Praticamente todos os dados que tratam da situação do Brasil na pandemia
de coronavírus são questionados, comparados, recortados ou distorcidos desde
que a doença chegou oficialmente ao país, em fevereiro de 2020.
Como as quase 500 mil mortes são atualmente incontornáveis, as críticas ao governo de Jair Bolsonaro e os contrapontos têm se concentrado no desempenho brasileiro na vacinação.
Afinal, o Brasil vacina pouco ou muito?
Se a comparação considerar apenas o número total de doses que cada país
aplicou, o Brasil aparece em quarto lugar no ranking global de dados oficiais
compilados pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Um patamar esperado
para o sexto país mais populoso do mundo, com 212 milhões de habitantes.
Mas quando a comparação do total de doses aplicadas leva em conta o
tamanho da população de cada país, o Brasil aparece em 77º entre 190 nações e
territórios.
A comparação pode ser feita também com o próprio Brasil. O Ministério da
Saúde afirma que o país tem capacidade instalada de vacinar 2,4 milhões por
dia. E já chegou a vacinar 18 milhões de crianças em campanha contra a
poliomielite. Mas desde 17 de janeiro de 2021, o Brasil só superou três vezes a
marca de 1 milhão de vacinados em 24h.
A BBC News Brasil apresenta abaixo cinco gráficos para localizar o país nessa corrida contra a própria doença, que levou o sistema de saúde nacional ao colapso e matou mais de 440 mil pessoas no Brasil até agora.
Os dados brasileiros, descentralizados, costumam ter ligeiras diferenças a depender da fonte: governo federal, secretarias de saúde, pesquisadores independentes ou consórcio de veículos jornalísticos. As comparações abaixo se baseiam nos dados mais recentes de cada país e coletados no portal de Oxford.
Até o momento, 700 milhões de pessoas receberam pelo menos uma dose
contra a covid-19 ao redor do mundo, equivalente a cerca de 10% da população.
Que porcentagem da população recebeu pelo menos uma dose? Brasil em 68º lugar
Até o dia 19/05, o Brasil havia aplicado pelo menos uma dose em 17% da
população brasileira. Isso coloca o país em 73º lugar no ranking de 190 nações
e territórios.
Na América, o Brasil figura em 9º lugar. O país mais bem posicionado do
continente é o Chile, que aplicou pelo menos uma dose em 47% da população. E
mesmo com o avanço expressivo da vacinação por lá, o país sul-americano também
tem enfrentado um colapso no sistema de saúde, o que indica que a contenção da
pandemia precisa ser associada a medidas eficazes de distanciamento social e
uso universal de máscaras capazes de evitar a infecção.
Com exceção da vacina da farmacêutica Janssen, todos os imunizantes
precisam de duas doses para atingir a máxima eficácia contra o coronavírus. Em
geral, uma pessoa pode ser considerada completamente imunizada duas semanas
depois de receber a segunda dose.
Alguns países decidiram ampliar o período entre as duas doses, a fim de
garantir logo a imunização parcial de uma fatia maior de sua população, como o
Reino Unido.
No ranking da proporção da população que recebeu duas doses, o Brasil
(8,1%) aparece em 65º no mundo e 12º na América.
Qual é a velocidade do programação de vacinação? Brasil em 63º lugar
No quesito velocidade de doses aplicadas diariamente por cada 1 milhão
de habitantes, o Brasil (4.207) aparece em 63º no mundo e 13º na América.
Como dito acima, o Brasil tem uma enorme capacidade instalada por trás
de um programação nacional de vacinação reconhecido mundialmente, mas a falta
de vacinas impede o país de atingir os níveis de imunização de outras décadas.
Na pandemia de H1N1, por exemplo, o Brasil imunizou quase 80 milhões de pessoas
em três meses.
Na pandemia atual, o governo federal distribuiu de 17/01 a 19/05 quase
90,6 milhões de doses para Estados e municípios, mas apenas 54 milhões tinham
sido aplicadas, segundo dados do Ministério da Saúde.
A diferença entre o número de doses distribuídas e aplicadas no Brasil
se explica em parte à necessidade de reservar uma quantidade como segunda dose,
e uma eventual escassez poderia afetar a imunidade dos vacinados. Para tentar
acelerar a vacinação, o governo federal recomendou utilizar essas reservas como
primeira dose porque fornecedores garantiram as entregas (que já sofreram novos
atrasos depois disso).
Mas essa mudança de orientação federal ainda não surtiu efeito no ritmo
de vacinação, e, diante da escassez e de atrasos, é provável que muitos
gestores mantenham a política de reservar doses para a segunda aplicação
semanas depois da primeira. A eficácia contra a covid só é garantida semanas
depois da aplicação da segunda dose.
Um estudo recente da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) apontou
que que Brasil precisa vacinar 2 milhões por dia para controlar pandemia em até
um ano. E atualmente o país mal tem conseguido passar de 1 milhão por dia.
Quantas doses foram compradas ao todo? Brasil em 6º lugar
A aceleração das aplicações na pandemia esbarra em um problema mundial:
a falta de vacinas.
No caso brasileiro, isso se agravou porque o governo Bolsonaro recusou
sucessivas ofertas da Pfizer, apostou todas as fichas na vacina
AstraZeneca-Oxford, ameaçou boicotar a Coronavac por disputas políticas com o
governo de São Paulo e só decidiu comprar outras vacinas quando a fila de
países compradores já "dobrava a esquina".
No papel, o cronograma atual do Ministério da Saúde prevê 563 milhões de
doses, e a entrega de 154 milhões delas no primeiro semestre de 2021,
considerando apenas vacinas aprovadas pela Anvisa: Coronavac,
AstraZeneca-Oxford e Pfizer.
Isso seria suficiente para imunizar o grupo prioritário inteiro, mas não
significa que todas essas 78 milhões de pessoas estariam vacinadas antes de
julho — o Brasil tem conseguido aplicar cerca de metade das doses disponíveis e
há um intervalo de semanas entre a primeira e a segunda dose.
Mas os constantes atrasos em importações de insumos e vacinas, além de
problemas na produção em território nacional e a não aprovação de outros
imunizantes por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fazem
com que esse cronograma seja cada vez mais difícil de ser atingido.
Levantamento da Universidade de Duke aponta que o Brasil é o sexto maior
comprador de vacinas no mundo, com 370 milhões de doses compradas (e outras 208
milhões com opção de compra negociada).
Ele fica atrás da União Europeia (1,8 bilhão), dos EUA (1,2 bilhão), do
consórcio Covax (coordenado pela Organização Mundial da Saúde para beneficiar
países mais pobres com 1,1 bilhão de doses), da União Africana (670 milhões) e
do Reino Unido (457 milhões).
Quantas doses foram aplicadas ao todo? Brasil em 4º lugar
O dado do total de doses aplicadas no Brasil é o principal argumento
utilizado para exaltar o avanço do programa de vacinação brasileiro.
Nesse quesito, o Brasil aparece em 4º lugar no ranking global, com 59,4
milhões de aplicações até o dia 19/05. Fica atrás de China (421,9 milhões), EUA
(275,5 milhões), e Índia (185 milhões).
(BBC)


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