Maduro veio
ao Brasil para participar de uma cúpula com líderes de 11 países da América do
Sul em Brasília que havia sido proposta por Lula.
A última vez
que o presidente venezuelano esteve no Brasil foi em julho de 2015, quando
participou de uma cúpula do Mercosul em Brasília, durante o governo de Dilma
Rousseff (PT).
Desde 2019,
ele estava impedido de entrar no país após uma portaria editada pelo então
presidente Jair Bolsonaro (PL) proibir seu ingresso e de outras autoridades
venezuelanas no Brasil.
Bolsonaro
revogou a portaria um dia antes de deixar o cargo em uma negociação com o
governo de transição para abrir a possibilidade de Maduro participar da posse
de Lula, mas o presidente venezuelano acabou não participando da cerimônia.
Maduro só
voltou ao Brasil de fato no último domingo (28/5), quando desembarcou em
Brasília para participar da cúpula. No dia seguinte, teve uma reunião bilateral
com Lula, em que os dois trataram desta dívida e de como ela será quitada.
Maduro e Lula
foram questionados após o encontro por jornalistas sobre o total da dívida.
Lula disse não saber e questionou Maduro: "Você sabe qual é o tamanho da
dívida?".
O presidente
venezuelano respondeu: "Vai ser estabelecida uma comissão para estabelecer
esse tamanho e retomar os pagamentos".
De acordo com
o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Maduro pediu que seja criado um grupo
de trabalho com o governo brasileiro para consolidar o valor do débito e, a
partir daí, reprogramar seu pagamento.
Pelo lado
brasileiro, devem participar a Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio
Exterior (Camex), vinculada à Fazenda, a secretaria do Tesouro Nacional e o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - que é um dos
principais interessados no assunto.
Mas, afinal,
de quanto é essa dívida, de onde ela veio e quem vai pagar essa conta?
Qual o
tamanho da dívida da Venezuela?
Após o
encontro de Lula e Maduro, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio
e Serviços (MDIC) informou à BBC News Brasil que o valor da dívida venezuelana
totaliza atualmente quase US$ 1,27 bilhão (R$ 6,4 bilhões).
"Os
débitos da Venezuela junto ao governo brasileiro soma US$ 1.268.151.276,81,
sendo: i) US$ 1.095.002.908,09 referente a valores já indenizados pelo Fundo de
Garantia à Exportação (FGE); ii) US$ 53.987.162,42, referentes a indenizações a
serem pagas pelo FGE".
O Fundo de
Garantia à Exportação é um fundo de natureza contábil vinculado ao Ministério
da Fazenda. Ele foi criado em setembro de 1997 para cobrir operações amparadas
pelo Seguro de Crédito à Exportação (SCE).
O Seguro de
Crédito à Exportação é um mecanismo de garantia oferecido pela União para
proteger as exportações brasileiras de bens e serviços de potenciais riscos
comerciais, políticos e extraordinários e, assim, evitar calotes às empresas
nacionais.
Caso haja
inadimplência de quem comprou os bens e serviços, o FGE indeniza o financiador
e busca recuperar o valor em atraso do devedor.
O BNDES é o
principal financiador público de longo prazo para operações de comercialização
de exportações.
De onde
vem a dívida da Venezuela?
Segundo o
MDIC, os débitos da Venezuela são referentes a uma inadimplência relativa a
exportações brasileiras de bens e serviços para o país vizinho que contrataram
o Seguro de Crédito à Exportação.
"As
operações foram financiadas em sua maior parte pelo BNDES, porém havendo
operações com financiadores estrangeiros", disse a pasta em nota.
O BNDES, que
era vinculado ao então Ministério da Economia durante o governo de Bolsonaro e
passou a fazer parte do MDIC sob Lula, atua como principal instrumento de
execução da política de investimentos do governo federal.
Durante os
governos petistas, tanto nos dois primeiros mandatos de Lula quanto nos de
Dilma Rousseff, atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD,
popularmente conhecido como "Banco dos Brics"), houve desembolsos
bilionários no banco, em particular para o financiamento à exportação dos bens
e serviços de engenharia brasileiros.
No caso da
Venezuela, foi concedido R$ 1,5 bilhão a vários projetos de infraestrutura
realizados por empresas do Brasil.
Como o
próprio banco explica em seu site, "nessas operações, assim como em
todas as outras que o banco realiza, o BNDES desembolsa os recursos
exclusivamente no Brasil, em reais, para a empresa brasileira, à medida que as
exportações vão sendo realizadas".
Ou seja, a
empresa brasileira que vendeu produtos ou serviços para fora do país recebe um
pagamento do BNDES por isso.
Quem fica com
a dívida neste caso é a empresa ou país estrangeiro que comprou o bem e
serviço, que fica com a responsabilidade de pagar de volta o BNDES com juros,
em dólar ou em euros.
Se há
inadimplência, o BNDES aciona a estrutura de garantias e é ressarcido por
mecanismos como o FGE.
A maior parte
das operações de exportação de serviços de engenharia beneficiou cinco grandes
empreiteiras brasileiras, todas envolvidas na Operação Lava Jato.
Especificamente
nessa categoria, de financiamentos para exportação de serviços a outros países,
três deram calote - a Venezuela entre eles - "em um valor total de US$
1,09 bilhão acumulado até março de 2023", segundo o BNDES.
"Outros
US$ 518 milhões estão por vencer desses países", informou o banco.
Quem paga
essa conta?
O governo
brasileiro explicou em nota à BBC News Brasil que o FGE "cobriu o
calote".
No entanto,
segundo o economista e professor do Insper Sérgio Lazzarini, isso é uma
"falácia". Ele explica que, por conta das dívidas e dos calotes
acumulados, o patrimônio do fundo foi minguando, cujos recursos são
provenientes, dentre outras fontes, do orçamento federal.
"Quem
paga essa conta é, em última análise, o contribuinte", diz.
O problema
está, segundo Lazzarini, justamente na avaliação de risco dos empreendimentos
nesses países.
Ele publicou,
ao lado de outros pesquisadores, um estudo que analisou o custo financeiro
incorrido em algumas das operações realizadas pelo BNDES entre 2007 e 2015.
Segundo
Lazzarini, o banco emprestou para países "com altíssimo risco de crédito e
isso não foi precificado adequadamente".
"Então,
esse fundo, vire e mexe, está tomando calote. Se ele toma muito calote, não há
recursos", diz o economista.
"Se
estivéssemos emprestando a países com baixo risco de crédito, o mecanismo
funciona. Mas tomamos calote atrás de calote."
Desde 2020, é
discutido no âmbito do governo federal um novo modelo para o FGE, mas nada foi
decidido até agora.
Em fevereiro,
durante a posse de Aloizio Mercadante como presidente do BNDES, Lula disse ter
"certeza" que a Venezuela e outros países inadimplentes quitarão as
dívidas com o banco durante seu governo.
"Porque
são todos países amigos do Brasil e certamente pagarão a dívida que têm com o
BNDES", disse Lula.
(BBC)


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