Com objetivo de prevenir a gravidez na
adolescência, o ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos quer
estimular os jovens a não transar. Nesta sexta-feira, a pasta comandada por
Damares Alves promove um seminário com esse enfoque na Câmara dos Deputados, em
preparação para a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, que
ocorre no início de fevereiro.
À BBC News Brasil, a coordenadora-geral de Promoção
dos Direitos da Criança e do Adolescente do ministério, Cecília Pita, disse que
a pasta não promoverá o uso de preservativos e outros métodos contraceptivos
porque isso já é realizado com políticas da Saúde e da Educação.
Algumas dessas ações, porém, têm sido
revistas no governo de Jair Bolsonaro -
o presidente afirmou em março que o Ministério da Saúde iria recolher e
reformular a Caderneta de Saúde do Adolescente, publicação que traz ilustrações
sobre como usar preservativos. Na ocasião, ele também sugeriu aos pais que
cortassem essas páginas da publicação, aproveitando o restante do material. A
pasta não respondeu à BBC News Brasil se de fato está revisando o teor da
caderneta, que segue disponível em seu site.
"No currículo escolar já tem a
previsão do ensino dos métodos contraceptivos, não é nada que a gente precise
fazer. A gente entende que é preciso, sim, ter educação sexual, mas que é
preciso informar sobre os benefícios de uma iniciação (sexual) tardia, e os
prejuízos de uma iniciação precoce", argumentou Cecília Pita.
A coordenadora-geral disse que a pasta
comandada por Damares ainda está elaborando as ações e não soube informar
quanto será gasto.
Dados
do Ministério da Saúde mostram que os casos de gravidez na adolescência (até 19
anos) recuaram 36% no Brasil entre 2000 e 2017. Ainda assim, a incidência segue
alta. Segundo o último relatório da ONU sobre o tema, o Brasil registra 62
jovens gestantes a cada mil jovens entre 15 e 19 anos, enquanto a taxa média
mundial é de 44 a cada mil.
Além disso, tem aumentado no país a
transmissão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), devido ao pouco uso
do preservativo. Dados da ONU indicam que o Brasil apresentou aumento de 21% no
número de novos casos de infecções por HIV de 2010 a 2018, o que vai na
contramão mundial, já que, no mesmo período, a queda foi de 16% no planeta.
Inspiração
americana - Segundo Cecília Pita, o principal
objetivo do Seminário sobre Gravidez Precoce de Crianças e Adolescentes,
realizado nesta sexta, é entender melhor como essa política vem sendo adotada
nos Estados Unidos e avaliar sua implementação no Brasil. A promoção da
abstinência sexual ganhou novo fôlego por lá após a eleição do presidente
Donald Trump, apesar de críticas de organizações que consideram a educação
sexual e a promoção do uso de métodos anticoncepcionais como forma mais
eficiente de evitar a gravidez indesejada entre jovens.
Desde 2018, a Casa Branca estabeleceu
novas diretrizes para o repasse de recursos a organizações que atuam na
prevenção à gravidez na adolescência, aumentando o favorecimento das que
promovem a abstinência.
O ministério chefiado por Damares
convidou como palestrante do seminário Mary Anne Mosack, presidente da Ascend,
organização que se descreve como "líder no campo de Prevenção de Riscos
Sexuais (Sexual Risk Avoidance)". A instituição realiza cursos para
qualificar educadores a incentivar os jovens a não transar. Na visão da Ascend,
a contracepção deve ser entendida como um "método secundário" de
prevenção.
"Acreditamos que os adolescentes
precisam de informações clinicamente precisas e apropriadas à idade sobre
contracepção. Mas a maneira como as informações são compartilhadas não deve
normalizar o sexo entre adolescentes como um comportamento esperado e os
adolescentes devem saber que a contracepção reduz, mas não elimina o
risco", explicou Mosack à BBC News Brasil.
Também falará no evento o pastor Nelson
Júnior, coordenador da organização cristã Eu Escolhi Esperar, que tem como
propósito "encorajar, fortalecer e orientar os solteiros cristãos a
esperarem até o casamento para viverem suas experiências sexuais".
Júnior conta que procurou Damares após
a ministra defender em maio, em entrevista à BBC News Brasil,
que "a abstinência fosse também um método a ser discutido em sala de
aula".
Na ocasião, ela disse que o jovem que
"está tendo relação sexual precisa se prevenir e precisa ser
orientado" sobre uso de preservativo. Em seguida, defendeu que "o
método mais eficiente para a não gravidez não é a camisinha, não é o diu, não é
o anticoncepcional, o método mais eficiente é a abstinência".
"Por que não falar sobre isso? Por
que não falar de retardar o início da relação sexual? Eu defendo essa
tese", reforçou ainda Damares.
Depois disso, Júnior propôs à ministra
essa abordagem durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na
Adolescência, prevista para acontecer sempre no início de fevereiro após lei
aprovada pelo Congresso em 2018 e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no
início de ano.
O presidente Jair Bolsonaro também já se manifestou sobre métodos contraceptivos entre jovens: ele sugeriu aos pais que cortassem páginas de publicação que orientam o uso do preservativo
Abstinência 'sem viés religioso'
Segundo
Júnior, a proposta não é desconstruir políticas já existentes que promovem o
uso de preservativos, mas apresentar a "preservação sexual"
(abstinência) como mais uma alternativa para evitar a gravidez, inclusive para
os que já não são mais virgens.
"O desejo da ministra quando
conversou conosco, e o nosso também, é entender que precisa manter todas as
políticas e ampliarmos a discussão. No Brasil, você tem quase todos (os métodos
contraceptivos), mas, até mesmo por uma questão política, o único método que o
governo nunca deu atenção é a preservação sexual", crítica.
"Quanto mais cedo (o adolescente)
inicia sua vida sexual, mais tempo ele fica exposto aos riscos de uma gravidez
precoce e de infecções sexualmente transmissíveis. O que a gente acredita é
que, mostrando que esperar também é uma opção, isso vai cooperar para que esses
índices diminuam", defende.
Júnior reclama que há muito
"preconceito" contra seu movimento e afirma que a proposta é que o
trabalho do governo nessa temática não tenha "viés religioso".
"Seria uma linguagem para respeitar os valores familiares e religião de
cada adolescente. Nossa intenção seria só mostrar que esperar também é uma
escolha", ressalta.
"O que a gente percebe na prática
é que muitos adolescentes que não têm relações sexuais na adolescência se
sentem constrangidos, têm vergonha de admitir a decisão. Muitos adolescentes,
principalmente meninas, acabam cedendo e iniciando sua vida sexual porque
querem fazer parte de um grupo", disse ainda, ao defender seu movimento.
Abstinência
não é método contraceptivo, afirma educadora sexual
Questionada sobre a nova linha proposta
pela ministra Damares, a educadora sexual Lena Vilela disse à reportagem
considerar positivo explicar aos jovens que transar ou não é uma escolha
individual deles.
Segundo ela, o objetivo da educação
sexual não é promover o sexo, mas tornar o jovem consciente dessa liberdade de
escolha e também da responsabilidade que deve assumir caso decida começar a
transar.
"Ninguém é obrigado a fazer sexo
na adolescência. Você pode esperar. Se for uma escolha, está ótimo. Agora, se
eu imponho que tem que escolher esperar, já não é mais escolha, é obrigação.
Tudo vai depender de qual é o discurso que vem com essa campanha. Se for um
discurso de escolha, eu acho legal", afirma.
"O importante é entender, sim, que
o sexo existe, que é algo que é parte da vida e que é algo que não tem nada de
ruim. Ruim é não saber lidar com ele e suas consequências", disse ainda.
Vilela discorda, no entanto, do enfoque
na abstinência como método contraceptivo. Ela lembra que as mudanças biológicas
que garotas e rapazes vivenciam na adolescência aumentam o desejo sexual. Além
disso, ressalta, o contexto social mais permissivo ao sexo nos dias de hoje
favorece que eles tenham oportunidade de transar.
Para
a educadora, ainda que outros órgãos do governo tenham ações que promovam o uso
de preventivos, seria importante que a pasta comandada por Damares reforçasse
essa política.
"Se as pessoas passarem a ter sexo
só a partir de 18 anos, isso diminui a gravidez na adolescência. A questão é:
eles vão conseguir que esses jovens não tenham sexo até os 18 anos? Eu duvido
muito", critica.
"A gente não pode negar esse
contexto biológico, cognitivo e social do adolescente. É você querer ter uma
expectativa que ele não vai conseguir corresponder. E se eles não forem
educados para saber como lidar com essa situação, provavelmente vão fazer sexo
sem se prevenir e a gravidez e a doença vão acontecer", reforça.
Vilela dirigiu por 25 anos o Instituto
Kaplan, organização especializada em educação sexual. Hoje ela tem um canal no
YouTube sobre o tema.
Ministério
da Saúde diz que ampliou distribuição de camisinhas
A BBC News Brasil questionou os
ministérios da Sáude e da Educação sobre suas políticas para redução da
gravidez na adolescência. Ambos não esclareceram se preparam algo especial para
a semana de prevenção, em fevereiro.
A pasta da Saúde destacou que aumentou
a distribuição de preservativos em 2019, quando foram repassados aos Estados
7,3 milhões de preservativos femininos (ante 1,6 milhão em 2018) e 462 milhões
de preservativos masculinos (ante 333,7 milhões no ano passado).
Em relação à pílula do dia seguinte,
foram adquiridas cerca de 906 mil cartelas de levonorgestrel 0,75 mg neste ano,
superando também a marca de 2018 (784 mil cartelas). Os medicamentos são
repassados aos Estados e municípios para distribuição.
"Em relação ao Planejamento
Familiar, usuários e profissionais da Atenção Primária à Saúde devem definir
juntos, dentro dos recursos disponíveis no SUS, o que melhor se ajusta
individualmente, incluindo métodos de anticoncepção", disse ainda a pasta.
O Ministério da Saúde também lançou em
novembro, ao custo de R$ 15 milhões, uma campanha na televisão e internet
estimulando o uso de preservativos para evitar as Infecções Sexualmente
Transmissíveis (ISTs). Os vídeos estimulam os jovens a pesquisar imagens
mostrando o impacto dessas doenças no organismo. "Se ver já é
desagradável, imagine pegar. Sem camisinha você assume esse risco", é a
mensagem ao final.
Já o Ministério da Educação deu
respostas genéricas à reportagem. Segundo a pasta, "na abordagem do tema
gravidez na adolescência, o Programa Saúde na Escola promove a linha de ação
'direito sexual e reprodutivo', onde a promoção das ações de prevenção são
prerrogativa dos municípios, que possuem autonomia para promover campanhas e
ações locais".
"No âmbito da Educação Básica, as
temáticas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva podem ser abordadas dentro
do Tema Contemporâneo Transversal (TCT) da Saúde, como recomenda a Base
Nacional Comum Curricular (BNCC) que dá autonomia às Redes de Ensino (Estaduais
e Municipais) a promoção de projetos integradores, campanhas e ações
intersetoriais no âmbito dos órgãos que compõem o Programa Saúde na
Escola", disse também o órgão. (BBC)

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