sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

LITERATURA CEARENSE: Das brenhas da pitombeira para o mundo civilizado (José Teles Monteiro*, na Betânia - 1954/1958)- Parte II (José Teles Monteiro*, na Betânia - 1954/1958)


Nunca tive dúvida de que foi Deus que, servindo-se destas duas pessoas, como instrumento, me fez redirecionar os meus planos para a melhor coisa que eu poderia fazer na vida:  ir estudar num dos melhores estabelecimentos de ensino do país, àquela época.

Pois, ali mesmo, naquele instante, decidi ficar morando na cidade, na casa de minha tia Neném Teles, para estudar em tempo integral, deixando, definitivamente, a vida árdua, embora divertida, do campo. Ao chegar em casa, comuniquei o novo plano aos meus pais, que, satisfeitos, o aprovaram.

Depois de adquirir o PROGRAMA PARA O EXAME DE ADMISSÃO AO SEMINÁRIO, mudei-me para Cariré, onde estudei quase dois anos, em regime de tempo integral, com a melhor professora da cidade, Altacir Braga. Depois do que, aprovado na SELEÇÃO do Seminário, ali me matriculei no início de 1954,
e onde permaneci até o final de 1958.

Cabe aqui, por oportuno, plagiar o ilustre betanista/advogado/poeta, José Feliciano de Carvalho, em Velho Casarão:

“Foi aí, onde, - como diamante selvagem e tosco - apresentei-me para ser polido, e hoje, já sem arestas, mas bárbaro ainda, agradeço-te ter-me ensinado a crer em Deus e ter consciência da minha fragilidade diante da Natureza...” (LIBERDADE TRANSCENDENTAL, página 148).

Foi-me uma mudança muito grande, deixar uma vida de quase total liberdade de ir e vir, de fazer o que bem entendia, para ficar confinado, com inúmeros outros jovens, num prédio grande, de dois pavimentos, na periferia de Sobral, onde funciona hoje a UNIVERSIDADE VALE DO ACARAÚ.

A edificação era, creio que ainda o seja, composta de capela, imensos salões, dois grandes dormitórios, restaurantes, cozinha e muitos outros cômodos, dotada ainda de jardins internos, com diversas árvores frondosas. Tudo muito bonito. Entretanto, uma coisa sempre me chocou, - as portas e janelas do andar térreo eram protegidas por grades de ferro, o que dava a sensação de um quartel ou de um presídio.

E pensar que ali residiam, não militares nem prisioneiros, mas jovens, em sua maioria adolescentes, e de boa índole, que pretendiam tornar-se sacerdotes da Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Excesso de cuidado do bispo, para que não fugissem, estando eles sob sua guarda? Não sei. Medo de assalto não era. Não era comum aparecer ladrão naquela época, em cidades do interior. O certo é que me sentia preso.

Como se não bastasse, constatei, depois, que a correspondência entre internos e familiares era censurada pelo Reitor, tanto a expedida como a recebida. Ele a abria e lia, antes de dar-lhe seguimento. Era proibido ter dinheiro consigo. Se o aluno recebia, devia depositá-lo em poder de alguém, para tanto indicado pela Direção.

Ida às suas respectivas casas, pelos alunos, só nas férias de julho e de dezembro. Diante disto e de outras e outras restrições, passei a cantarolar, só para mim, um pedacinho da letra de uma música, que diz:

“Eu vivo como um passarinho que, longe do ninho, só pensa em voltar."

Felizmente, nos momentos de tédio, eu raciocinava, à procura de uma solução e o bom senso sempre me recomendava enfrentar a situação e procurar adaptar-me às restrições impostas pelo Regulamento. Aos poucos, fui-me acomodando, sentindo-me realizado com a formação religiosa e cultural que os padres nos transmitiam.

Na relação sacrifício x benefício, passei a sentir que eu estava no lucro, em termos de aprendizado e de formação religiosa. Depois de um ano, comecei a observar que os nossos competentes mestres tinham a preocupação de formar, antes de tudo, o homem; depois, o futuro padre. Isto me fez sentir segurança, com aquele Estabelecimento de Ensino.

Do primeiro para o segundo ano, o nosso famoso professor poeta, o estimado Padre Osvaldo, me despachou com um mísero CINCO, em português. Entretanto, o Padre Austregésilo, na segunda série, conseguiu um milagre: Passou a atribuir nota DEZ em todas as minhas redações, que eram por ele lidas, em classe, como modelo.

Daí para a frente, entusiasmei-me com os estudos e com o Seminário e esqueci que era um prisioneiro, sem ilícito e sem sentença condenatória. Associei-me à PASI - PEQUENA ACADEMIA SEMINARÍSTICA DE IMPROVISO e comecei a fazer discursos.

Lembro-me que, no dia 15 de agosto de um determinado ano, o Reitor, Dom Austregésilo, me escalou para saudar Nossa Senhora. No final, parabenizou-me em público e me homenageou com um convite para almoçar na mesa e restaurante dos padres. Passei bem nesse dia, não por méritos oratórios, mas por pura graça de Nossa Senhora da Assunção, padroeira de Fortaleza!

Durante determinadas férias, aprendi datilografia, com a ajuda apenas de um método, que tomei emprestado. Não havia professor dessa matéria, em Cariré. Ao retornar ao Colégio, propus-me a trabalhar na Secretaria, sem ônus, apenas para treinar datilografia, o que foi aceito pelo meu amigo e incentivador professor Austregésilo.

De tanto fazer a lista mensal de notas dos alunos do primeiro ao sexto ano, com a apuração do PRIMEIRO lugar, em cada classe e do PRIMEIRO lugar, em todo o Seminário, resolvi assumir o desafio de eu mesmo ocupar essa honrosa classificação, tanto na minha turma como no curso todo. Consegui. Embora nem sempre. Acho que só conseguia, no cochilo dos alunos mais brilhantes do que eu, que eram muitos.

Quando faltava um ano para terminar o Seminário Menor, que era de seis, após o que os alunos deviam ir fazer três anos de Filosofia e três de Teologia, no Seminário Maior (da Prainha), em Fortaleza, resolvi mudar-me para o Liceu do Ceará, onde concluí o Curso Científico.

Graduei-me pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Advoguei, por alguns anos. Aprovado em concurso público, fui Juiz do Trabalho, nas cidades de Crato, Sobral, Fortaleza, Teresina e São Luis do Maranhão. Aposentado, continuo militante como advogado.


(*) José Teles Monteiro - Graduado em Direito pela UFC,  Juiz do Trabalho (aposentado) e Advogado militante) Esposa: Marta Maria Farias Teles (Graduada em Serviço Social – UFC e Administração Pública – UECE) Filhos: Ana Maria Teles Fortuna, Ana Claudia Farias Teles
Paulo Sérgio Farias Teles e Paulo Henrique Farias Teles

Casado, caminhando para as Bodas de Ouro, tenho quatro filhos e oito netos. Devo o relativo sucesso profissional e a firmeza na fé cristã, passada para minha família, ao Seminário Diocesano São José de Sobral, pelo que sou grato, em primeiro lugar, a DEUS; em segundo, aos meus pais; em terceiro, aos meus mestres, particularmente a Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, no lugar em que ele estiver, como também a Dom José Tupinambá da Frota, meu bispo e chefe maior, durante o meu tempo de Seminário; em quarto, aos meus colegas, contemporâneos de internato, pela indispensável e agradável companhia.






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