“Nesse
momento, em que a gente está, em 2022, o que está sendo mais bacana de olhar
para a semana de 22 é justamente questionar o seu mito”, afirma
Heloisa Espada, curadora do Instituto Moreira Salles.
“É
claro que foi um evento importante em São Paulo. Reuniu ali alguns artistas e
literatos de várias áreas e que se tornaram muito importantes para a história
do modernismo, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti e
Victor Brecheret. Tem nomes que são muito importantes para a nossa compreensão da
arte moderna no Brasil. Mas hoje estamos em um momento de rever isso,
de olhar para os outros estados, entender a temporalidade dos outros estados, o
que estava acontecendo nos outros lugares e tentar ampliar a compreensão desta
produção para além do Sudeste”, reforça Heloisa.
A ideia de que a semana foi um marco do modernismo brasileiro, na realidade, foi uma construção histórica, que só veio a surgir décadas depois, defendem historiadores e especialistas.
“Acho
que o que marca essa comemoração de 100 anos é entender como a Semana de Arte
Moderna se tornou um marco. Isso é uma construção histórica. Mas eles fizeram
de tudo para que realmente ela fosse polêmica e para se alinhar à ideia de
vanguarda que estava sendo discutida e da qual eles tinham notícias que vinham
de outros países, principalmente do Hemisfério Norte", disse Heloisa.
Um
dos pontos que passa por revisão histórica é o regionalismo da
iniciativa, afinal a semana não foi composta apenas por artistas e intelectuais
paulistas. “Há pessoas de Pernambuco; alemães, como o [Wilhelm] Haarberg,
por exemplo, que estava recém-emigrado e participa. Temos o arquiteto polonês
[Georg] Przyrembel; o espanhol Antonio Garcia Moya, que fez desenhos de
arquitetura e participou da semana. Temos mineiros”, destacou Luiz
Armando Bagolin, professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da
Universidade de São Paulo (USP).
Além
disso, houve iniciativas modernas em outras partes do país, como as revistas
ilustradas do Rio Grande do Sul; o trabalho do pintor Vicente do Rego
Monteiro, em Pernambuco; e o samba, no Rio de Janeiro.
“Tem
uma coisa importante não só no Rio, mas em vários lugares também, que é a
música, o surgimento do samba nesse momento, que é muito próprio do Brasil.
Olhar as manifestações culturais brasileiras e tentar entender o que é próprio
da nossa cultura, de cada lugar, de cada estado e entender o quanto aquilo
desafiava, o quanto o samba desafiava convenções, acho que esse é um jeito
de olhar e de pensar o modernismo”, disse.
Controvérsias
O modernismo brasileiro também viveu suas ambiguidades e controvérsias. A começar pelo fato de que o movimento, cuja efervescência ocorreu nas cidades, foi bancado pela elite cafeeira, que vivia no interior, em fazendas. “É a riqueza do campo que paga essa ideia da arte moderna”, explicou Heloisa.
“A
ideia de modernidade era um peixe que o regime republicano queria vender. Essa
ideia de modernidade, de abrir grandes avenidas e criar cidades mais modernas e
que fossem mais salubres, destruiu um passado imperial e colonial ou colocou de
lado todo um passado que era conveniente politicamente esquecer naquele
momento”, destacou Heloisa.
“Para
algumas pessoas, a modernidade seria um projeto de branqueamento do país no
início do século. Modernidade também é isso, também tem um lado nefasto. Há
quem diga que é mais nefasto que moderno.”
A
especialista questiona o motivo de nomes como o do escritor e político
Plínio Salgado, que fez parte da semana, terem sido “apagados” pela
história. “Temos ali a participação do Menotti del Picchia [escritor] e do
Plínio Salgado, figuras que depois se tornaram controversas politicamente,
ligadas ao movimento do verde-amarelismo [que se opunha ao movimento
pau-brasil de Oswald de Andrade e pregava um ufanismo exacerbado]. Depois o Plínio
Salgado é expoente do Integralismo [que tinha grande afinidade com o
fascismo italiano]”, disse Heloisa.
Nessa
análise política, também é importante entender como o movimento modernista foi
utilizado pelo Estado Novo, de Getulio Vargas. “O Gustavo Capanema [ministro
forte do governo Getúlio Vargas] era o homem, digamos, por detrás dessa
estratégia de assumir o modernismo como uma politica cultural estatal”, disse
Bagolin, explicando que a busca por uma arte brasileira, com identidade
nacional, “serviu como uma luva para o projeto do Estado Novo”.
“O Estado
Novo buscava demonstrar que o povo brasileiro, apesar de ser composto por uma
miscigenação de etnias e culturas, ele deveria se apresentar como um povo, no
singular; como uma cultura, no singular; uma arte brasileira, no singular.
Até hoje falamos isso. Não falamos ‘as artes brasileiras’, que seria
o mais correto porque são diferentes e somos diferentes”, disse o professor da
USP.
Quando
a ideia do modernismo surge em território brasileiro, há a utopia,
por parte dos artistas, de que essa arte nacional seria
utilizada para modificar o país. Mas quando essa ideia passa a ser apropriada
pelo Estado, Mário de Andrade se desencanta com o movimento.
“Para
o Mário de Andrade e para outros, quando o Modernismo é cooptado, se transforma
no establishment ou na arte estatal, na arte defendida pelo Estado -
e por um Estado ainda muito conservador - o modernismo morre. Todas aquelas
iniciativas, todas as suas experiências, tudo o que eles fizeram, foi em
vão”, destacou o professor do IEB.
Problematização
O
principal objetivo da Semana de Arte Moderna de 1922 foi repensar de maneira
crítica o tradicionalismo cultural, muito associado às correntes literárias e
artísticas europeias, ao parnasianismo e ao academicismo formal.
Esse
movimento foi liderado e protagonizado pela elite paulistana, bancado pela
cafeicultura e ocorrido apenas 34 anos após a abolição da escravatura.
Temas
como o colonialismo, a escravidão, a opressão indígena e a violência não
entraram na agenda dos modernistas brasileiros e essa é uma das principais
problematizações acerca da Semana, sob o ponto de vista crítico do século 21.
“O
Brasil tinha acabado de sair da escravidão. O Brasil tinha acabado
de sair da monarquia e era uma jovem república. E em 1922, o grande
acontecimento daquele ano não foi a semana de arte moderna. Foi a comemoração
do primeiro centenário da nossa independência”, disse Bagolin.
Dizer que o negro e o indígena não estavam representados na semana é um anacronismo. A participação de indígenas ou de afrodescendentes, o lugar de fala das pessoas, as suas expressões próprias, essas questões são demandas da nossa época. Elas são justas e devem ser defendidas, devemos brigar por elas. Mas não eram questões que se apresentavam nos anos 20 do século passado”, explicou o professor do IEB, que também é curador da exposição Era Uma Vez o Moderno, que está em cartaz no Centro Cultural da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O
que os modernistas fizeram naquela época foi a apropriação de
outras artes, como a indígena, com as quais tiveram contato por meio
de viagens e expedições que fizeram pelo interior do Brasil.
“Numa
perspectiva hoje de decolonialidade, essas iniciativas são vistas com
reserva. Às vezes, mais do que vistas com reserva, elas são criticadas,
censuradas, porque, de novo, é o branco europeu, explorador, que vem e se
apropria de parte de uma cultura que não é dele. Depois a expõe, vende,
revoluciona o campo da arte e da cultura moderna com uma coisa que foi
apropriada de um povo, de um outro povo, que está sendo esquecido,
vilipendiado, roubado, trucidado. Então, numa perspectiva de decolonialidade,
acho que é muito pertinente essa crítica”, disse Bagolin.
Atualmente,
intelectuais e artistas indígenas têm se pronunciado sobre o modernismo,
olhando para essa tradição. “Antes tínhamos esses intelectuais, criados e
formados nos centros urbanos, olhando para outras culturas
brasileiras e para as culturais
originais. Hoje temos a possibilidade de ouvir indígenas
revisando Macunaíma [livro escrito por Mário de Andrade] e se
posicionando sobre isso. Isso também é coisa do nosso tempo e acho
que precisamos, nesse momento, ouvir muito. É a hora que temos para aprender
muito sobre esse ponto de vista, que até agora não esteve no centro dos
debates”, destacou Heloisa.
Modernismo
além de 22
Cem
anos depois, especialistas como Heloisa defendem a importância da Semana de
Arte Moderna, mas também enfatizam que o movimento e a construção do modernismo
no Brasil contaram com outros elementos.
“O grande
aprendizado é esse: a gente tentar entender a potência e os limites do que foi
a Semana de 22 porque acho que o que não dá mais hoje é, nas escolas,
continuar falando da arte moderna e só da Semana de 22. Porque muita coisa
aconteceu, muita coisa além. As experiências do modernismo no Brasil vão muito
além da Semana de 22”, frisou Heloisa.
Na
avaliação de Luiz Armando Bagolin, ser modeno hoje implica aprender com as
diversidades brasileiras. “Eu acho que ser moderno hoje é
encarar as diferenças. Nós somos diferentes. O Brasil é muito vasto, tem coisas
que os brasileiros não conhecem. Não somos iguais e nós temos que nos entender
nas diferenças. A gente não pode resolver essa história, formulando, a título
de um projeto político ou ideológico, um Brasil no singular, um brasileiro no
singular, todo mundo com a mesma nação”, destacou.
“Ser
moderno hoje implica fazer a revisão de toda a norssa história e de
toda a nossa cultura numa perspectiva decolonial, de decolonialidade. Isso é um
dado recente. Aliás, é um conceito sociológico que data do final dos anos 90.
Então é importante não perder esse instrumento sociológico porque ele nos
formula muitos desafios”, acrescentou.
Confira todas as matérias da
série que a Agência Brasil tem
publicado sobre o centenário da Semana de Arte Moderna. (Ag. Brasil)
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