Nas ondas anteriores, os números mais
elevados tinham sido de 11 mil novas infecções (em setembro de 2021) e 64
mortes (em janeiro de 2021) em 24 horas. Os dados são do Our World In
Data, site que compila estatísticas sobre a pandemia.
Mas o que explica esse cenário na nação
que teve uma das campanhas de vacinação contra a covid-19 pioneiras e mais
bem-sucedidas?
Para a médica brasileira Julie
Schleifer, que atua na linha de frente em Israel desde o início da pandemia, a
atual situação do país pode ser explicada por uma série de fatores, a começar
pela parcela da população que ainda não completou o esquema vacinal — dos pouco
mais de 9,2 milhões de cidadãos israelenses, 5,1 milhões tomaram as três doses.
"Pelo que observamos na prática e
nos dados oficiais, a grande maioria dos pacientes graves não estão
vacinados", relata.
Em conversa com a BBC News Brasil,
Schleifer relata sua experiência ao longo desses últimos dois anos e lista os
aprendizados obtidos durante a pandemia.
Experiência
inesperada
A médica brasileira, de 41 anos, conta
que teve contato com um paciente que estava com covid logo no início da
pandemia, lá em março de 2020.
"Com isso, precisei ficar em
isolamento imediatamente, pois nem existiam muitos exames à disposição",
diz.
"Como tinha acesso a um computador
no meu quarto, uma das diretoras do local onde trabalho pediu que eu fizesse o
monitoramento remoto das pessoas com covid, que à época eram isoladas em
hotéis. Imagina, naquele início víamos 150 pacientes e achávamos um
absurdo", lembra.
Schleifer trabalha para a Clalit Health
Services, um dos quatro "planos de saúde" disponíveis em Israel. No
país, todos os cidadãos são obrigados a ter um seguro médico.
A Clalit atende cerca de 4,5 milhões de
pessoas, praticamente metade da população israelense, informa a especialista.
"Essa primeira tarefa, de entrar
em contato com os pacientes, fez com que eu desenvolvesse uma experiência com a
covid que poucos profissionais tinham naquele momento", relata.
Com isso, a brasileira virou uma das
diretoras da resposta à pandemia da empresa. Ela supervisiona a porção norte de
Israel, uma das oito zonas em que os serviços de saúde são divididos no país.
Ela e sua equipe acompanham cerca de
800 mil indivíduos, numa faixa territorial que abrange a cidade de Tel Aviv e
chega até as cercanias de Haifa.
"Nós fazemos ligações telefônicas,
conferimos as informações dos pacientes com covid, vemos se eles precisam de
algum antiviral, se podem receber alta…", exemplifica.
Um tsunami causado
pela ômicron
"Parece que o coronavírus traz uma
nova surpresa. A cada onda, descobrimos algo novo, que não tínhamos visto até
então", destaca.
A exemplo do que ocorre em várias
partes do planeta, Israel também foi afetado pela variante ômicron. Os números
de casos, hospitalizações e óbitos registrados recentemente ultrapassam, de
longe, o que ocorreu em outros períodos de crise por lá, especialmente nos
meses de setembro de 2020 e janeiro de 2021.
"Quando surgiram as primeiras
notícias da ômicron e se especulava sobre a possibilidade de termos 80 mil
infectados por dia, pensávamos que era impossível atingir um número tão
alto", conta a médica.
"Pois passamos dos 100 mil novos
casos diários no final de janeiro."
"E devemos considerar que Israel é
um país relativamente pequeno. Portanto, ter mais de 70 mil diagnósticos
diários representa um desafio para o sistema de saúde, mesmo que uma proporção
menor dos pacientes tenha complicações", complementa.
A partir de fevereiro, os registros de
novas infecções voltaram a cair — no dia 2/2, foram feitos 62 mil diagnósticos
de covid em Israel.
O mesmo efeito, porém, ainda não foi
observado nas mortes pela doença, que continuam a subir, ainda que a taxa de
óbitos em relação ao número de novos casos seja proporcionalmente menor do que
ocorreu nas ondas anteriores.
Israel, inclusive, chegou a figurar
entre os países com a maior mortalidade por milhão de habitantes nessas
primeiras semanas de 2022.
"Sabemos que há um descompasso de
alguns dias nas curvas de casos e mortes. Esperamos, portanto, que os óbitos
comecem a diminuir em breve", analisa a especialista.
O poderio das
vacinas
Schleifer aponta que o estrago só não
foi maior graças à vacinação contra a covid. E isso fica claro quando ela cita
os dados oficiais do Ministério da Saúde de Israel.
"Em pessoas com mais de 60 anos,
temos 375 pacientes graves que não se vacinaram a cada 100 mil habitantes.
Entre os vacinados, esse número cai para 31 pacientes por 100 mil",
calcula a médica.
Ou seja: na população mais velha de
Israel, o risco de complicações pela covid é 12 vezes mais alto entre quem não
tomou as três doses do imunizante.
"Já naqueles com menos de 60 anos,
essa taxa fica em 5 pacientes por 100 mil entre não vacinados e 1,5 entre os
vacinados", completa.
Embora Israel tenha sido pioneiro na
distribuição e na aplicação dos imunizantes contra a covid, e inclusive liderou
as discussões sobre a necessidade de uma terceira dose, os números de novos
vacinados cresceram mais lentamente no segundo semestre de 2021 e no início de
2022.
Para ter ideia, 62% dos israelenses
tinham recebido ao menos uma dose em julho do ano passado. Agora em fevereiro,
esse índice está em 72%.
A médica brasileira avalia que o país
deveria ter feito campanhas de comunicação mais direcionadas e adaptadas a
algumas parcelas da população.
"Nós vemos que algumas pessoas são
mais resistentes às vacinas e outras camadas tiveram uma alta taxa de
contaminação logo no início da pandemia, como os judeus ultraortodoxos",
cita.
"Outro dia estava conversando com
um médico árabe e ele me relatou que, dentro da comunidade, existe uma
hierarquia familiar que respeita muito a decisão de avôs e avós. Portanto, se
os mais velhos resolvem não se vacinar, ninguém abaixo deles naquela família
vai tomar as doses", continua.
"Seria interessante ter campanhas
mais dirigidas, para tirar as dúvidas que cada um desses grupos
apresenta", sugere.
Perspectivas e
aprendizados
A médica brasileira conta que as demais
medidas restritivas, como a proibição de aglomerações e o uso de máscaras,
estão em discussão atualmente em Israel.
"Temos o green pass, que é válido
para quem tomou a terceira dose ou teve covid e se recuperou. Esse documento é
exigido para entrar em muitos lugares, como restaurantes e shoppings. Também se
recomenda o uso de máscaras em locais fechados", conta.
"Mas agora, com tanta gente
infectada pela segunda vez, o green pass parece perder um pouco de sentido, mas
ainda não há uma decisão se ele será mantido ou abandonado."
Schleifer vê outra mudança
significativa que começou a acontecer recentemente: muitos pacientes com covid
que antes precisavam ficar em hospitais agora são tratados em casa, com
monitoramento à distância.
"O sistema de saúde de Israel
conseguiu se estruturar para deixar o paciente em sua comunidade. Ele fica
internado em casa, mas sob os cuidados de médicos e enfermeiras, que fazem o
acompanhamento pela internet", detalha.
"Isso foi uma solução para não
sobrecarregar ainda mais os hospitais."
Com tantas alterações no conhecimento
sobre a doença e nas formas de prevenção e tratamento, a médica brasileira
torce para que a evolução natural do vírus faça com que ele fique menos
perigoso num futuro próximo.
"Espero que a gente não seja
surpreendido com uma nova variante do coronavírus ainda mais perigosa e
contagiosa", conta.
"Mas essa pandemia nos mostrou que
precisamos ser flexíveis e dinâmicos, especialmente quando o assunto é saúde e
educação. Pode ser necessário mudar os planos, adaptar e criar novas condições
de acordo com a realidade."
"A covid nos pregou um baita susto e espero que a gente aprenda com todos os erros para estarmos melhor preparados para a próxima crise de saúde que aparecer", finaliza.
(BBC)
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