O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello retomou seu depoimento na
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta quinta (20/5), após um
primeiro dia cheio de contradições em suas falas.
"As versões das pessoas podem não concordar com as versões que estou apresentando. Mas meu compromisso de dizer a verdade está muito além da CPI", afirmou Pazuello ao início do segundo dia de depoimento à CPI.
Para os senadores opositores ao governo, as respostas do ex-ministro na
terça não corresponderam aos fatos conhecidos e relatados por outras
testemunhas na CPI.
"O depoimento do ministro Pazuello foi verdadeiramente sofrível.
Infelizmente, ele mentiu muito", criticou o senador Renan Calheiros
(MDB/AL), relator da CPI, em entrevista coletiva na noite de quarta.
Temas tratados na terça voltam à pauta neste segundo dia de depoimento,
e senadores confrontam o ex-ministro sobre suas contradições.
Pazuello afirmou que concorda com a importância do uso de máscaras e o
distanciamento social. Questionado então pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM)
por que foi fotografado sem máscaras em um shopping, Pazuello afirmou que sua
máscara tinha ficado inutilizada no carro e que ele andou por apenas 8 metros
sem máscara, até conseguir comprar uma nova.
Falta de oxigênio em Manaus
Na terça, Pazuello afirmou que só ficou sabendo da falta de oxigênio que
levou a colapso de Saúde em Manaus (AM) no dia 10 de janeiro.
O ex-ministro foi confrontado por Eduardo Braga com a informação de que
a iminência de falta de oxigênio já estava nos jornais do Estado no dia 6 de
janeiro. "É uma informação que todos que lidam com saúde deveriam
saber", disse Braga.
Pazuello afirmou que o ministério é "abastecido pelas informações
das secretarias de Saúde dos Estados e municípios" e que "no plano de
contingência que recebemos da secretaria, não havia menção a oxigênio."
No entanto, um documento de 4 de janeiro produzido pelo Ministério da
Saúde e com o nome de Pazuello afirma que "há possibilidade iminente de
colapso do sistema de saúde, em 10 dias", segundo uma reportagem da
Agência Pública.
Confrontado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-RO) com um documento
do ministério, do dia 7, que falava de uma conversa entre o ministro e o
secretário de saúde do AM em que teria acontecido menção à falta de oxigênio.
Pazuello disse que a conversa por telefone não teve menção à falta de oxigênio.
Pazuello também foi questionado por Braga por que, se o governo
considerou que a secretaria de Saúde do Estado não agiu corretamente, não foi
decretada uma intervenção federal na Saúde do Estado - como pediu Braga, que é
senador pelo Amazonas.
"Essa decisão não era minha. (Seu pedido) foi levado à uma reunião
de ministros e foi decidido que não haveria intervenção", afirmou. "O
presidente da República estava nesta reunião. Essa decisão foi tomada nessa
reunião", disse.
Tratamento precoce
Pazuello também foi confrontado por sua fala na CPI na terça, quando
disse que nunca indicou cloroquina e tratamento precoce, mas defendeu
"liberdade dos médicos".
Braga lembrou que o governo lançou em Manaus, em 11 de janeiro, um
programa chamado TrateCov — um aplicativo desenvolvido para diagnóstico e
indicação de tratamento de covid.
"Através desse programa, o governo recomendava cloroquina para
gestantes e crianças", disse o presidente da CPI, Omar Aziz.
Nesta quinta, na CPI, Pazuello disse que o programa foi "hackeado e
lançado por um hacker". No entanto o TrateCov foi lançado oficialmente
pelo Ministério da Saúde, com direito a programa na TV Brasil para promoção do
aplicativo.
"O TrateCov nunca foi usado por médico algum. O programa foi
descontinuado", disse Pazuello.
Tumulto em questionamento
Um tumulto começou na CPI quando o senador governista Marcos Rogério
(DEM-RO) usou seu tempo não para fazer perguntas para Pazuello, mas para exibir
vídeos de governadores — de março e abril de 2020 — falando sobre a
disponibilização de cloroquina.
A principal tese do governo federal é de que a culpa pelas mortes e
colapso na saúde é dos governadores dos Estados.
O presidente Omar Aziz lembrou que existe muita diferença entre
disponibilizar cloroquina no início da pandemia, quando havia suposição de que
ela pudesse funcionar, e ativamente defender a cloroquina depois disso, quando
já havia evidências de que ela não funciona contra
"A ciência avança muito rápido", afirmou Aziz.
Senadores começaram então a discutir versões e narrativas sobre a
pandemia, levando a uma confusão e interrupção da sessão por dez minutos.
Outro pequeno tumulto aconteceu quando o senador Alessandro Vieira
(Cidadania-SE) citou uma frase que analisava a personalidade do oficial nazista
Adolf Eichmann, um dos organizadores do holocausto, julgado e condenado à morte
em Israel em 1962.
"Ele não possuía histórico ou traços preconceituosos, não
apresentava caráter distorcido ou doentio, ele agiu segundo o que acreditava
ser seu dever, cumprindo ordens superiores e com o desejo de ascender na
carreira, na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens sem questionar,
com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou mal que pudessem
causar", leu o senador Alessandro.
"Faço essa referência porque, muito claramente nos contatos em que
tivemos, o senhor não se portou com desrespeito à vida. Mas dentro do conjunto
da obra, na perspectiva de política pública, o senhor falhou. E eu tenho
convicção que o senhor não falhou por convicção sua. Não consigo entender que
diabo de lealdade o senhor acredita ter que o leve a acobertar o verdadeiro
autor das ordens que o senhor seguiu", afirmou.
A leitura dos senadores opositores é de que Pazuello tem protegido o
presidente Jair Bolsonaro em seu depoimento, evitando implicá-lo em qualquer
decisão que possa ter levado ao atual estado da pandemia no país.
A citação do senador Alessandro gerou uma reação em senadores
governistas.
"Comparar o general que tem origem judaica com um oficial nazista
não foi elegante", disse Marcos Rogério (DEM-RO).
O senador Alessandro afirmou que em nenhum momento citou a origem do general.
"Comentei a conduta burocrática, descolada da realidade", disse
Alessandro Vieira.
Demora na compra de vacinas
Pazuello foi questionado novamente sobre por que o governo rejeitou
propostas de 70 milhões de doses da Pfizer em agosto. Na terça, Pazuello
afirmou que havia divergências com a Pfizer sobre questões jurídicas.
O senador Randolfe Rodrigues trouxe à CPI um documento de uma minuta de
uma medida provisória elaborada por vários ministérios, inclusive o da Saúde,
com um dispositivo que poderia resolver a questão jurídica.
A medida provisória que foi aprovada pelo presidente da República, no
entanto, não continha esse dispositivo.
Sobre a CoronaVac, Pazuello voltou a afirmar que as declarações tanto
dele quanto do presidente "foram apenas para internet".
Em outubro, após Pazuello fechar uma intenção de compra da CoronaVac com
o Instituto Butantan, o presidente afirmou: "Já mandei cancelar".
Pazuello disse que a relação dele com o presidente era
"simples": "Um manda e outro obedece".
À CPI, no entanto, o ex-ministro afirmou que as declarações foram apenas
para internet. "Ele nunca falou comigo pessoalmente para a compra de
vacina", reafirmou à CPI na quarta.
Sobre o fato do Twitter do Ministério da Saúde ter apagado mensagem que
falava sobre intenção de compra da coronavac logo após declarações do
presidente, Pazuello disse que não acompanhou o Twitter.
"Não fui eu que dei ordem para tirar. Algum pode ter tirado. Eu não
mandei tirar nada de Twitter", disse. (G1)


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