954, chegaram os recursos para construção de uma Escola com três salas de aula, dois banheiros e um pequeno pátio coberto para recreação. Surgiu um grave problema: Não havia quem soubesse interpretar a planta do prédio a ser construído. Os bons pedreiros da época: Abdoral, Messias Lucas, Antonio Cícero, Assis Lucas, Chico Neves, e outros como os ajudantes Fernandes Israel, José Maria Saboia, o então iniciante Pedro Coló, nunca tinham lidado com plantas de prédios. Sabiam fazer casas, mas com plantas simples, apenas com o traçado da casa, com suas divisórias. As casas eram quase todas iguais. Então era fácil. A planta do prédio escolar era toda cheia de desenhos. Tudo com indicação das medições de tamanho, altura, etc. Tinham que fazer cálculos. E aí a coisa ficava difícil. Pouquíssimos sabiam ler.

A situação estava complicada. Não havia Engenheiros e nem Mestres de Obra que pudessem orientar. Talvez nem passasse pela cabeça de ninguém essa ideia, naquela época. O contato com Fortaleza era raríssimo.  Uma viagem à capital demorava dois dias e não havia ônibus para fazer a viagem.  Era raríssimo alguém viajar à capital. A possibilidade maior era devolver o dinheiro ao Estado e perder a oportunidade de ter um prédio escolar.

Aí, meu pai, José Raimundo Gomes Sobrinho, entrou na história. Ele não era pedreiro nem carpinteiro. Era músico e tinha uma sapataria. Mas era muito perspicaz e ousado. Havia feito a planta e construído sua própria casa, com aqueles pedreiros. Até os mosaicos, ele construiu sem nunca ter visto como se os fabricava. E fez a casa mais diferente da cidade, daquela época. Quando se mudou com a família para Fortaleza, vendeu ao seu concunhado Raimundo Nonato de Sousa. Topou o desafio de assumir a construção do prédio para o município não perder aquela oportunidade. E pôs mãos à obra, confiado na competência dos pedreiros e marceneiros locais, já seus conhecidos.

Meu pai e o então prefeito, Vicente Nobre de Sousa, eram muito amigos, compadres, correligionários, no PSD e pertenciam à Congregação Mariana. Para facilitar as coisas, meu pai ofereceu, quase de graça, o terreno para a escola.

O local indicado, à época, era considerado muito fora do centro. Meu pai defendia que era uma forma de estimular o crescimento da cidade. Aquela região só tinha mato. Um pouco acima, existia o campo de futebol, cercado de palha, onde hoje está o Terminal Rodoviário.

A construção do prédio escolar era a maior obra na cidade. Abriu-se oportunidade para muitos trabalhadores. Primeiro para desmatar a área escolhida. Depois para a marcação da obra e convidar os Pedreiros, serventes de pedreiros, ajudantes.  A construção virou a grande atração daquela pequenina cidade.  Todo mundo queria ir ali para ver e confirmar a verdade que a cidade teria seu primeiro prédio escolar.

Era um grande sonho que se tornava realidade.  As crianças se admiravam porque até sanitários teriam. Era algo novo para a grande maioria que só conhecia “casinhas” cercadas de palha, no fundo do quintal das casas. Haveria espaço coberto para recreio. Ia ter água encanada. Tudo novidade. Meninos e meninas que não estudavam, começaram a ter vontade de ir para a nova escola que ia surgir.

Naturalmente, aconteceram as críticas. Havia quem achasse que o prédio cairia por ser construído com tijolos crus. Houve até quem dissesse que jamais entraria naquele prédio que iria cair. Era a descrença na mão de obra local. Os boatos circulavam rápido, mas a obra crescia à vista de todos.  

A construção do prédio para as Escolas Reunidas mudou a história da Educação de nossa terra. Criou-se um novo ânimo. Pouco tempo depois, o Professor João Barreto dos Santos que já havia morado um tempo em Guaraciaba do Norte, retornou com as perspectivas que se abriram com o prédio recém construído. Com sua chegada, a Educação teve novo impulso. Não me lembro de ter havido inauguração daquele prédio. Ainda não era costume da época.

Ali estive várias vezes, tanto durante a construção quanto, e sobretudo, na gestão do Professor João Barreto, durante as minhas férias quando já estudava no Seminário de Sobral. Anos depois, já numa das gestões de José Maria Melo, tive a oportunidade de ministrar, com colegas do Movimento de Educação de Base – MEB, de Sobral, um curso de Alfabetização de Adultos, com o Método de Paulo Freire.

Nunca tive a oportunidade de estudar no novo prédio. À época, estudava com a D. Dayse Torres Lemos que, após concluir o curso Normal, em Fortaleza, retornou à sua terra e abriu uma escola. O mesmo fez a D. Oscarina Fernandes.  Foram as primeira Professoras diplomadas, depois de Dona Milica, Emília Botelho Fernandes, que toparam vir trabalhar em nossa terra.

Com a Dona Dayse, estudamos e fizemos parte da primeira turma que concluiu a quarta série em nossa terra. Eram da turma: Elisiário, Zé Abner, Zeneudo, Ioneide, Fransquinha, Edilma, Elianice, Adilton Mesquita, Antonio Cícero, Luizinha, Januário, Ferreirinha e eu.  Acho que não esqueci ninguém.

É muito gratificante, 66 anos depois, observar em que aquela modesta, mas importante escola se transformou e mudou a nossa história. Hoje, denominada, com muita justiça Escola Maria Marina Soares, composta por excelente corpo técnico e pedagógico, é motivo de orgulho para nossa terra. À distância, sempre acompanho e torço pelos êxitos desta escola.

Aqueles operários que construíram esta obra, jamais imaginavam a contribuição que estavam dando para o desenvolvimento de nossa terra. Mesmo que muitos não soubessem ler, escreveram seus nomes na história da nossa Educação.





(*) Leunam Gomes, guaraciabense, ex aluno do Seminário de Sobral, Ex Secretário de Educação em Croatá, Poranga e Guaraciaba do Norte, Professor da UVA, onde foi Pró-Reitor de Extensão.

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