Nunca tive dúvida de que foi Deus que, servindo-se
destas duas pessoas, como instrumento, me fez redirecionar os meus planos para
a melhor coisa que eu poderia fazer na vida: ir estudar num dos
melhores estabelecimentos de ensino do país, àquela época.
Pois, ali mesmo,
naquele instante, decidi ficar morando na cidade, na casa de minha tia Neném
Teles, para estudar em tempo integral, deixando, definitivamente, a vida árdua,
embora divertida, do campo. Ao chegar em casa, comuniquei o novo plano aos meus
pais, que, satisfeitos, o aprovaram.
Depois de adquirir o
PROGRAMA PARA O EXAME DE ADMISSÃO AO SEMINÁRIO, mudei-me para Cariré, onde
estudei quase dois anos, em regime de tempo integral, com a melhor professora
da cidade, Altacir Braga. Depois do que, aprovado na SELEÇÃO do Seminário, ali
me matriculei no início de 1954,
e onde permaneci até o
final de 1958.
Cabe aqui, por
oportuno, plagiar o ilustre betanista/advogado/poeta, José Feliciano de
Carvalho, em Velho Casarão:
“Foi aí, onde, - como
diamante selvagem e tosco - apresentei-me para ser polido, e hoje, já sem
arestas, mas bárbaro ainda, agradeço-te ter-me ensinado a crer em Deus e ter
consciência da minha fragilidade diante da Natureza...” (LIBERDADE
TRANSCENDENTAL, página 148).
Foi-me uma mudança
muito grande, deixar uma vida de quase total liberdade de ir e vir, de fazer o
que bem entendia, para ficar confinado, com inúmeros outros jovens, num prédio
grande, de dois pavimentos, na periferia de Sobral, onde funciona hoje a
UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ.
A edificação era, creio
que ainda o seja, composta de capela, imensos salões, dois grandes dormitórios,
restaurantes, cozinha e muitos outros cômodos, dotada ainda de jardins
internos, com diversas árvores frondosas. Tudo muito bonito. Entretanto, uma
coisa sempre me chocou, - as portas e janelas do andar térreo eram protegidas
por grades de ferro, o que dava a sensação de um quartel ou de um presídio.
E pensar que ali
residiam, não militares nem prisioneiros, mas jovens, em sua maioria adolescentes,
e de boa índole, que pretendiam tornar-se sacerdotes da Santa Igreja Católica
Apostólica Romana!
Excesso de cuidado do
bispo, para que não fugissem, estando eles sob sua guarda? Não sei. Medo de
assalto não era. Não era comum aparecer ladrão naquela época, em cidades do
interior. O certo é que me sentia preso.
Como se não bastasse,
constatei, depois, que a correspondência entre internos e familiares era
censurada pelo Reitor, tanto a expedida como a recebida. Ele a abria e lia,
antes de dar-lhe seguimento. Era proibido ter dinheiro consigo. Se o aluno
recebia, devia depositá-lo em poder de alguém, para tanto indicado pela
Direção.
Ida às suas respectivas
casas, pelos alunos, só nas férias de julho e de dezembro. Diante disto e de
outras e outras restrições, passei a cantarolar, só para mim, um pedacinho da
letra de uma música, que diz:
“Eu
vivo como um passarinho que, longe do ninho, só pensa em voltar."
Felizmente, nos
momentos de tédio, eu raciocinava, à procura de uma solução e o bom senso sempre
me recomendava enfrentar a situação e procurar adaptar-me às restrições
impostas pelo Regulamento. Aos poucos, fui-me acomodando, sentindo-me realizado
com a formação religiosa e cultural que os padres nos transmitiam.
Na relação sacrifício x
benefício, passei a sentir que eu estava no lucro, em termos de aprendizado e
de formação religiosa. Depois de um ano, comecei a observar que os nossos
competentes mestres tinham a preocupação de formar, antes de tudo, o homem; depois,
o futuro padre. Isto me fez sentir segurança, com aquele Estabelecimento de
Ensino.
Do primeiro para o
segundo ano, o nosso famoso professor poeta, o estimado Padre Osvaldo, me
despachou com um mísero CINCO, em português. Entretanto, o Padre Austregésilo,
na segunda série, conseguiu um milagre: Passou a atribuir nota DEZ em todas as
minhas redações, que eram por ele lidas, em classe, como modelo.
Daí para a frente,
entusiasmei-me com os estudos e com o Seminário e esqueci que era um
prisioneiro, sem ilícito e sem sentença condenatória. Associei-me à PASI -
PEQUENA ACADEMIA SEMINARÍSTICA DE IMPROVISO e comecei a fazer discursos.
Lembro-me que, no dia
15 de agosto de um determinado ano, o Reitor, Dom Austregésilo, me escalou para
saudar Nossa Senhora. No final, parabenizou-me em público e me homenageou com
um convite para almoçar na mesa e restaurante dos padres. Passei bem nesse dia,
não por méritos oratórios, mas por pura graça de Nossa Senhora da Assunção,
padroeira de Fortaleza!
Durante determinadas
férias, aprendi datilografia, com a ajuda apenas de um método, que tomei
emprestado. Não havia professor dessa matéria, em Cariré. Ao retornar ao
Colégio, propus-me a trabalhar na Secretaria, sem ônus, apenas para treinar
datilografia, o que foi aceito pelo meu amigo e incentivador professor
Austregésilo.
De tanto fazer a lista
mensal de notas dos alunos do primeiro ao sexto ano, com a apuração do PRIMEIRO
lugar, em cada classe e do PRIMEIRO lugar, em todo o Seminário, resolvi assumir
o desafio de eu mesmo ocupar essa honrosa classificação, tanto na minha turma
como no curso todo. Consegui. Embora nem sempre. Acho que só conseguia, no
cochilo dos alunos mais brilhantes do que eu, que eram muitos.
Quando faltava um ano
para terminar o Seminário Menor, que era de seis, após o que os alunos deviam
ir fazer três anos de Filosofia e três de Teologia, no Seminário Maior (da
Prainha), em Fortaleza, resolvi mudar-me para o Liceu do Ceará, onde concluí o
Curso Científico.
Graduei-me pela
Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Advoguei, por alguns
anos. Aprovado em concurso público, fui Juiz do Trabalho, nas cidades de Crato,
Sobral, Fortaleza, Teresina e São Luis do Maranhão. Aposentado, continuo
militante como advogado.
Paulo Sérgio Farias Teles e Paulo Henrique Farias Teles
Casado, caminhando para as Bodas de Ouro, tenho
quatro filhos e oito netos. Devo o relativo sucesso profissional e a firmeza na
fé cristã, passada para minha família, ao Seminário Diocesano São José de
Sobral, pelo que sou grato, em primeiro lugar, a DEUS; em segundo, aos meus
pais; em terceiro, aos meus mestres, particularmente a Dom Francisco
Austregésilo de Mesquita Filho, no lugar em que ele estiver, como também a Dom
José Tupinambá da Frota, meu bispo e chefe maior, durante o meu tempo de
Seminário; em quarto, aos meus colegas, contemporâneos de internato, pela
indispensável e agradável companhia.
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