Esse problema
é particularmente comum entre os pais. As pessoas que vivem com crianças com
menos de 15 anos de idade têm até 14 horas a menos de tempo livre por semana
que os que vivem sozinhos, segundo as estatísticas britânicas oficiais de 2018.
Pesquisas
indicam que cuidadores primários de muitos tipos - particularmente mães de
baixa renda sem acesso às estruturas de apoio disponíveis para as que ganham
mais - são mais propensas a enfrentar a pressão do tempo e os cronicamente
pobres de tempo muitas vezes encontram-se presos em um ciclo de pobreza social
e econômica.
A pandemia
aumentou muitos dos problemas de pobreza de tempo, mas os especialistas
acreditam que pode haver algumas formas de resolver essa questão.
Os maiores
impactos
Vivemos em
uma era que idolatra a produtividade. A cultura do "sempre ligado"
significa que nosso trabalho invade frequentemente nosso tempo pessoal; a
criação de filhos parece mais intensa; e nossos amigos, hobbies e interesses
estão apenas a um toque de distância no celular, 24 horas por dia e sete dias
por semana.
"Você
dificilmente encontrará um ser humano que diga que não é pobre de tempo",
afirma Grace Lordan, diretora da Iniciativa para a Inclusão da London School of
Economics.
"As
pessoas sentem com mais frequência a necessidade de ficar à disposição para o
trabalho, família e amigos, já que estamos conectados à tecnologia todo o
tempo. Para as crianças, existem muito mais atividades estruturadas em
comparação com o passado, de forma que, para os pais, o sábado não consiste
mais em simplesmente abrir a porta e deixar os filhos saírem para brincar.
Essas mudanças mudaram fundamentalmente a forma como percebemos o tempo e nos
sentimos com relação a ele", afirma Lordan.
Embora certos
grupos populacionais tenham se beneficiado com formas mais eficientes de
trabalho nas últimas décadas, outros sofreram devido ao aumento do tempo
dedicado ao trabalho sem remuneração e cognitivo - encargos assumidos com mais
frequência pelas mulheres. Não é necessariamente a pobreza de tempo que está
aumentando, mas a desigualdade do tempo.
"A
pobreza de tempo afeta principalmente os cuidadores, mas também prejudica
desproporcionalmente os pobres", segundo Aleksandar Tomic, diretor
assistente de estratégia, inovação e tecnologia do Departamento de Economia da
Faculdade de Boston, nos Estados Unidos.
"Para
famílias que não podem pagar por cuidadores para os seus filhos, os mais velhos
ou parentes doentes, a atenção às crianças e outros compromissos podem exigir
uma quantidade de tempo excepcional. As tarefas de cuidado quase sempre são
desempenhadas pelas mulheres, mesmo quando elas vivem com um parceiro",
afirma Tomic.
Para as
mulheres (e, particularmente, para as mulheres que têm filhos), a falta de
tempo é um problema sério. Pesquisas indicam que, nos países desenvolvidos, as
mulheres gastam duas vezes mais horas por dia em trabalhos sem remuneração,
como cozinhar, limpar e cuidar dos filhos, enquanto, nos países em
desenvolvimento, essa diferença aumenta para 3,4 vezes.
Em alguns
casos, isso se deve a desigualdades explícitas e expectativas de gênero
definidas sobre quais trabalhos as mulheres devem fazer. Mas, em outros, as
desigualdades são mais sutis.
Para muitas
mulheres, mais tempo é consumido pela chamada "carga mental" - o
trabalho emocional e cognitivo desempenhado pelas mulheres, como o planejamento
das refeições ou a organização de festas, que permanece não representado nas
medidas econômicas de produtividade e crescimento. A pobreza de tempo causada
pela carga mental do trabalho doméstico muitas vezes retira as mulheres - e,
particularmente, as mulheres cuidadoras - do mercado de trabalho ou as
encaminha para trabalhos com salários mais baixos.
"A
pobreza de tempo cognitivo pode apresentar-se até em lares com renda mais alta,
já que alguém ainda precisa coordenar todo o apoio doméstico", afirma
Tomic. "Podemos atualmente ver as demonstrações ostensivas das frustrações
decorrentes da pobreza de tempo, principalmente na forma da Grande Renúncia [a
tendência que levou um grande número de trabalhadores norte-americanos a deixar
seus empregos durante a pandemia de covid-19]."
Nicole
Villegas, terapeuta ocupacional de Portland, em Oregon, nos Estados Unidos,
frequentemente recebe trabalhadores esgotados queixando-se que simplesmente não
têm tempo suficiente durante o dia. Ela afirma que a maioria das pessoas tem a
sensação de que os dias passam rápido demais e conta que tem observado que a
pobreza de tempo gera má qualidade de sono, burnout e depressão.
Para algumas
pessoas, os impactos para a saúde podem ser ainda mais significativos. O
esgotamento causado pelas responsabilidades domésticas pode fazer com que as
mulheres demorem para buscar assistência médica quando necessário.
Um estudo
demonstrou que mais de um quarto das mulheres norte-americanas atrasou ou não
procurou assistência médica nos últimos 12 meses por falta de tempo. Existem
também evidências de que a pobreza de tempo promove hábitos de alimentação não
saudável e redução dos exercícios - e todas as pessoas pobres de tempo
apresentam níveis de bem-estar muito mais baixos.
"A
pobreza de tempo cria barreiras para as pessoas que querem explorar seus
interesses fora das obrigações, como o trabalho ou os cuidados com a
família", afirma Villegas. "Quando as pessoas vivem com pobreza de
tempo, muitas vezes elas perdem atividades de lazer que poderiam melhorar sua
qualidade de vida."
Mas não são
apenas a pausa e a possibilidade de explorar novos interesses que os pobres de
tempo estão perdendo. As oportunidades de melhorar as circunstâncias da vida
também ficam de lado.
Pais que
estudam têm menos possibilidade de formar-se na faculdade que seus colegas sem
filhos. Já indivíduos com filhos com menos de 13 anos de idade investem
significativamente menos tempo em educação. Especialistas indicam
especificamente que a pobreza de tempo é a principal causa.
Os
pesquisadores também observam que os pobres de tempo têm dificuldade de
encontrar as horas necessárias para buscar melhores empregos e, muitas vezes,
não têm espaço mental para tomar boas decisões financeiras. A pobreza econômica
resultante cria ainda mais pobreza de tempo - e o tempo que falta poderia ser
aquele que é gasto para realizar as tarefas se não houver acesso à internet
confiável em casa, cuidando dos filhos se você não conseguir pagar uma creche
ou o tempo necessário para o transporte se a pessoa não tiver condições de
morar em um grande centro urbano.
Os indivíduos
ficam então presos em um círculo vicioso. Sua baixa renda os torna pobres de
tempo - mas sua falta de tempo também impede que eles melhorem suas condições
financeiras. "Do ponto de vista econômico, a pobreza de tempo manifesta-se
em queda da produtividade e, por fim, menores possibilidades de
progresso", afirma Tomic. "Isso acaba resultando em discrepâncias
salariais."
Preenchendo
a lacuna
A pandemia
apenas amplificou os problemas já existentes, aumentando o dia médio de
trabalho em 48 minutos nas primeiras fases de lockdown, com a proporção de
trabalho sem remuneração desempenhado pelas mulheres multiplicando-se enquanto
muitas mães que trabalham equilibravam seus empregos e as aulas em casa.
O estresse e
a depressão dispararam entre os pais sobrecarregados e, nos Estados Unidos, a
participação das mulheres no mercado de trabalho caiu para o seu nível mais
baixo dos últimos 30 anos, já que as mães em dificuldades com as exigências do
trabalho e da família acabaram por demitir-se.
"A
pandemia amplificou a pobreza de tempo, removendo muitos sistemas de apoio que
antes eram disponíveis para os pais e, em alguns casos, acrescentando mais
responsabilidades, como as compras de mercado para um vizinho idoso",
afirma Iryna Sharaievska, professora da Faculdade de Ciências Comportamentais,
Sociais e de Saúde da Universidade de Clemson, nos Estados Unidos.
"Essas
responsabilidades adicionais caíram principalmente sobre os ombros das
mulheres. Como resultado, as mães ficaram com duas vezes mais possibilidade que
os pais de perder seus empregos para compensar a falta de creches e muitas
delas precisaram reduzir suas horas de trabalho. As mulheres negras, sem
diploma universitário e de baixa renda foram as que sofreram maiores impactos",
segundo Sharaievska.
Ela receia
que a pobreza de tempo somente aumentará no futuro.
"Nós,
como sociedade, estamos aumentando constantemente nossas expectativas de
produtividade, desempenho, dedicação e responsabilidade como pais", afirma
ela. "Nós elogiamos as pessoas que 'fazem de tudo'.
'Supermães'
que 'conseguem tudo' são constantemente apresentadas na imprensa e nas redes
sociais como um objetivo a ser buscado, o que normaliza ainda mais a falta de
apoio do governo, dos empregadores e das comunidades, devolvendo a
responsabilidade para as mães."
Sharaievska
afirma que a redução da pobreza de tempo exige mudanças reais dos governos e
dos empregadores. São necessárias políticas claras para apoiar as mães e os
cuidadores primários.
"O
governo precisa criar políticas que apoiem os pais - garantia de férias
remuneradas e licença-maternidade, de forma que as ausências em favor da
família não sejam consideradas 'oportunidades únicas na vida'", segundo
ela.
"Deverá
ser fornecida assistência adicional aos pais solteiros, famílias de baixa renda
e famílias em comunidades rurais. Os empregadores devem criar um ambiente onde
os funcionários possam cuidar das suas necessidades sem medo de perder seus
empregos."
(BBC)
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