
Lembro bem a história do primeiro prédio
escolar público de Guaraciaba do Norte. O único prédio público, até então
existente, era a Cadeia Pública, localizada na Praça do Mercado, onde,
posteriormente, funcionou o Banco do Brasil.
As Escolas Reunidas, com duas salas pela
manhã e duas à tarde, funcionavam em casas alugadas. Por alguma razão, vez por
outra mudavam de local. Para as crianças, as mudanças eram interessantes. Uma
novidade. Não havia a mínima estrutura, além das duas salas de aula. Não havia
merenda escolar. Só as salas, carteiras onde se sentavam dois alunos e um
quadro negro, na parede.
Sob a gestão de Vicente Nobre de Sousa, de
1950 a 1954, chegaram os recursos para construção de uma Escola com três salas
de aula, dois banheiros e um pequeno pátio coberto para recreação. Surgiu um
grave problema: Não havia quem soubesse interpretar a planta do prédio a ser
construído. Os bons pedreiros da época: Abdoral,
Messias Lucas, Antonio Cícero, Assis Lucas, Chico Neves, e outros como os
ajudantes Fernandes Israel, José Maria
Saboia, o então iniciante Pedro Coló,
nunca tinham lidado com plantas de prédios. Sabiam fazer casas, mas com plantas
simples, apenas com o traçado da casa, com suas divisórias. As casas eram quase
todas iguais. Então era fácil. A planta do prédio escolar era toda cheia de
desenhos. Tudo com indicação das medições de tamanho, altura, etc. Tinham que
fazer cálculos. E aí a coisa ficava difícil. Pouquíssimos sabiam ler.
A situação estava complicada. Não havia
Engenheiros e nem Mestres de Obra que pudessem orientar. Talvez nem passasse
pela cabeça de ninguém essa ideia, naquela época. O contato com Fortaleza era
raríssimo. Uma viagem à capital demorava
dois dias e não havia ônibus para fazer a viagem. Era raríssimo alguém viajar à capital. A
possibilidade maior era devolver o dinheiro ao Estado e perder a oportunidade
de ter um prédio escolar.
Aí, meu pai, José Raimundo Gomes Sobrinho,
entrou na história. Ele não era pedreiro nem carpinteiro. Era músico e tinha
uma sapataria. Mas era muito perspicaz e ousado. Havia feito a planta e
construído sua própria casa, com aqueles pedreiros. Até os mosaicos, ele
construiu sem nunca ter visto como se os fabricava. E fez a casa mais diferente
da cidade, daquela época. Quando se mudou com a família para Fortaleza, vendeu
ao seu concunhado Raimundo Nonato de Sousa. Topou o desafio de assumir a
construção do prédio para o município não perder aquela oportunidade. E pôs
mãos à obra, confiado na competência dos pedreiros e marceneiros locais, já
seus conhecidos.
Meu pai e o então prefeito, Vicente Nobre de
Sousa, eram muito amigos, compadres, correligionários, no PSD e pertenciam à
Congregação Mariana. Para facilitar as coisas, meu pai ofereceu, quase de
graça, o terreno para a escola.
O local indicado, à época, era considerado
muito fora do centro. Meu pai defendia que era uma forma de estimular o
crescimento da cidade. Aquela região só tinha mato. Um pouco acima, existia o
campo de futebol, cercado de palha, onde hoje está o Terminal Rodoviário.
A construção do prédio escolar era a maior
obra na cidade. Abriu-se oportunidade para muitos trabalhadores. Primeiro para
desmatar a área escolhida. Depois para a marcação da obra e convidar os
Pedreiros, serventes de pedreiros, ajudantes.
A construção virou a grande atração daquela pequenina cidade. Todo mundo queria ir ali para ver e confirmar
a verdade que a cidade teria seu primeiro prédio escolar.
Era um grande sonho que se tornava realidade.
As crianças se admiravam porque até
sanitários teriam. Era algo novo para a grande maioria que só conhecia
“casinhas” cercadas de palha, no fundo do quintal das casas. Haveria espaço
coberto para recreio. Ia ter água encanada. Tudo novidade. Meninos e meninas
que não estudavam, começaram a ter vontade de ir para a nova escola que ia
surgir.
Naturalmente, aconteceram as críticas. Havia
quem achasse que o prédio cairia por ser construído com tijolos crus. Houve até
quem dissesse que jamais entraria naquele prédio que iria cair. Era a descrença
na mão de obra local. Os boatos circulavam rápido, mas a obra crescia à vista
de todos.
A construção do prédio para as Escolas
Reunidas mudou a história da Educação de nossa terra. Criou-se um novo ânimo.
Pouco tempo depois, o Professor João Barreto dos Santos que já havia morado um
tempo em Guaraciaba do Norte, retornou com as perspectivas que se abriram com o
prédio recém construído. Com sua chegada, a Educação teve novo impulso. Não me
lembro de ter havido inauguração daquele prédio. Ainda não era costume da
época.
Ali estive várias vezes, tanto durante a
construção quanto, e sobretudo, na gestão do Professor João Barreto, durante as
minhas férias quando já estudava no Seminário de Sobral. Anos depois, já numa
das gestões de José Maria Melo, tive a oportunidade de ministrar, com colegas do
Movimento de Educação de Base – MEB,
de Sobral, um curso de Alfabetização de Adultos, com o Método de Paulo Freire.
Nunca tive a oportunidade de estudar no novo
prédio. À época, estudava com a D. Dayse Torres Lemos que, após concluir o
curso Normal, em Fortaleza, retornou à sua terra e abriu uma escola. O mesmo
fez a D. Oscarina Fernandes. Foram as
primeira Professoras diplomadas, depois de Dona Milica, Emília Botelho
Fernandes, que toparam vir trabalhar em nossa terra.
Com a Dona Dayse, estudamos e fizemos parte
da primeira turma que concluiu a quarta série em nossa terra. Eram da turma: Elisiário, Zé Abner, Zeneudo, Ioneide,
Fransquinha, Edilma, Elianice, Adilton Mesquita, Antonio Cícero, Luizinha,
Januário, Ferreirinha e eu. Acho que
não esqueci ninguém.
É muito gratificante, 66 anos depois,
observar em que aquela modesta, mas importante escola se transformou e mudou a
nossa história. Hoje, denominada, com muita justiça Escola Maria Marina Soares, composta
por excelente corpo técnico e pedagógico, é motivo de orgulho para nossa terra.
À distância, sempre acompanho e torço pelos êxitos desta escola.
Aqueles operários que construíram esta obra,
jamais imaginavam a contribuição que estavam dando para o desenvolvimento de
nossa terra. Mesmo que muitos não soubessem ler, escreveram seus nomes na
história da nossa Educação.

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