Embora possa haver eventuais diferenças, em parte
dos casos, entre quando as mortes ocorreram e de fato foram registradas,
epidemiologistas não têm dúvidas de que há um aumento na mortalidade entre
pessoas não idosas por covid-19 no Brasil, refletindo uma triste realidade: o
novo coronavírus mata, proporcionalmente, muito mais jovens aqui do que no
restante do mundo.
Desde o início da pandemia do novo coronavírus,
foram registrados cerca de 20 mil óbitos por covid abaixo de 39 anos no Brasil,
ou 5% do total de 400 mil, marca atingida na quinta-feira (29/4).
Essa taxa é mais de três vezes maior do que nos
Estados Unidos (1,5%). No Reino Unido, ela é de apenas 0,64%.
Mais de um terço das mortes por covid-19 no Brasil
é de menores de 59 anos. À medida que os mais velhos estão sendo vacinados, os
óbitos nessa faixa etária têm caído pela metade.
Por que, então, os jovens estão morrendo mais no
Brasil?
A BBC News Brasil conversou com especialistas para
entender os motivos. Estas são algumas das causas elencadas por eles:
Comportamento mais arriscado
Desde o início da pandemia de covid, sabe-se que os
mais jovens são menos susceptíveis a desenvolver os sintomas mais graves da
doença e morrer por complicações dela.
De maneira geral, por causa da idade, eles têm a
seu favor um sistema imunológico mais forte, o que facilita o combate ao vírus.
A exceção são aqueles que têm algum tipo de comorbidade (doença associada),
como obesidade ou asma, por exemplo.
Mas isso não quer dizer que os jovens estejam
imunes à doença - e essa falsa percepção acaba encorajando uma maior exposição
ao risco.
Em outras palavras: aglomeram-se com mais
frequência e ignoram medidas importantes de prevenção, como uso de máscaras e
distanciamento social.
Por todo o Brasil, imagens de festas clandestinas
interrompidas pela polícia foram compartilhadas nas redes sociais e ganharam o
noticiário.
Volta ao trabalho
Os mais jovens compõem a maior parte da população
economicamente ativa.
Isso quer dizer que são o grosso dos que trabalham
- ou que estão procurando emprego.
Se de um lado o auxílio emergencial pago pelo
governo ajudou a complementar a renda das famílias brasileiras, a redução do
valor do benefício obrigou muitos desses jovens a voltarem às ruas.
Na última quinta-feira (29/4), o governo concluiu o
pagamento do auxílio emergencial 2021 aos trabalhadores inscritos por meio do
aplicativo e site do programa, além daqueles que fazem parte do Cadastro Único.
O impacto maior acaba sendo nas classes socialmente
menos privilegiadas e, mais particularmente, nos negros, aponta um estudo
realizado pela consultoria global de saúde Vital Strategies em parceria com o
Afro-CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), instituto de
pesquisa em questões raciais sediado em São Paulo.
A pesquisa mostrou que o excesso de mortalidade no
Brasil em 2020 foi de 28% entre pretos e pardos em comparação com 18% entre
pessoas de cor branca. O excesso de mortalidade significa o número de pessoas
que morreram acima do esperado.
Na faixa etária até 29 anos, essa taxa foi de 32,9%
entre os negros e 22,6% entre os brancos. Já entre 30 e 59 anos, foi de 37%
entre os negros e 32% entre os brancos.
No ano passado, foram 270 mil 'mortes em excesso'
(22%), em grande parte relacionadas à pandemia de covid-19.
"Enquanto os mais privilegiados - de maioria
branca - dispõem de recursos que lhes possibilitam cumprir o isolamento social
trabalhando em casa, os profissionais informais e precários - majoritariamente
negros - continuam cada vez mais expostos", diz à BBC News Brasil Márcia Lima,
coordenadora e pesquisadora do Afro-CEBRAP.
A epidemiologista Fátima Marinho, da Vital
Strategies, que também participou da pesquisa, reforça: "O resultado do
nosso estudo mostrou que as desigualdades raciais e sociais pré-existentes
foram intensificadas pela pandemia de covid-19, levando a um número maior de
mortes entre a população negra do Brasil".
As duas especialistas advogam, portanto, que esse
grupo seja considerado "prioritário" para a vacinação.
Variante P1
Desde que foi descoberta em Manaus, em janeiro deste
ano, a variante P1 logo se alastrou pelo Brasil.
Hoje, responde por 90% das amostras analisadas pelo
Instituto Adolfo Lutz no Estado de São Paulo, segundo informado na última
quarta-feira (28).
Ela é até 2,4 vezes mais transmissível do que
outras linhagens do coronavírus e, segundo estudos recentes, pode 'driblar' o
sistema imunológico, infectando novamente quem já teve a doença e levando a
quadros mais graves.
Evidências associam essa nova variante ao maior
número de hospitalizações e mortes, especialmente jovens.
Pandemia 'mais rejuvesnecida'
Um boletim recente da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), publicado no fim de março, alerta para o 'rejuvenescimento' da
pandemia no Brasil.
"O número de casos, hospitalizações e mortes
entre pessoas com menos de 60 anos cresce mais rápido do que em idosos. O
risco, portanto, para incidência e mortalidade vem aumentando gradativamente
para quem não é idoso e é, via de regra, saudável", dizem os
pesquisadores.
"Este deslocamento de casos e óbitos sugere
que a pandemia ganha um novo contorno no Brasil, ficando mais
rejuvenescida", acrescentam.
Segundo a Fiocruz, "por se tratar de população
com menos comorbidades - e, portanto, com evolução mais lenta dos casos graves
e fatais, frequentemente há um maior tempo de permanência na internação em
terapia intensiva".
Como os jovens têm um sistema imunológico mais
forte, combatem melhor a doença e demoram muitos mais para se salvar ou,
eventualmente, morrer. Por isso, acabam ficando mais tempo na UTI.
Fato é que a média da idade de pacientes internados
vem caindo. Enquanto a média da idade dos casos novos no início de janeiro era
de 62 anos e de óbitos, de 71 anos, em meados de março, passou para 58 e 66
anos, respectivamente.
Segundo os pesquisadores, essa maior incidência da
covid-19 entre os mais jovens bem como a manutenção da mortalidade entre os
idosos "contribui para o cenário crítico da ocupação dos leitos
hospitalares".
Eles também destacaram que essas diferenças de
incidência entre as faixas etárias "implicam num compromisso
intergeracional".
"Sendo a infecção mais comum entre os jovens e
os óbitos mais frequentes em mais idosos e pessoas com doenças crônicas, uma
geração deve procurar proteger a outra, evitando o contágio de membros da
família, vizinhos, companheiros de trabalho e amigos", afirmam. (BBC)


Nenhum comentário:
Postar um comentário