Esses são dois dos principais alertas de um recente posicionamento sobre a saúde do coração feminino lançado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
A entidade
chama a atenção para todas as falhas na cadeia de prevenção, diagnóstico
precoce e tratamento do ataque cardíaco — e de outras doenças agudas que afetam
o sistema cardiovascular — entre o público feminino.
Na
cardiologia, as diferenças entre homens e mulheres "vão além das questões
cromossômicas" e envolvem "os valores sociais, as percepções e os
comportamentos", que "moldam padrões e criam diferentes papeis na
sociedade", aponta o documento.
Essas
questões ganham mais importância quando lembramos que as doenças
cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, independentemente do
sexo.
Mas o que está por trás dessa
quase negligência do coração feminino? Especialistas ouvidos pela BBC News
Brasil apontam que não existe um único fator que explica o fenômeno — e há toda
uma sucessão de falhas por trás desse cenário.
A seguir,
confira o aumento da mortalidade nesse público em comparação às demais faixas
etárias e entenda o que saúde mental e sintomas “desprezados” têm a ver com o
problema.
Mulheres mais
jovens sob risco
O infarto
geralmente acontece quando há o entupimento das artérias coronárias, os vasos
que levam sangue rico em oxigênio e nutrientes para o coração funcionar
direito.
Essa crise
cardíaca aguda — e potencialmente mortal — costuma ser o estopim de uma série
de elementos que se acumulam por anos ou décadas, como doenças crônicas
(obesidade, hipertensão, colesterol alto, diabetes…), comportamentos e mudanças
de estilo de vida (consumo de álcool, tabagismo, sedentarismo, sono de má
qualidade…) ou características individuais (idade, sexo, histórico familiar…).
Tradicionalmente,
o ataque cardíaco sempre foi vinculado à figura do homem com mais de 45 ou 50
anos que carrega um ou mais fatores de risco da lista detalhada no parágrafo
anterior. E, segundo essa linha de raciocínio, o risco para as mulheres só
aumentava no pós-menopausa — quando elas perdem a proteção cardiovascular
conferida por alguns hormônios, como o estrogênio e a progesterona.
Mas a
realidade é bem mais complexa: o posicionamento da SBC revela que o percentual
da taxa de mortalidade por infarto no Brasil vem caindo de forma geral entre
homens e mulheres de 1990 para 2019.
Porém, quando
são analisados os números específicos de mulheres mais jovens, que estariam
supostamente mais protegidas pelos fatores hormonais, mortalidade por doenças
cardíacas até aumentou nas últimas décadas.
A taxa de
mortalidade por doenças cardiovasculares agudas subiu 7,6% entre mulheres de 15
a 49 anos entre 1990 e 2019.
Nos outros
grupos (mulheres mais velhas e homens de todas as idades), essas taxas estão em
queda ou sofreram um crescimento menor em comparação às brasileiras pré-menopausa.
A variação
foi menor entre aquelas de 50 a 69 anos (+5,4%) e caiu entre as que já passaram
dos 70 anos (-18,4%). Entre os homens, a variação da mortalidade também foi
inferior nos três grupos analisados: de 15 a 49 anos (+5,8%), 50 a 69 anos (+1,6%)
e 70 anos ou mais (-18,2%).
"Ainda
não temos evidências suficientes para explicar definitivamente e em detalhes
porque isso está acontecendo e o que está por trás dessa letalidade maior nesse
grupo", admite o cardiologista Antonio Mansur, diretor do Serviço de
Prevenção, Cardiopatia na Mulher e Reabilitação Cardiovascular do Instituto do
Coração (InCor), em São Paulo.
Mas o
documento da SBC apresenta algumas pistas que ajudam a entender esse cenário —
como você confere a seguir.
Fatores de risco menos óbvios
Para começar,
o posicionamento destaca que "as mulheres apresentam com maior frequência
fatores de risco cardiovascular não tradicionais, como estresse mental e
depressão, e sofrem as consequências das desvantagens sociais devido à raça,
etnicidade e renda".
Ou seja: além
daqueles gatilhos clássicos do infarto (pressão alta, diabetes, sedentarismo,
excesso de peso…), o público feminino ainda é mais afetado por problemas
relacionados à saúde mental.
As questões
psicológicas, por sua vez, vão representar um fardo a mais para um coração que
já está sobrecarregado.
O impacto do
estresse e da saúde mental no coração da mulher foi medido em vários estudos
publicados ao longo dos últimos anos.
Um deles,
feito na Universidade Emory, nos Estados Unidos, mostrou que a taxa de
ataques cardíacos relacionados ao estresse era o dobro no público
feminino em comparação com o masculino.
Entre
pacientes que se recuperam de um infarto, a diferença no fardo mental também é
marcante entre os sexos. De acordo com uma pesquisa da Universidade Yale,
também nos EUA, a percepção de estresse é maior entre as mulheres mais
jovens durante os doze meses que sucedem o evento cardiovascular.
Em linhas
gerais, a saúde mental das mulheres é mais afetada que a dos homens por
questões hormonais, de violência de gênero e traumas, segundo uma revisão
publicada no The Lancet Psychiatry.
"Existe
uma tendência na sociedade e na medicina de não se valorizar muito os aspectos
da saúde mental. A mulher é vista como nervosa, como se não soubesse se portar
ou reagir", comenta a cardiologista Ieda Jatene, do Grupo de Estudo de
Doenças Cardiovasculares em Mulheres do Hcor, em São Paulo.
"Muitas
vezes, as queixas emocionais não são encaradas com a mesma seriedade de
incômodos físicos", lamenta a médica.
Que fique claro:
estresse, ansiedade, depressão e outros problemas psicológicos acometem homens
e mulheres. Em ambos os sexos, se essas doenças não forem diagnosticadas e
tratadas adequadamente, elas podem resultar em ataque cardíaco.
"Porém, o
público feminino tende a sofrer mais com a sobrecarga relacionada à dupla ou à
tripla jornada diária", acrescenta Jatene, referindo-se à incumbência de
ter uma profissão, cuidar da casa e dar atenção à família que recai com maior
frequência sobre elas.
Além da saúde
mental, a lista de fatores de risco cardiovasculares não tradicionais que
acometem as mulheres inclui também o parto prematuro, a doença hipertensiva da
gestação, o diabetes gestacional, as doenças autoimunes (como lúpus e artrite
reumatoide, mais frequentes no público feminino) e os tratamentos para doenças
como o câncer de mama.
Sintomas
desprezados
Após anos de
sobrecarga, as artérias do coração entopem e o músculo entra em pane. Falamos
aqui do infarto, um evento que costuma apresentar alguns sintomas importantes e
bem conhecidos — o mais famoso deles é a dor no peito que irradia para o braço
esquerdo.
Mas aqui, mais uma
vez, as mulheres saem no prejuízo. Nelas, nem sempre o ataque cardíaco se
manifesta dessa forma.
Mansur, que também
é professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
calcula que a dor no peito aparece em 90 a 95% dos homens com infarto. Enquanto
isso, esse sintoma acomete de 75 a 80% das mulheres na mesma condição.
"Ou seja: ela
ainda é o sinal comum e mais importante em ambos os sexos", constata ele.
As mulheres
vítimas desse problema, porém, podem sentir mais frequentemente outros
incômodos diferentes — e, em razão disso, nem suspeitarem que estão sob risco.
Muitas vezes, nem
mesmo os profissionais da saúde que atuam em ambulatórios e serviços de
emergência conhecem esses sintomas atípicos do infarto, o que atrasa o
diagnóstico e o tratamento delas.
"Muitas
apresentam queixas como cansaço extremo, um desconforto no peito que não tem
uma característica de aperto, falta de ar e disparos nas batidas do
coração", descreve Jatene.
"Todas essas
manifestações devem sempre ser encaradas como sinais de alerta para uma doença
cardiovascular", complementa ela.
Além das pistas de
infarto citadas pela médica, os manuais de cardiologia incluem também mal-estar
súbito, sensação de desmaio, dificuldades para manter a respiração, fraqueza
intensa, tontura, suor frio, dor no abdômen ou nas costas, palidez, náuseas,
vômitos e dificuldades para dormir.
Diante deles, vale ir até um serviço de emergência com a maior rapidez possível.
Tratamento inadequado
Chegamos, enfim, à
terceira barreira da lista: segundo o posicionamento da SBC, "menos de 50%
das pacientes [com doenças cardíacas] são submetidas ao tratamento
medicamentoso adequado".
Em outras
palavras, mesmo quando superam as outras duas dificuldades, fazem exames de
rotina ou suspeitam de algo mais grave e recebem o diagnóstico correto, mais da
metade das pacientes não tem acesso aos remédios ou aos procedimentos mais
indicados para o caso delas.
Segundo os médicos
ouvidos pela BBC News Brasil e o próprio documento da SBC, existem vários
fatores que explicam esse menor acesso aos tratamentos contra as doenças
cardiovasculares.
O primeiro deles
tem a ver justamente com o fato de os profissionais de saúde suspeitarem menos
desses problemas quando a paciente é do sexo feminino — com isso, elas não
recebem o diagnóstico adequado, que permitiria realizar a melhor terapia no
tempo adequado.
Os especialistas
também observam que, no geral, as mulheres têm menos acesso a exames de rotina
do coração, que permitiriam flagrar aqueles fatores de risco por trás de um
infarto — como diabetes, colesterol alto e hipertensão arterial — e poderiam
ser controlados por meio de medicações. Esses problemas ficam, então,
escondidos por décadas, até que desembocam numa crise aguda das coronárias.
O posicionamento
da SBC ainda chama a atenção para os “determinantes sociais da saúde”, como
abuso sexual e violência, privação socioeconômica e baixa escolaridade. A entidade
aponta que todos eles são “potencializadores de doenças cardiovasculares” nas
mulheres — e é importante levar em consideração todos esses pontos durante a
consulta para ampliar o acesso aos tratamentos mais efetivos para elas.
"Infelizmente,
essa é a realidade. O tratamento do infarto nas mulheres costuma ser inadequado
e tardio", classifica Mansur.
"Elas são
menos submetidas, por exemplo, à angioplastia e à colocação de stent",
diz o médico.
Esses nomes
citados pelo cardiologista fazem alusão aos métodos cirúrgicos minimamente
invasivos que desentopem as artérias coronárias e instalam pequenos
dispositivos (os stents) que garantem a passagem de sangue pela
região afetada.
Mansur acrescenta
que, além dos procedimentos, as mulheres também costumam receber menos
prescrições de remédios para controlar os fatores de risco tradicionais, como
hipertensão e colesterol alto — que, como vimos anteriormente, são gatilhos
para um infarto.
"As mulheres
também são menos representadas em estudos clínicos de cardiologia. O número de
voluntárias nas pesquisas é sempre muito menor", aponta Jatene.
"Até há pouco
tempo, acreditava-se que doença cardiovascular era coisa de homem e a mulher só
apresentaria esses problemas depois que perdesse a proteção hormonal no
pós-menopausa. Mas sabemos hoje em dia que eles podem aparecer de forma muito
mais precoce", reforça ela.
Para completar, a
recuperação pós-infarto também é mais complicada entre o público feminino.
Segundo um estudo publicado em maio no Jornal da Academia Americana
de Cardiologia, mulheres são 1,65 vez mais propensas a precisar de uma nova
internação nos primeiros 12 meses em comparação com os homens.
Elas também sofrem
1,46 vez mais complicações relacionadas ao ataque cardíaco e têm um risco 2,2
vezes maior de morrer nessa janela de um ano após o evento inicial.
Como mudar isso
Para Jatene, a
melhora desse cenário passa necessariamente por uma palavra: educação.
Na visão da
médica, todo mundo deve conhecer melhor as formas de prevenção dos fatores de
risco cardiovasculares e os cuidados básicos diante dos sinais de um infarto.
Do lado dos
profissionais de saúde, ela também aponta para a necessidade de uma melhoria no
acolhimento das pacientes.
"Fundamentalmente,
precisamos valorizar os sintomas precoces, mesmo que eles sejam atípicos, e
encaminhá-las para uma avaliação", diz a cardiologista.
Já do ponto de
vista da população geral, conhecer mais sobre o problema e ter uma rotina de
autocuidado é algo primordial, aponta Jatene.
"É importante
que toda mulher de 35 a 40 anos procure um cardiologista e faça uma avaliação.
Isso pode ajudar na detecção de um problema que ainda está escondido",
sugere.
A médica acredita
que, quando o assunto é coração, o público feminino deve ter a mesma rotina de
cuidados reservada à prevenção do câncer de mama — com exames periódicos quando
há indicação e atenção aos possíveis sintomas de algo mais sério.
"As mulheres
geralmente cuidam do marido, dos filhos, dos pais, dos colegas de trabalho, dos
amigos… Mas elas dificilmente são cuidadas como deveriam", conclui ela.
(BBC)



Nenhum comentário:
Postar um comentário