segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

LITERATURA CEARENSE: CORONAVÍRUS QUE ME BOTOU NA LONA NÃO ME MATOU. DEIXOU-ME VIVO PARA ESPERNEAR - Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XIX) - (Mons. Assis Rocha*)

Faz 19 sábados consecutivos que escrevo, com alegria, para o ‘site do Leunam’ – ‘professorcomprazer.com’- obtendo os mais sensacionais retornos, de amigos e de desconhecidos, que me deixam muito feliz pela repercussão: quer na correção fraterna, quer na emenda sugerida, quer na demonstração de carinho pela atenção dada à matéria. Sou-lhes, gratíssimo, a todos.

É claro que eu não posso ser o mesmo, do meu tempo de adolescente ou de jovem: um pouco “bon vivant”, disperso, disposto a qualquer aventura. A idade me fez mais prudente. Alguns se têm atrevido a comentar minha ‘maturidade’. Graças a Deus fui capaz de melhorar. Talvez não parecesse a alguns de vocês. São os desígnios de Deus. Afinal de contas, nossa convivência foi de apenas alguns anos e nosso afastamento, por diferentes estradas, tem-nos colocado em diferentes caminhos e objetivos. Além disso, os problemas que nos afetavam, ideias que nos separavam e tantas realidades que enfrentávamos juntos, dificuldades causadas pelas distancias, quase intransponíveis, tudo está tão diferente, que eu dou mil graças a Deus por ter convivido com vocês no tempo certo. Já se vão 70 anos. Não somos mais os mesmos. Ainda bem que sou Padre, e como tal, ainda posso dizer que exerço o sacerdócio: a missão que recebi de Deus, a quem eu não posso trair. Às vezes, escuto políticos dizerem que “exercem um sacerdócio”. Ouço também de médicos ou de outros profissionais prestadores de serviços. O sacerdócio não se pode aplicar a todo mundo, é claro. Não é um emprego, não rende bens materiais, não dá lucro, não dá pensão vitalícia, nem patrimônios materiais para o resto da vida. Alguns usam a Missão Sacerdotal, de maneira errada. Eu quero continuá-la usando da maneira correta, até o fim.

Quero continuar a “ver” a realidade que nos cerca, “julgá-la” à luz da Palavra de Deus e levar todos a “agirem” de acordo com a sua consciência. É assim que todos nos devemos comportar, politicamente. É muito difícil a gente se posicionar, politicamente. Talvez, como Padre, me seja cobrado mais sob o aspecto político, sobretudo nas inconsequências com que os homens se deparam todos os dias na sociedade, antes ou após eleições. Tem que ser feito sempre. É inadiável, falar de eleições. Não se pode deixar para depois. Aos eleitos, em qualquer tempo, deve-se “pedir para exercerem suas funções sem visar lucro material, prestigio ou boa pensão vitalícia, mas as viverem como um serviço prestado ao povo”.

Às vésperas de completar meu 20º Comentário neste ‘site do meu amigo Leunam’ senti-me nocauteado pelo mortal ‘coronavírus’ que me botou na lona. Mas não me matou. Deixou-me vivo para espernear. Podia desanimar com o meu comentário. Vou em frente. Que meus possíveis leitores me animem.

Vocês, de Pernambuco, se lembram daquele anuncio da Lutz Ferrando? “Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve”? Por que encontrar desculpa para justificar nossas incapacidades? Sempre em Pernambuco: quem não se lembra do Pe. Vito Miracapillo, negando-se a celebrar no aniversário da independência do Brasil? Seria, o Brasil, independente? (Cheguei a comentar isso na minha reflexão do dia 08 de Janeiro sobre o dom que vive em nós).

Quando a Igreja é convidada a celebrar Missa em Ação de Graças por ocasião das posses, a celebração é apenas um enfeite, uma honraria, em que o sacerdote celebrante não pode falar sobre os “descalabros políticos”, não pode aconselhar os novos gestores a ter mais atenção para com o povo, sobretudo os mais pobres. E se falar das politicagens, das compras de voto, dos currais eleitorais e do tratamento ao povo/, como gado, aí a revolta é grande por parte dos políticos que queriam uma Missa de enfeite e não para falar de política. A religião, a fé, o Deus deles não é o Deus que se fez homem, que escolheu os pobres, os desempregados e os que sofrem todo tipo de discriminação. O Deus deles é o poder, o dinheiro, o luxo, as ricas fazendas. É um Deus teórico. O nosso Deus foi bem colocado domingo passado; lembram?

O Deus da verdade se encarnou, tornou-se gente, um de nós e veio para salvar a todos. Em sua primeira apresentação na Comunidade Judaica, em Nazaré, “deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, achou a passagem em que está escrito: ‘o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor’. Fechou o livro, sentou-se e disse: hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Servir a um líder desses é exercer, realmente uma Missão ou realizar, verdadeiramente, uma ação sacerdotal. Porque confundir “Missão tão Santa” com ideologias conservadoras, mentirosas, enganadoras da boa fé do povo? Não é confundir alhos com bugalhos?

Quando fazemos parte dessa Igreja conscientizadora, que une oração e ação, fé e obra, teoria e prática, que dá o bom exemplo pela vida que leva/, aí o incômodo é geral entre os politiqueiros: usam o nome de Deus em vão, escondem seus malfeitos, usando a fé/, têm uma vida dupla ou tripla em todos os sentidos, defendem uma família monogâmica, embora tenham filhos de 03 ou mais mulheres diferentes, enfim, enganam com palavras, aquilo que não vivem na prática. E o povo, coitado, apelidado de gado, “em cercadinho, como num curral”, gritando “mito” em todas as aglomerações, vai alimentando o “populismo” de seus governantes, vai embarcando na religiosidade que dizem ter e vai se afastando das orientações sadias, voltadas para o social e para o bem comum de quem só quer o bem de todos e a participação da maioria.

Infelizmente, reapareceu no Brasil, uma elite dirigente que não se envergonha de mostrar o seu conservadorismo, adquirido no regime militar e aprofundado por civis neoliberais, que visam o lucro, o crescimento econômico e deixam o povo de lado. Este só é visto nas horas de aglomerações proibidas – devido à pandemia - e para maquiarem o “governo de popular”, quando o que de fato há, é puro “populismo”. Para completar, um grupo de pentecostais – evangélicos e, infelizmente, católicos – faz parte deste projeto, exigindo maior discussão acerca das relações entre religião e política. Além do retrocesso na caminhada já feita, há um novo ciclo político e de disputas. Nós, os que havíamos encetado esta luta pelo “popularismo ideológico”, estamos notando a saída de um presidencialismo de coalizão para um presidencialismo de colisão.

Significa afirmar que a democracia brasileira está ameaçada. Nós vamos deixar que isso aconteça?

É aqui que eu entro como “sacerdote” naquela visão original: sem visar lucro material, poder econômico, uma aposentadoria que me garanta a velhice, prestígio social, uma herança material que eu possa repassar a alguém. Nada disto. Tenho que ver esta realidade, julgá-la à luz da Palavra de Deus para iluminar/ e encaminhar a ação a ser deflagrada com todos, para solucionar. Os pretensos “sacerdotes” que enganam tanto o povo, dizendo exercerem funções públicas “como um sacerdócio” estão usando um conceito certo em pessoas erradas. Por isso eu dizia acima que “a democracia brasileira está ameaçada”.





(*) Mons. ASSIS ROCHA - Sacerdote aposentado, Mestre e Doutor em Comunicação Social, residente em Bela Cruz – CE.

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