No 1º Sábado deste mês, dia 06 de fevereiro, dirigi-me a todos os meus leitores e ouvintes do Rádio, anunciando que neste sábado, 27, estaríamos celebrando o Centenário de nascimento do Dr. José de Souza Dantas Filho, na vizinha Carnaíba, Pernambuco, mas tinha falecido tão jovem ainda, aos 41 anos, no Rio de Janeiro, sem que pudéssemos conhecer bem, sua curta história como médico.
Acompanhei
por outros meios de comunicação, inclusive p/redes sociais, a programação
comemorativa, muito bem-merecida, sobretudo pelo seu nome de poeta e compositor
– eu o chamo tb. de profeta - Zé Dantas, embora todos possamos chamá-lo
de precursor das músicas de protesto. É sobre isto que quero hoje comentar. Se
sua vida como médico foi tão curta e lhe tornou mortal, sua vida como
poeta, compositor e – de minha parte – Profeta/ está chegando aos 100 anos,
tornando-o imortal.
Pensem
bem no que vou dizer. Na década de 1950, ainda não tínhamos a efervescência da
Música Popular Brasileira, caracterizada pela Bossa Nova e pelas grandes
composições referentes á nossa realidade social, mas já tínhamos, em 1953,
músicas de Zé Dantas, como Algodão e Vozes da Seca e em 1955, Paulo Afonso,
esbravejando na voz de Luís Gonzaga as palavras e os sons das composições
musicais de Zé Dantas, reclamando, protestando contra o descaso que as
autoridades já revelavam, abertamente, contra o povo.
Em
1958 já apareciam a Bossa Nova, os Festivais de Música Popular Brasileira e
mais tarde, depois do Golpe Militar, as verdadeiras músicas de protesto e por
reivindicação política, que tanto deram na cabeça de gente. Zé Dantas, sem
esses ideais políticos, embora muito sociais, por conviver com eles no
Nordeste, emprestou sua lucidez a Gonzagão e o fez intérprete dos mais
profundos sentimentos e das mais corajosas reivindicações de seu povo.
Observem, em “Algodão”:
“Bate a enxada no chão, limpa o pé de algodão,
Pois pra vencer a batalha
É preciso ser forte, robusto, valente, ou nascer no sertão;
Tem que suar muito pra ganhar o pão
Que a coisa lá n’é brinquedo não.
Mas quando chega o tempo da colheita
Trabalhador, vendo a fortuna, que beleza!
Chama a família e sai, pelo roçado vai,
Cantando alegre, ai, ai!
Sertanejo do
norte
Vamos plantar algodão
‘Ouro branco’ que faz o povo feliz
Que tanto enriquece o país,
Um produto do nosso sertão”.
Cadê o nosso “ouro branco” decantado pelo
poeta? O que houve com o seu cultivo, tão pujante, em Pernambuco, na Bahia, no
Ceará, no Maranhão e até no Rio e São Paulo? Por que o Algodão de Salgueiro,
tão propagado outrora, decaiu tanto? Se terminou a exportação para a Inglaterra,
porque parar de produzi-lo mais internamente? Será que os outros novos “ciclos
econômicos” que surgiram, foram mais importantes que o “ouro”?
Tornaram-se “diamantes”? “Vozes da Seca” é também de
1953. Sua mensagem é muito + forte. Vejamos!
“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão;
Mas doutor, uma esmola a um homem que é são,
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
É por isso que
pedimos proteção a vosmicê
Homem por nós escolhido, para as rédeas do poder,
Pois doutor dos vinte estados, temos oito sem chover,
Veja bem quase a metade do Brasil tá sem comer.
Dê serviço a nosso povo, encha os rios de barragem,
Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem,
Livre assim nós da esmola, que no fim dessa estiagem,
Lhe pagamo inté os juros, sem gastar nossa coragem.
Se o doutor fizer
assim, salva o povo do sertão,
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação,
Nunca mais nós pensa em seca, vai dar tudo neste chão
Como vê nosso destino, mercê tem na vossa mão”.
Além dessa situação “vergonhosa” que o povo está passando, ainda se está viciando a receber migalhas, em vez de ganhar um trabalho que lhe dê dignidade, salário e nome para torná-lo gente e não um ‘esmoler’ ou ‘mendigo’.
Na música Paulo Afonso, de 1955, eu destacaria alguns tópicos. Depois de enaltecer Delmiro, Apolônio, Dutra, Café Filho a quem o poeta chamou de “homens de valor... Paulo Afonso foi sonho que se concretizou”. Zé Dantas elogia do “cassaco ao engenheiro... erguendo a bandeira de ordem e progresso bem como a indústria gerando riqueza, findando a seca, salvando a pobreza e a usina dizendo na força da cachoeira: o Brasil vai”... Você foi muito otimista, Zé Dantas! Os sucessores daqueles que você elogiou, nem todos tiveram os mesmos objetivos, o mesmo entusiasmo e a mesma força de vontade deles. Muitos confundiram e continuam confundindo política com politicagem, bem comum com bem pessoal, estar a serviço de todos para servirem aos seus. Nós nos temos dado mal, depositando confiança em muitos homens públicos. Eles se elegem à custa de mentiras. Inventam palavreado novo, em língua estrangeira que todo mundo já sabe: significa “mentira”. No seu tempo, Zé Dantas, você interpretava a pureza d’alma, a verdade. Até os homens públicos deixavam que a bondade transparecesse. Mas tudo mudou.
Três anos após sua morte, tivemos uma Ditadura Militar. Até a liberdade de expressão que você praticou, foi proibida. Poucos são eleitos honestamente e toda sorte de mentira é usada para dar vitória a alguém. E o pior: tudo em nome da democracia. Quando você ouvia falar em “facada” no sertão, era “facada” mesmo. Agora é “fakeada”: é uma simulação de facada que elege. E quanto mal nos está fazendo! Quanta saudade, Zé! Obrigado e Bom dia!
Monsenhor Assis Rocha (*)

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