O levantamento foi feito pelo Brasil de Fato na plataforma Comex Stat, mantida pelo governo federal para monitorar
as importações e exportações feitas pelo Brasil nos últimos 25 anos. O
resultado detectado pela reportagem mostra que a tendência das importações de pistolas e revólveres segue
em alta.
Os números apontam que a importação de armas do
tipo mais que triplicou desde 2018. O crescimento foi de 228% nos
últimos quatro anos, alcançando US$ 39 milhões em 2021. A quantidade de itens
também cresceu de forma exponencial, saltando de 7.156 em 1997 para 119.147 no
ano passado.
O Atlas da Violência de 2021, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta
que mais de 30 decretos e atos normativos flexibilizando o acesso e a compra de
armas foram publicados desde que o presidente Jair Bolsonaro (PL) assumiu.
Algumas das medidas, contudo, foram suspensas pelo Poder Judiciário.
O julgamento de parte das medidas pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) foi interrompido em setembro do ano
passado, depois de um pedido de vistas do ministro Nunes Marques,
indicado à Corte pelo chefe do Executivo. Uma das ações que aguarda a decisão
do Supremo é uma resolução que zera o imposto da importação de pistolas e
revólveres. A alíquota atual é de 20%.
Número de armas de uso amador supera o da Polícia
Militar
Em janeiro, o Brasil de Fato mostrou
que a flexibilização no acesso às
armas e munições no Brasil durante a gestão Bolsonaro associada à dificuldade
de mecanismos de controle e rastreamento tornou-se motivo de
preocupação, principalmente, por ter relação direta com o aumento da
violência.
Um levantamento realizado pelo advogado e gerente
do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, para o seu mais recente livro Arma de fogo: Gatilho da violência no Brasil, da
editora Telha, aponta que o número de armas em circulação na categoria Caçador,
Atirador Esportivo e Colecionador (CAC) no Brasil já é superior ao total de
armas da instituição Polícia Militar.
Segundo os dados obtidos pelo autor a partir do
Sistema Nacional de Armas (SINARM) e do Sistema de Gerenciamento Militar de
Armas (SIGMA), até abril de 2021, os usuários na categoria
CAC contabilizavam um total de 648.731 armas, enquanto a soma dos
armamentos das Polícias Militares totalizava 583.498.
Como mostrou uma reportagem publicada pelo Brasil de Fato, no último mês de dezembro, além dos CACs
obterem altas quantidades de armas e munições, os decretos presidenciais
desclassificaram uma série de itens que eram considerados Produtos Controlados
pelo Exército (PCEs). Hoje, um usuário na categoria CAC pode ter acesso, por
exemplo, a um fuzil semiautomático calibre 7.62, que era de uso restrito.
Armas e homicídios: diretamente proporcionais
Na avaliação de Langeani, a relação é direta entre
aumento de circulação de armas e homicídio. Para ele, os impactos da adoção
dessa medida sem controle eficiente dos órgãos responsáveis já é conhecida da
população brasileira.
“O período em que mais cresceu o homicídio no
Brasil foi quando tivemos uma corrida armamentista na década de 1990. O Brasil
está vendo algo semelhante com o governo Bolsonaro. No final de 2018, tivemos
uma queda de homicídios que acabou entrando um pouco em 2019. A flexibilização de
armas começou, principalmente, a partir de maio de 2019 e não parou até agora,
mesmo com pandemia. E, com toda essa questão de fechamento de comércio, a gente
está vendo cada vez mais a compra de armas, e isso já começa a ter um reflexo
nos indicadores”, aponta o advogado em entrevista ao Brasil de Fato.
"Projeto perigoso que ameaça o futuro do
Brasil"
No ano passado, o Brasil de Fato conversou
com Douglas Belchior, um dos coordenadores da Coalizão Negra por Direitos. A
pedido da reportagem, ele comentou o crescimento do número de armas no Brasil e
apontou a relação dos números com o período do mandato do presidente Jair
Bolsonaro no comando do Executivo.
"Em uma sociedade marcadamente racista como a
nossa, quando você arma a população, sobretudo a classe média e aqueles que são
adeptos desse tipo de pensamento, a gente coloca em maior risco pessoas
historicamente estigmatizadas", ressalta Belchior.
"O perigo recai sobre aquelas pessoas que já
são vítimas da violência armada — tanto a oficial, promovida pelo governo,
pelas polícias e milícias; quanto pela violência civil generalizada",
considera. Segundo ele, é preciso reconhecer que "não é só a polícia,
através da sua ação coordenada, genocida e racista, que assassina pessoas
negras".
"A violência civil generalizada — que se dá
através do uso de armas —, também faz de alvo preferencial a população
negra. Dessa maneira, os números mostram a confirmação de um projeto
absolutamente perigoso e que compromete o futuro do país", pontua. (Brasil
de Fato)
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