Muitas dessas novas tecnologias pretendem otimizar o sono. Elas prometem ajudar a adaptar o cronograma do sono à nossa vida social, ajudar-nos a dormir por mais tempo ou até pular uma noite de sono por completo.
Analisamos aqui como a tecnologia vem
permeando o nosso sono e o que nos reserva o futuro.
Hora de acordar
As pílulas para dormir receberam
recentemente a companhia de uma série de medicamentos para ficar acordado, que
são alternativas supostamente mais seguras e potentes do que a cafeína.
O modafinil é conhecido por efeitos de aumento da cognição (especialmente
em pessoas com falta de sono) e, supostamente, pode manter as pessoas acordadas
e alertas por vários dias seguidos. Alguns estudos científicos demonstram
que, realmente, pode ser verdade, mas os resultados são contraditórios. Outras
pesquisas demonstram efeitos similares à cafeína.
A droga foi desenvolvida para ajudar
pessoas com narcolepsia, mas começou a ser usada por seus efeitos de aumento da
concentração.
A venda de modafinil é controlada na
maioria dos países (permitida apenas com receita médica). As pessoas que usam a
droga para aumentar a cognição ou para ficar acordado compram o remédio no
mercado clandestino ou com amigos que conseguiram a receita.
O modafinil é popular entre estudantes.
Em 2020, pesquisadores da Universidade de Loughborough, na Inglaterra,
concluíram que, dos 506 estudantes pesquisados em 54 universidades
britânicas, 19% haviam tomado substâncias para aumentar a cognição.
Mas as pessoas que tomam essas drogas
para fins não medicinais estão colocando sua saúde em risco. Os estudos sobre
a segurança dessas drogas não consideram este tipo de uso. Por isso, não
sabemos o que o seu consumo para ficar acordado por longos períodos de tempo
pode causar para a saúde das pessoas.
O que sabemos é que desestabilizar os
padrões de sono (por exemplo, com turnos de trabalho) foi relacionado a
problemas de saúde, como diabetes e doenças cardiovasculares.
Estudos recentes indicam que algumas
pessoas estão combinando remédios para dormir e para ficar acordado para
gerenciar o ritmo do corpo, otimizar o sono e relaxar após um dia de trabalho
árduo. Mas os efeitos de tomar as pílulas para ficar acordado com outras drogas
são praticamente desconhecidos.
No Reino Unido, é contra a lei vender
ou fornecer remédios não aprovados ou vendidos apenas com receita médica. Nos
Estados Unidos, até o porte de estimulantes sem receita já é crime.
No Brasil, as cores das tarjas nos medicamentos indicam
as regras para venda, estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). As maiores restrições são para os de tarja preta, que só
podem ser adquiridos com prescrição médica (e fica retida com o farmacêutico).
Sono inteligente
Muitas pessoas já usam relógios
inteligentes, joias inteligentes e pulseiras inteligentes para monitorar o sono
— como alarmes que acordam as pessoas do seu ciclo de sono no momento ideal e
aplicativos sensores de movimento que analisam os padrões de sono.
Novas formas de monitorar o sono
poderão incluir em breve o uso de pijamas com sensores embutidos, para
monitorar mudanças de postura, batimentos cardíacos e respiratórios. Ou abraçar
um travesseiro-robô, com um algoritmo que cria um padrão de respiração para
você imitar, o que ajudar a adormecer.
Paralelamente, já foram testados no Japão robôs assistentes para
saber se eles podem ajudar os idosos a dormir melhor.
Projetados para uso em casas de
repouso, os robôs fornecem aos funcionários informações sobre a qualidade de
sono dos moradores e avisa se alguém sair para uma caminhada noturna.
Nos seus sonhos
Já o desenvolvimento de tecnologias de
gestão dos sonhos ainda se encontra em estágio muito incipiente.
Os cientistas acreditam que os
dispositivos e tecnologias de estimulação sensorial, como os visores de
realidade virtual, podem ser utilizados para a engenharia do sono. Esta nova
ciência inclui a exposição da pessoa que está dormindo a estímulos sensoriais,
como sons de cliques e vibrações, em momentos específicos do ciclo do sono.
O objetivo seria melhorar a qualidade
do sono, aumentar a memória e até tratar pacientes com transtorno do estresse
pós-traumático (TEPT).
Também estão surgindo progressos sobre
a possibilidade de “ler” os nossos sonhos. Os cientistas deram os primeiros
passos rumo à interpretação dos sonhos, medindo a atividade cerebral durante o
sono e usando a inteligência artificial para decodificar as imagens visuais.
Em 2013, pediu-se aos participantes de
um estudo que relatassem as imagens dos seus sonhos depois de dormirem dentro
de um aparelho de ressonância magnética. Os pesquisadores compararam seus
exames com pessoas que observaram os mesmos tipos de imagem quando estavam
acordadas e os resultados demonstraram padrões de atividade cerebral
coincidentes.
A tecnologia dos
pesadelos
Mas existe um lado distópico nesta
história. A tecnologia já disponível (luz elétrica, smartphones, serviços de
streaming) pode ser desastrosa para o nosso sono.
Um estudo recente nos Estados Unidos
demonstrou, por exemplo, que os estudantes universitários costumam dormir com o
telefone celular na cama com eles. Isso significa que ligação, atualização de
software ou notificação de aplicativo pode incomodá-los.
Assistir à televisão ou jogar vídeo
games na cama, olhando para as telas dos tablets e telefones celulares noite
adentro passou a ser comum para muitas pessoas. Este hábito pode gerar sono de
má qualidade e desajustar totalmente os nossos ciclos de sono.
Cada vez mais pessoas estão procurando
tratamento para novas condições do sono, como a ortossonia – a busca obsessiva
pelo sono perfeito, similar às preocupações prejudiciais com a alimentação.
Algumas pessoas ficam tão preocupadas em melhorar suas avaliações do sono que,
por fim, acabam ficando com insônia.
Ainda temos muito a aprender sobre o
sono e as novas tecnologias estão mudando o ato de dormir com mais rapidez do
que os cientistas podem acompanhar.
Mas uma coisa parece quase certa: o
sono e a tecnologia da sociedade ocidental estão ficando cada vez mais
interligados.
*Catherine Coveney
é professora de sociologia da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
Eric L. Hsu é
professor de sociologia da Universidade do Sul da Austrália.
Este artigo foi
publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob
licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em
inglês.
(BBC)


Nenhum comentário:
Postar um comentário