A vacina da AstraZeneca contra a Covid-19, produzida no Brasil em parceria com
a Fiocruz, tem apresentado
reações – já previstas na bula – em parte dos vacinados.
Abaixo, nesta reportagem, confira respostas para 11 perguntas relacionados à aplicação do imunizante:
1. Quais são os efeitos colaterais mais comuns da vacina
AstraZeneca/Oxford?
2. Quanto tempo após a injeção
podem surgir os efeitos colaterais? Quanto tempo eles duram?
3. Posso tomar remédio contra os
efeitos colaterais? Algum não é recomendado?
4. Devo tomar a vacina de
AstraZeneca/Oxford se estiver grávida?
5. Qual é o risco de trombose após
tomar a vacina?
6. Se eu já tive trombose antes,
tenho maior risco de ter depois da vacina?
7. Como saber se um sintoma é
alerta de trombose?
8. Existe alguma maneira de
prevenir a trombose pós-vacina?
9. Se eu já tomo remédios
anticoagulantes, tenho risco menor de ter trombose pós-vacina?
10. A probabilidade maior de trombose é após a
primeira ou a segunda dose?
11. Por que os casos de trombose só ocorreram com
vacinas de vetor viral?
Veja as respostas abaixo:
1. Quais são os efeitos colaterais mais comuns da vacina?
De acordo com os dados reunidos nos estudos clínicos de fase 3,
os efeitos colaterais mais comuns associados à vacina foram:
1. Sensibilidade no local da injeção (relatada
por mais de 60% dos voluntários);
2. Dor no local da injeção, dor de
cabeça e fadiga (relatadas por mais de 50% dos
voluntários);
3. Dor no corpo e mal-estar (relatadas
por mais de 40% dos voluntários);
4. Febre e calafrios (relatados
por mais de 30% dos voluntários);
5. Dor nas articulações e náusea (relatadas
por mais de 20% dos voluntários).
A maioria das reações adversas foi de intensidade leve a
moderada e normalmente resolvida poucos dias após a vacinação. As reações adversas foram mais frequentes após a primeira dose da
vacina.
Um efeito colateral incomum é o inchaço das glândulas na axila ou no pescoço, no mesmo lado do braço onde foi aplicada a vacina. Isso pode durar cerca de 10 dias, mas, se durar mais, consulte seu médico.
As reações adversas foram geralmente mais leves e relatadas de forma menos frequente em idosos (com 65 anos de idade ou mais).
2. Quanto tempo após a injeção podem surgir os efeitos colaterais? Quanto tempo duram?
Os efeitos colaterais normalmente aparecem em um período de até 2 dias após a vacinação, e costumam durar por, no máximo, dois dias.
Se novos sintomas aparecerem a
partir do 4º dia depois da vacinação, procure um médico .
3. Posso
tomar remédio contra os efeitos colaterais? Algum não é recomendado?
Sim, você pode tomar remédios para os efeitos colaterais – de preferência dipirona ou paracetamol.
"Os medicamentos mais
recomendados para reações à vacina são paracetamol e dipirona. Algumas pessoas
têm sensibilidade à dipirona, não conseguem tomar, então elas devem ficar com o
paracetamol", explica a farmacêutica e bioquímica Laura Marise, doutora
pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e
cofundadora do canal "Nunca vi 1 Cientista", na rede social
"YouTube".
Mas atenção: em 27 de maio, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) alertou para os riscos do uso indiscriminado de paracetamol para
os efeitos colaterais da vacina de Oxford.
A agência
recomendou que "o uso do medicamento deve ser feito com cautela, sempre
observando a dose máxima diária e o intervalo entre as doses, conforme as
recomendações contidas na bula, para cada faixa etária". Em adultos, por
exemplo, a dose máxima de paracetamol é de 4g/dia.
Já anti-inflamatórios – como
aspirina, diclofenaco ou ibuprofeno – não são recomendados, explica Laura Marise.
"No início de uma
infecção ou no desenvolvimento da imunidade contra a vacina, a gente precisa
que o processo inflamatório aconteça, porque é o processo inflamatório que vai
desencadear toda a resposta imunológica nesse caso", diz a farmacêutica
Laura Marise.
Mas calma: se você já tomou um comprimido de ibuprofeno, é provável
que o remédio não vá comprometer os efeitos da vacina.
"O maior
problema, nesse caso, para evitar, é uma questão recorrente, de ter que tomar
vários comprimidos, porque fica vários dias com dor no corpo e febre – nesse
caso, se tiver que tomar mais vezes, é melhor realmente evitar todos os
anti-inflamatórios de forma geral", recomenda a farmacêutica.
4. Posso tomar a vacina
AstraZeneca se estiver grávida?
Não. No
dia 10 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a suspensão da aplicação da vacina de Oxford/AstraZeneca em grávidas. A recomendação veio depois da morte suspeita de uma gestante de 35 anos. Ela sofreu um acidente vascular
cerebral após receber a vacina. O bebê também morreu.
O Ministério
da Saúde recomendou que as
que já tivessem recebido a primeira dose da vacina só recebessem a segunda dose
após o fim da gestação e do puerpério (45 dias após o parto) para completar o esquema vacinal.
5. Qual é o risco de
trombose após tomar a vacina AstraZeneca?
Os casos são raros. As estimativas publicadas da incidência de
trombose após a vacina (VITT) de Oxford/AstraZeneca variam de 1 caso a cada 26,5 mil doses aplicadas a 1 caso a cada 148,2 mil
doses aplicadas, segundo um levantamento feito por especialistas e cientistas da província
de Ontário, no Canadá.
Os dados de incidência ainda
são preliminares –
porque a vacina está sendo aplicada há muito pouco tempo na maioria dos países
e porque alguns casos ainda estão sendo investigados. Na Itália, por exemplo,
houve 11 casos após 1,63 milhão de doses aplicadas.
Dados do Reino
Unido sugerem que há um incidência mais alta nos grupos de adultos mais jovens em
comparação com os mais velhos e que a incidência é maior em mulheres do que em homens,
embora isso não seja observado em todas as faixas etárias e a diferença
permaneça pequena.
6. Se eu já tive trombose
antes, tenho maior risco de ter depois da vacina?
Até onde se sabe, não. Isso porque os
mecanismos por trás de uma trombose "normal" e de uma trombose
pós-vacina são diferentes, explica a hematologista Menaka Pai, professora associada de
medicina na McMaster University, na província de Ontário, no Canadá, e especialista em trombose na Hamilton Health Sciences.
Os coágulos
"normais – que aparecem depois de um parto, de uma cirurgia ou que vêm de
histórico familiar – têm a ver com fatores de coagulação.
Já os coágulos que aparecem depois de uma vacina têm a ver com o sistema imune. Há apenas uma exceção – que é a trombose induzida por heparina.
A trombose que
ocorre pós-vacina chama-se VITT: sigla em
inglês para trombocitopenia trombótica imune induzida por vacina ("vaccine-induced immune thrombotic thrombocytopenia").
"Com a
VITT, o que acontece é que você recebe uma vacina – AstraZeneca ou J&J – e, cerca de 4 a 28 dias depois, o corpo pode
começar a produzir anticorpos que atacam as plaquetas do próprio corpo. (...) E
essas plaquetas ativadas começam a causar coágulos sanguíneos em muitas áreas
diferentes", explica Menaka Pai, que integra o grupo de especialistas que
guiam a resposta científica da província de Ontário.
7. Como saber se um sintoma
é alerta de trombose?
Fique alerta para os seguintes sintomas entre 4 e 28 dias depois da vacinação:
- Dor de cabeça forte e persistente;
- Sintomas neurológicos focais (podem ser
paralisia, fraqueza, perda de controle muscular, aumento ou perda do
tônusmuscular, movimentos involuntários, tremores, sensações anormais,
dormência ou diminuição de sensação, perda de coordenação ou de controle
motor fino, mudanças na visão, dificuldade para engolir e engasgo
frequente, dificuldades de fala, linguagem ou de escrita, falta de
habilidade para ler ou compreender a escrita, entre outros);
- Convulsões;
- Visão borrada ou dupla;
- Falta de ar;
- Dor nas costas, peito ou abdômen;
- Inchaço e vermelhidão em um membro;
- Palidez e frieza em um membro;
- Sangramentos incomuns;
- Vários pequenos hematomas no corpo;
- Manchas vermelhas ou roxas no corpo;
- Bolhas de sangue.
8. Existe alguma maneira de
prevenir a trombose pós-vacina?
Não.
Assim como não há fatores de risco conhecidos, também não há fatores de
prevenção conhecidos, explica Menaka Pai. O que se pode fazer é saber quais são os sintomas e procurar atendimento médico o mais rápido possível.
9. Se eu já tomo
anticoagulantes, tenho risco menor de ter trombose pós-vacina?
Provavelmente, não. Até onde se sabe, um anticoagulante comum,
como a aspirina, não faz com que você tenha menos
chance de ter uma trombose pós-vacina, porque os
mecanismos por trás da trombose pós-vacina são diferentes da trombose
"regular".
"É [um mecanismo] realmente separado. Não temos fatores de risco que conheçamos, não temos fatores de proteção que conheçamos. Ouço as pessoas dizerem 'normalmente, não tomo aspirina, mas vou começar depois de tomar a AstraZeneca'. Não faça isso. Em primeiro lugar, porque provavelmente não vai te ajudar. A outra coisa é que a aspirina também não é 100% segura. Não vai te ajudar e pode te prejudicar", pontua Menaka Pai.
10. Os casos raros de trombose ocorreram após a primeira ou a segunda dose?
Até agora, os dados sugerem que a probabilidade de trombose após
a vacina (VITT) é maior após a primeira dose.
Até 19 de
maio, a agência regulatória britânica (MHRA, na sigla em inglês) contabilizava
332 casos de VITT – trombose após vacina acompanhada de baixa contagem de
plaquetas – no Reino Unido após a vacinação com Oxford/AstraZeneca. Desses, 17
casos foram relatados após a segunda dose.
Até a mesma data, o número estimado de primeiras doses da vacina administradas no Reino Unido era de 24,2 milhões, e o número estimado de segundas doses, de 10,7 milhões.
11. Por que os casos de trombose só ocorreram com vacinas de vetor viral?
Até agora, só se tem notícia de casos de trombose em pessoas que
receberam a vacina de Oxford/AstraZeneca ou a da Johnson. Ainda não se sabe exatamente por que isso acontece, mas
ambas foram desenvolvidas com a tecnologia de vetor viral (veja infográfico mais abaixo).
No dia 26 de
maio, a Bélgica suspendeu
a aplicação da vacina da Johnson para pessoas com menos de 41 anos depois que
uma mulher de 37 anos morreu após ter coágulos e baixa de plaquetas
pós-vacinação. A morte está sendo investigada pela Agência Europeia de
Medicamentos (EMA, na sigla em inglês).
Até o dia 12
de maio, o CDC (Centro de Controle de Doenças, na sigla em inglês) dos Estados Unidos havia relatado 28 casos de coágulos após a vacina
da Johnson.
O que dizem AstraZeneca e Johnson?
Após uma paralisação temporária da aplicação de sua
vacina na Europa, em março, a AstraZeneca disse, no início
de abril, que está "trabalhando para entender casos individuais
e" possíveis mecanismos que podem explicar esses eventos extremamente
raros“.
Em 9 de abril, o grupo Johnson&Johnson disse que nenhuma
relação causal clara foi estabelecida entre a vacina e os coágulos. A vacina
chegou a ter sua aplicação suspensa nos Estados Unidos poucos
dias depois, mas, dez dias após a paralisação, a aplicação foi retomada.
(G1)
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