Com isso, a doença provocada pelo
coronavírus deixará de ser vista como uma emergência de saúde e muitas das
restrições — uso de máscaras, proibição de aglomerações e exigência do
passaporte vacinal — cairão por terra.
Embora anúncios do tipo fossem
esperados, eles causaram muita confusão: em alguns casos, a endemia foi
interpretada como o fim da covid — quando, na verdade, estamos muito longe
disso (e é bem possível que essa doença nunca desapareça).
Mas, afinal, o que uma endemia
significa na prática? Os países europeus acertaram na decisão? E será que o
Brasil também vai chegar nessa mesma etapa logo mais?
Uma palavra, múltiplas
interpretações
Para começo de conversa, vale
esclarecer que uma endemia não é necessariamente uma boa notícia.
Ela apenas significa que há uma
quantidade esperada de casos e mortes relacionadas a uma determinada doença, de
acordo com um local e uma época do ano específicas. E esses números nem
aumentam, nem diminuem.
A infecção pelo herpes simples,
que provoca feridas na boca e na região genital, é uma endemia. Estima-se que
pelo menos dois terços da população mundial com mais de 50 anos já tiveram
contato com esse vírus. Apesar de incômodo, esse quadro não está relacionado a
grandes complicações ou risco de óbito.
Por outro lado, outras doenças
bem mais sérias e mortais, como tuberculose, aids e malária, também são
endêmicas. Só na malária, estima-se que cerca de 240 milhões de casos e 640 mil
mortes aconteçam todos os anos, segundo
as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A questão, portanto, tem a ver
com a estabilidade nas estatísticas relacionadas com aquela enfermidade. Quando
esses números fogem do controle, a situação evolui para uma epidemia (se o
problema for localizado numa região) ou para uma pandemia (caso a crise se
alastre por vários continentes).
Num evento do Fórum Econômico Mundial realizado
no final de janeiro, representantes de várias instituições discutiram todos
esses conceitos e debateram quando a covid-19 poderia ser realmente
classificada como uma endemia.
Na visão do imunologista Anthony
Fauci, líder da resposta à pandemia dos Estados Unidos, endemia significa
"uma presença não disruptiva sem a possibilidade de eliminação [de uma
doença]".
De acordo com a avaliação do
especialista, o coronavírus não será extinto e passará, aos poucos, a afetar os
seres humanos de forma similar a outros agentes causadores do resfriado comum.
Na mesma ocasião, o médico Mike
Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, também
bateu nessa tecla. "Nós provavelmente nunca vamos eliminar esse vírus.
Depois da pandemia, ele se tornará parte de nosso ecossistema. Mas é possível
acabar com a emergência de saúde pública."
Ele também reforçou que endemia
não é sinônimo de coisa boa. "Ela só significa que a doença ficará entre
nós para sempre. O que precisamos é diminuir a incidência, aumentando o número
de pessoas vacinadas, para que ninguém mais precise morrer [de covid]",
completou.
A hora e a vez da covid?
De um lado, os cientistas se
mostram reticentes em já encarar a covid-19 como uma endemia, pela falta de
parâmetros e de uma estabilidade nas notificações por um período mais
prolongado.
"Isso ainda não foi bem
estabelecido. Quais são os números de casos, hospitalizações e mortes pela
doença aceitáveis, ou esperados, todos os anos?", questiona a
epidemiologista Ethel Maciel, professora titular da Universidade Federal do
Espírito Santo.
Por outro, é inegável que o
avanço da vacinação e os recordes de novas infecções impulsionadas pela ômicron
nos últimos dois meses garantiram um alto nível de proteção, especialmente
contra as formas mais graves da doença.
Até o momento, 53% da população
mundial já recebeu ao menos duas doses da vacina. E as projeções publicadas no periódico The Lancet pelo
Instituto de Métricas em Saúde da Universidade de Washington, nos EUA, indicam
que, dado o alto grau de transmissibilidade da nova variante, metade das
pessoas do planeta terão sido infectadas entre novembro de 2021 e março de
2022.
"É muita gente com
imunidade", avalia o infectologista Julio Croda, da Universidade Federal
do Mato Grosso do Sul e da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz).
Esse aprimoramento das defesas do
organismo garante uma proteção contra as complicações da covid, relacionadas à
hospitalização e morte, ao menos por alguns meses.
"Graças à imunidade obtida
pela vacinação e, em menor grau, pelo alto número de infecções, a doença se
tornou menos letal", diz Croda, que também é presidente da Sociedade
Brasileira de Medicina Tropical.
A covid chegou a ter uma taxa de
letalidade de 1 a 2%. Atualmente, esse número está em 0,25%, segundo alguns
registros nacionais e internacionais.
Croda explica que essa taxa de
0,25% ainda é o dobro do que ocorre na gripe (que fica em 0,1%). Mesmo assim,
houve uma diminuição de praticamente dez vezes na mortalidade por covid que era
observada há poucos meses.
E isso, mais uma vez, tem a ver
com a imunidade adquirida ao longo desse tempo.
Os vírus e nosso sistema de
defesa fazem um verdadeiro cabo de guerra.
Quando surge uma doença
infecciosa nova, a corda pende com mais frequência para o patógeno, já que
nossas células imunes não fazem a menor ideia de como combater a ameaça.
Com o passar do tempo — e a
disponibilidade de vacinas seguras e efetivas — o jogo começa a virar, e o
sistema imunológico "aprende" a lidar com o inimigo.
Nessa situação, mesmo que o
agente infeccioso consiga invadir o organismo, suas consequências tendem a ser
menos preocupantes.
É justamente isso que parece
estar acontecendo com a covid: dois anos e poucos meses depois dos primeiros
casos, o número de indivíduos com algum nível de proteção é suficientemente
alto para que não ocorra mais um aumento na demanda por leitos no mesmo patamar
das outras ondas, em que o sistema de saúde chegou a entrar em colapso.
Resumindo, pelo observado até
agora, a covid ainda não pode ser comparada com a gripe e está longe de ser um
resfriado comum, mas parece caminhar para chegar mais próximo disso algum dia
no futuro.
O que muda na prática?
Os países europeus que já
classificam a covid-19 como uma endemia em seus territórios acabaram (ou
acabarão em breve) com a maioria das restrições que marcaram os últimos 24
meses.
De forma geral, não haverá mais necessidade de uso de máscaras em locais fechados, não será preciso mostrar o comprovante de vacinação e as aglomerações estarão completamente liberadas.
Num discurso recente no Parlamento do Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson disse que, "conforme a covid se tornar endêmica, nós precisaremos substituir as requisições da lei pela orientação, de modo que as pessoas infectadas com o vírus sejam cuidadosas umas com as outras"
Maciel entende que alguns cuidados devem permanecer mesmo assim, ainda que a situação fique menos grave.
"O vírus vai continuar circulando. Mesmo que as medidas não sejam mais obrigatórias, é importante que todos tomem alguns cuidados quando necessário", orienta.
A epidemiologista avalia que é
preciso empoderar e ensinar as pessoas, para que elas avaliem o risco de cada
situação e tomem as medidas para proteger a si e a todos ao redor.
Um sujeito com sintomas de gripe
ou covid, por exemplo, deve trabalhar de casa, se possível, para não colocar em
risco os demais colegas. E, caso tenha que sair, ele pode usar máscara para,
assim, evitar a transmissão do vírus para os contatos próximos.
"É a mesma coisa que
acontece com a infecção pelo HIV. Ter uma relação sexual sem preservativo te
coloca numa situação de risco, mesmo que essa doença seja considerada hoje uma
endemia", compara.
Que fique claro: o alívio nas
políticas restritivas não significa que elas foram inúteis ou não deveriam ter
sido adotadas no passado. É consenso entre os especialistas que todas essas
medidas salvaram muitas vidas num momento em que não existiam outros meios para
barrar a infecção e suas complicações.
Hoje em dia, possuímos
ferramentas testadas e aprovadas — vacinas e remédios — para lidar com a covid
e torná-la menos ameaçadora para a grande maioria da população.
E, claro, caso surja uma nova
variante agressiva e com capacidade de escapar da imunidade, será preciso
instaurar novamente muitos desses cuidados preventivos que começam a ser
abandonados em certas partes do mundo.
Além das questões relacionadas à
prevenção, outra mudança significativa da endemia envolve a vigilância: a forma
como os casos são detectados e notificados é bem diferente.
Durante os últimos dois anos,
muitos países fizeram uma busca ativa de infectados, mesmo aqueles que nem
apresentavam sintomas típicos da covid.
Foram montadas tendas de testagem
em diversos locais e kits de diagnóstico eram distribuídos gratuitamente (ou
vendidos por um preço baixo) para os cidadãos — no Brasil, foram poucas as
cidades ou os Estados que lançaram uma política nesses moldes.
Aqueles indivíduos que testavam
positivo eram então monitorados e orientados a ficar em quarentena. Na
sequência, as pessoas com quem eles tiveram contato próximo nos dias anteriores
eram comunicadas a também buscar os exames.
Durante uma pandemia ou uma
epidemia, essa estratégia permite cortar as cadeias de transmissão do vírus na
comunidade e evita que a situação cresça e gere uma bola de neve, que desemboca
em um aumento massivo de hospitalizações e mortes.
Com a endemia, todo esse amplo
programa de testagem, isolamento e rastreamento de contatos deixa de fazer
sentido.
"Passa-se então para um
modelo de vigilância sentinela, em que não é necessário testar todo mundo que
apresenta sintomas de infecção respiratória", explica Croda.
"Um sistema que concentre os
testes nos hospitais ou nos ambulatórios de atenção primária é custo-efetivo e
ajuda a identificar padrões no número de casos."
"Se a vigilância notar um
novo crescimento em determinada região, é possível intervir cedo, antecipando
campanhas de vacinação ou disponibilizando mais testes para aquele local",
completa o especialista.
Ainda nesse contexto endêmico, a
ciência ainda não sabe ao certo como será o futuro da vacinação contra a covid.
Será que todos deverão tomar uma quarta dose? Ou haverá a necessidade de
reforços anuais, a exemplo do que ocorre com a gripe?
"É possível que precisemos
de vacinas adaptadas de acordo com o surgimento de novas variantes, para
proteger principalmente os grupos mais vulneráveis, como idosos, pacientes
imunossuprimidos e crianças", antevê Croda.
É cedo para decretar uma endemia?
As decisões tomadas por alguns
países europeus geraram algumas controvérsias no meio acadêmico.
Num artigo publicado na
revista especializada Nature,
o pesquisador Aris Katzourakis, da Universidade de Oxford, no Reino Unido,
criticou o que ele considera um "otimismo preguiçoso".
"Como virologista evolutivo,
fico frustrado quando gestores públicos invocam a palavra 'endemia' como uma
desculpa para fazer pouco, ou não fazer nada.
Existem mais coisas que podem ser
feitas do que aprender a conviver com rotavírus, hepatite C ou sarampo
endêmicos", escreveu.
Katzourakis também diz que é um
erro pensar que a evolução dos vírus sempre os tornam mais
"bonzinhos".
"Lembre-se que as variantes
alfa e delta são mais virulentas que a versão original detectada em Wuhan, na
China. E a segunda onda da pandemia de gripe espanhola em 1918 foi muito mais
mortal que a primeira", argumenta.
"Pensar que a endemia é leve
e inevitável não é apenas errado, mas perigoso: deixa a humanidade à mercê de
muitos anos da doença, incluindo ondas imprevisíveis e novos surtos. É mais
produtivo considerar o quão ruim as coisas podem ficar se continuarmos a dar ao
vírus oportunidades de nos enganar. E daí então podemos fazer mais para
garantir que isso não aconteça", finaliza.
Para Croda, só o tempo dirá se a
decisão dos países europeus foi certa ou errada. "Isso depende muito de
fatores que não controlamos. Nesse meio tempo, pode surgir uma nova variante
extremamente contagiosa, com escape imunológico e maior risco de hospitalização
e óbito", especula.
"É justamente para evitar
que isso aconteça que precisamos ofertar vacinas para todos, especialmente para
aqueles que ainda não tomaram nenhuma dose. Essa deveria ser a prioridade
número um do mundo inteiro", acrescenta.
Maciel concorda. "Quando a
transmissão está muito alta, tudo pode acontecer, inclusive o surgimento de
novas variantes.", alerta.
"E o Brasil, além de seguir
com a vacinação, precisa ampliar o acesso aos tratamentos contra a covid, como
os anticorpos monoclonais e os antivirais, que já são usados em outros
países", complementa.
Onde o Brasil se encaixa nesse
debate?
Por ora, ainda é muito cedo para
falar de endemia no nosso país, explicam os especialistas. Estamos na crista da
onda da ômicron, com recordes no número de casos e um aumento expressivo nas
hospitalizações e nas mortes por covid durante os últimos dias.
O Instituto de Métricas em Saúde
da Universidade de Washington, nos EUA, projeta que o Brasil deve
atingir o pico de óbitos relacionados a essa nova variante no meio de
fevereiro. A partir daí, os números devem cair novamente e se estabilizar
durante o mês de março.
Portanto, estamos alguns passos
atrás do que é observado em outras partes do mundo, onde os números já estão se
estabilizando.
Para garantir uma situação mais
tranquila por aqui, também é preciso ampliar a cobertura vacinal com a terceira
dose. No momento, 23% dos brasileiros tomaram o reforço, número muito aquém do
ideal. Vários estudos já mostraram que essa aplicação do imunizante é essencial
para proteger contra a ômicron e seus efeitos mais graves no organismo.
Croda entende que, com o passar
do tempo, vários países devem seguir os passos dos europeus e começarão a
encarar a covid sob uma nova ótica.
"E a América do Sul pode até
ter uma vantagem nisso, já que é o continente com a maior cobertura vacinal
contra a covid do mundo", compara.
"Assim que a onda da ômicron
passar, podemos ficar numa condição muito melhor para diminuir as
restrições", diz.
Para entender como os gestores
públicos enxergam essa discussão e se já há algum planejamento para que o país
entre nessa fase de transição, a BBC News Brasil entrou em contato com o
Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) e com o Ministério da Saúde.
Por meio de uma nota de
esclarecimentos, o Conass declarou que "o avanço da vacinação no Brasil,
que hoje já alcança mais de 75% do público-alvo vacinado com as duas doses, é o
primeiro passo para que o país caminhe para superar a pandemia da covid-19,
porém, a introdução da variante ômicron mostrou a complexidade do enfrentamento
do vírus e sua alta capacidade de mutações."
"A rápida transmissão desta
variante criou uma nova pressão na rede assistencial e o aumento de óbitos. Não
é possível considerar de caráter endêmico uma doença que traz esse peso na
assistência e que tenha essa alta morbimortalidade. Superar a pandemia não quer
dizer que não teremos mais casos e óbitos pela covid-19, mas não temos
parâmetros ainda para saber o quanto de casos e óbitos serão considerados
esperados e, dessa forma, tratados como endêmicos", continua o texto.
"As atenções e os esforços
atuais devem estar voltados para garantir a ampliação e manutenção dos leitos
clínicos e UTI covid, além da intensificação das campanhas de incentivo para
que todos os brasileiros completem o esquema vacinal, incluindo a dose de
reforço. Ainda não é o momento para baixar a guarda e decretar o controle da
pandemia no Brasil", conclui o Conass.
O Ministério da Saúde não enviou resposta até a publicação desta reportagem.
(BBC)
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