O fanático de
38 anos era membro do Hindu Mahasabha, um partido de direita, que havia acusado
Gandhi de ter traído os hindus por ser a favor demais dos muçulmanos e brando
com o Paquistão.
Eles o
culparam até pelo derramamento de sangue que marcou a Partição, processo pelo
qual a Índia e o Paquistão foram criados após a independência do Reino Unido em
1947.
Um tribunal de
primeira instância condenou Godse à morte um ano após o assassinato. Ele foi
executado em novembro de 1949, depois que o tribunal superior confirmou a
sentença. (Um cúmplice, Narayan Apte, também foi condenado à morte, e outros
seis à prisão perpétua).
Antes de
entrar para o Hindu Mahasabha, Godse era membro da Rashtriya Swayamsevak Sangh
(Organização Nacional de Voluntários) ou RSS, a fonte ideológica do Partido
Bharatiya Janata (BJP), à frente do governo da Índia.
O próprio primeiro-ministro,
Narendra Modi, é um membro de longa data da "nave-mãe" de 95 anos do
nacionalismo hindu. O RSS desempenha um papel profundamente influente em seu
governo e fora dele.
Por décadas, o
RSS rejeitou Godse, que assassinou o "Pai da Nação", como os indianos
adoram chamar seu principal ícone.
No entanto, um
grupo de direitistas hindus tem louvado Godse nos últimos anos e celebrado
abertamente o assassinato de Gandhi. No ano passado, um parlamentar incendiário
do BJP descreveu Godse como um "patriota".
Tudo isso
indignou a maioria dos indianos, mas o RSS manteve sua posição: Godse deixou a
organização muito antes de matar Gandhi.
Um novo livro
agora afirma, no entanto, que isso não é bem verdade.
Godse, um
homem tímido que abandonou o ensino médio, trabalhava como alfaiate e vendia
frutas antes de entrar para o Mahasabha, onde editava seu jornal. Durante o
julgamento, ele levou mais de cinco horas para ler um depoimento de 150
parágrafos perante o tribunal.
Ele disse que
"não houve conspiração" para matar Gandhi, tentando assim absolver
seus cúmplices de qualquer crime. E negou a acusação de que agiu sob a
orientação de seu líder, Vinayak Damodar Savarkar, que deu origem à ideia de
Hindutva ou Hinduísmo. (Embora Savarkar tenha sido exonerado de todas as
acusações, os críticos acreditam que o direitista radical que detestava Gandhi
estava ligado ao assassinato.)
Godse também
afirmou ao tribunal que havia rompido com o RSS muito antes de matar Gandhi.
Dhirendra Jha, autor de Gandhi's Assassin ("O Assassino de Gandhi", em tradução literal), escreve que Godse — filho de pai carteiro e mãe dona de casa — era um "trabalhador proeminente" do RSS. E não havia "evidências" de que fora expulso da organização. Um depoimento de Godse registrado antes do julgamento "não menciona sua saída do RSS depois que ele se tornou membro do Hindu Mahasabha".
No entanto, em
depoimento perante o tribunal, ele disse que "se juntou ao Hindu Mahasabha
depois de deixar o RSS, mas permanece em silêncio sobre quando exatamente fez
isso".
"Esta
alegação permaneceu sendo um dos aspectos mais debatidos da vida de
Godse", diz Jha.
Ele acredita
que "escritores pró-RSS" usaram isso para "alavancar silenciosamente
a ideia de que Godse já havia rompido com o RSS e se juntado ao Hindu Mahasabha
quase uma década antes de matar Gandhi".
O pesquisador
americano JA Curran Jr afirmou que Godse entrou para o RSS em 1930 e saiu
quatro anos depois, mas não forneceu evidências para sua afirmação.
Jha escreve
que, em depoimento dado à polícia antes do início de seu julgamento, Godse
admitiu que estava trabalhando para ambas as organizações simultaneamente.
Familiares
dele também entraram no debate no passado. Gopal Godse, irmão de Nathuram, que
morreu em 2005, disse que seu irmão "não deixou o RSS".
E, em 2015, um
sobrinho-neto de Godse contou a um jornalista que o tio avô entrou para o RSS
em 1932 e "não foi expulso nem deixou a organização".
Jha, que
vasculhou os arquivos, também se debruça sobre as ligações entre as duas
organizações hindus.
Ele escreve
que o Hindu Mahasabha e o RSS tinham uma "relação fluida e
sobreposta" e uma ideologia idêntica.
O RSS sempre
ecoou o que Godse disse no tribunal — que ele deixou a organização em meados da
década de 1930, e que o julgamento provou que não tinha nada a ver com o
assassinato.
"Dizer
que ele era um membro do RSS é apenas projetar uma mentira com intenções
políticas", disse Ram Madhav, um alto líder do RSS.
Golwalkar, um
dos líderes mais influentes do RSS, descreveu o assassinato de Gandhi como uma
"tragédia de magnitude sem precedentes — ainda mais porque o gênio do mal
é um compatriota e hindu".
Mais
recentemente, líderes do RSS como MG Vaidya chamaram Godse de "assassino"
que "insultou" Hindutva ao matar uma figura tão respeitada da Índia.
Autores como
Vikram Sampath acreditam que o RSS e o Hindu Mahasabha tiveram uma relação
tempestuosa.
Sampath, autor
de uma biografia de dois volumes sobre Savarkar, escreve que a decisão do Hindu
Mahasabha de criar um grupo de voluntários semelhante a uma "sociedade
secreta revolucionária" para "proteger os interesses dos hindus"
havia "azedado" seu relacionamento com o RSS.
Além disso, de
acordo com Sampath, o RSS "desistiu de idolatrar indivíduos,
diferentemente do líder do Mahasabha, Savarkar, que acreditava no "culto a
heróis e adulação exagerada".
No entanto, as
dúvidas de que Godse fazia parte intrinsecamente e jamais deixou o RSS nunca
desapareceram.
Antes de Godse
ir para a forca, em 15 de novembro de 1949, ele recitou as primeiras quatro
frases da oração do RSS.
"Mais uma
vez, isso revela o fato de que ele era um membro ativo da organização",
diz Jha. "Desassociar o RSS do assassino de Gandhi é uma invenção da
história."
(Fonte: BBC)
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