"É
muito ruim a pessoa querer comprar uma coisa e não poder porque está com um
débito atrasado. Queria comprar umas coisas para a minha casa, que fazem falta
e eu não posso comprar por causa dessas dívidas: um armário, um fogão. Agora,
eu fiz uma dívida com uma televisão e um guarda-roupas, mas foi no cartão do
meu irmão. Se eu tivesse pago minhas contas, eu teria comprado no meu
cartão", revela.
Márcia
espera poder participar do Desenrola Brasil, o Programa Emergencial de
Renegociação de Dívidas de Pessoas Físicas Inadimplentes, lançado nessa
terça-feira (6) pelo governo federal, em Brasília. "Vai ser um adianto pra
mim, porque eu vou liquidar minhas dívidas e vou poder comprar minhas coisas
que estou querendo comprar pra minha casa", conta.
A
Medida Provisória (MP) 1.176/2023, que institui o programa, foi publicada
no Diário Oficial de terça-feira (6) e tem efeitos imediatos. Mas, para se
tornar lei, precisará ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional em até 90 dias.
O
Desenrola Brasil pretende juntar devedores e credores a fim de que a dívida
possa ser renegociada e a situação de inadimplência encerrada. Serão duas
faixas. Na primeira, pessoas que ganham até dois salários mínimos ou quem
esteja inscrito no Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal – e que foram
negativas até 31 de dezembro de 2022 - poderão saldar suas dívidas de até R$ 5
mil.
Prazo
O
pagamento poderá ser à vista ou parcelado em até 60 meses, com desconto e juros
mais baixos. O dinheiro para pagar as dívidas pode ser obtido através de
empréstimo com uma instituição financeira, o qual poderá ser garantido pelo
Fundo de Garantia de Operações (FGO), do governo federal.
A
segunda faixa, segundo o Ministério da Fazenda, é destinada somente a pessoas
com dívidas no banco, que poderá oferecer a seus clientes a possibilidade
de renegociação de forma direta. Essas operações não terão a garantia do Fundo
FGO.
Segundo
o Ministério da Fazenda, o programa funcionará através de um leilão reverso
entre credores, organizado por categoria de crédito, onde quem oferecer
mais desconto será contemplado no programa, apresentará a dívida com desconto
para renegociar com as pessoas físicas e contará com a garantia de que sua
dívida será saldada.
Já
aqueles que oferecerem menos desconto ficarão de fora do programa. Por isso, é
possível que o devedor não encontre todas suas dívidas para renegociar no
Desenrola.
Especialistas
O
diretor de Diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de
Defesa do Consumidor (Proteste), Henrique Lian, considera o programa "de
extrema relevância no atual contexto de superendividamento de expressiva
parcela da população brasileira".
Para
a economista Carla Beni, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a medida é
importante para que as pessoas com renda mais baixa possam "voltar a
respirar e até poder voltar a consumir". "A inadimplência dificulta
muito a vida da pessoa, inclusive afeta até a saúde mental", afirma.
Ela
acredita que o programa poderá reduzir em até 40% a inadimplência no país, que
hoje atinge 66,08 milhões de pessoas, ou 40,6% dos brasileiros adultos, segundo
dados divulgados em maio pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas
(CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). Carla destaca, no entanto,
que será importante pensar em campanhas para garantir a adesão dos devedores ao
programa.
"Vai
precisar de orientação e muita campanha de divulgação, porque você precisará de
um celular e tudo vai ser feito online.
É preciso aguardar os próximos passos para ver como vai ser feita a utilização
do aplicativo, como isso vai ser inserido na plataforma e como vai ser a
facilidade da adesão. Como temos uma experiência com o Pix e o Brasil teve uma
adesão espetacular, acredito que a gente tenha não só uma condição técnica e
tecnológica, como a adesão da própria população [ao
novo programa]. Ela já está acostumada a usar o celular", salienta.
Consumo
Izis
Ferreira, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e
Turismo (CNC), acredita que o programa poderá dar um impulso no consumo das
famílias brasileiras.
"O
crédito funciona hoje como importante condicionante do consumo, não só de
produtos que precisam de prazo para pagamento, de maior valor agregado, mas até
produtos do dia a dia e serviços que são consumidos de forma imediata. Então, o
crédito hoje é um suporte para o consumo de produtos de primeira necessidade e
de maior valor agregado", destaca.
Por
meio de nota, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) informou que o
programa está em linha com as tratativas feitas nos últimos meses entre a
instituição e o governo federal.
"Quando
entrar em operação, os bancos darão sua contribuição para que o Desenrola
reduza o número de consumidores negativados e ajude milhões de cidadãos a
diminuírem suas dívidas", diz nota da Febraban.
Na
avaliação de Ione Amorim, coordenadora de Serviços Financeiros do Instituto
Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a urgência com que o Desenrola
Brasil foi lançado é importante, mas faltou um pouco mais de diálogo com a
sociedade civil. E, por isso, há algumas dúvidas sobre o programa.
Ela
questiona, por exemplo, como consumidor que recorrer ao Desenrola Brasil será
tratado pela instituição financeira no futuro. "Hoje, quando a gente tem
um desconto muito grande [num banco], esse consumidor fica com uma restrição lá
dentro daquela instituição, se ele vai tentar de novo um crédito",
opina.
Além
disso, Ione chama a atenção para as dívidas que já estão prescritas e que nem
deveriam mais ser cobradas, mas que poderão entrar no Desenrola. "Quem
fará essa análise?", questiona.
Descontos
Outro
ponto destacado por ela é sobre o valor dos descontos. "Essa população de
baixa renda é extremamente assediada por empresas que oferecem crédito
extremamente predatórios [com taxas de juros muito altas]. Então, qual o valor
desses contratos que serão objeto desse acordo? O valor integral já incluindo
as taxas de juros abusivas? Quando você fala do desconto, e não tem parâmetro,
qual é o referencial?", pergunta.
Para
além do programa, uma causa de preocupação para Ione refere-se a futuras
dívidas que podem voltar a envolver o consumidor depois que o programa for
encerrado, em dezembro deste ano.
"Esse
consumidor, sem nenhum preparo, que foi assediado [para contrair o crédito],
continua refém dos mesmos tipos de abordagem. É muito provável que parte desse
público, até chegar dezembro, que é o limite desse programa, ele estará de novo
com uma série de dívidas. Uma parcela muito grande desse segmento, que ganha
até dois salários mínimos, é de aposentados e pensionistas, que são muito
expostos à questão do crédito consignado", alerta Ione.
Ione
disse esperar que a regulamentação a ser feita pelo Ministério da Fazenda e a
apreciação da matéria pelo Congresso Nacional abram espaço para mais diálogo
com as entidades de defesa do consumidor.
Henrique
Lian, da Proteste, disse acreditar que o programa poderá ser, futuramente,
complementado "com ações de natureza regulatória e educativa com vistas à
prevenção da insolvência recorrente."
A
preocupação é a mesma de Izis Ferreira. Para ela, caso não haja um programa de
educação financeira para as famílias, há o risco de a inadimplência continuar
sendo um problema cíclico no país, com períodos de melhora e outros de piora.
Segundo
a CNC, em maio deste ano, a quantidade de pessoas com dívidas há mais de 90
dias representou 45,7% dos inadimplentes. Essa é a maior taxa para um mês em
três anos e vem crescendo desde dezembro de 2022 (43,9%).
"O
crédito ganhou relevância no pós-pandemia como condicionante do consumo. As
pessoas estão concentrando muito gasto no cartão de crédito. Diante desse
contexto, a preocupação que a gente tem que ter é: a gente vai resgatar esse
consumidor da inadimplência, mas depois será que ele vai entender que precisa
ter um pouco mais de cautela, programação e planejamento ao usar o crédito? Ao
mesmo tempo que o credor faz a renegociação, ele tem que, forma intensiva,
estimular a conscientização financeira desse consumidor. Senão, a gente vai
continuar vendo esse ciclo de inadimplência", afirma a economista.
Antes
da edição da MP do Desenrola Brasil, a CNC estimava que o percentual de
famílias com dívida há mais de 90 dias só cairia no final do dia, fechando 2023
em 44,5%. Com o lançamento do programa, no entanto, a confederação fará uma
nova previsão.
Inadimplência
Segundo
Izis Ferreira, apesar de o programa ser focado mais no público de renda mais
baixa, a inadimplência tem crescido também na classe média. Por isso, para ela
seria importante estimular a renegociação de dívidas também para essa faixa de
renda.
Para
aqueles que têm dificuldade em manter o orçamento sob controle, a economista
Carla Beni tem duas dicas: a primeira é conversar com todos os membros da
família para que se entenda até quanto pode ser gasto sem comprometer a renda.
A segunda é anotar - numa planilha de computador ou mesmo numa folha de papel -
todas as contas que precisam ser pagas.
"As
pessoas deveriam conversar mais dentro das famílias sobre suas contas a pagar e
suas dívidas", explica Carla. "E também fazer uma lista das contas a
pagar. Um simples papel com caneta ajuda muito a colocar - nos meses futuros -
todas as contas que aquela família tem para pagar que já estão comprometidas.
Isso pode até ser colocado na porta da geladeira. Isso ajuda com que a família
toda caminhe no mesmo sentido, porque a redução das dívidas traz um alívio, um
conforto e uma qualidade de vida para todos da casa".
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, na terça-feira (6), que o Desenrola terá um segmento de educação financeira. Na segunda-feira (5), Haddad havia dito que o programa deverá entrar em vigor em julho.
(Vitor
Abdala e Alex Rodrigues - Vitor Abdala e Alex Rodrigues - JB/Ag.
Brasil)

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