Graduada e mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela chegou à capital britânica com visto de turista para estudar inglês e, depois, planejava buscar trabalho em sua área.
"Aprender inglês era meu principal objetivo.
Sempre fui apaixonada pela cidade, pela arquitetura e pela cultura. Queria
mudar de vida, já que não via nenhuma perspectiva na minha área no Brasil,
ainda mais no meu Estado", conta Lívia.
Como todos os imigrantes brasileiros entrevistados
nesta reportagem, ela pediu para não ser identificada por seu nome verdadeiro.
O recomeço de Lívia veio acompanhado de
dificuldades para validar seu diploma brasileiro — um processo que, segundo
ela, é "caro e demorado".
Desde que chegou, passou então a trabalhar de forma
irregular, sem visto apropriado e nem contratos formais.
Ela diz que está tentando obter permissão para
morar e trabalhar em algum país da União Europeia, bloco do qual o Reino Unido
não faz mais parte desde 2020, onde ela acredita que pode conseguir a aprovação
com mais facilidade.
A brasileira começou trabalhando como faxineira
(ou cleaner, em inglês, termo usado para designar profissionais da
limpeza no Reino Unido). Segundo entrevistados pela reportagem, é um tipo de
trabalho comum para brasileiros morando no país.
"Nunca tinha feito nada manual antes. Foi
difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero
estabilidade", diz Lívia.
Ela também trabalhou na limpeza da área de uma
piscina de escola, cuidando de banheiros e áreas comuns, secando pisos e
mantendo o local em ordem. Para isso, recebia 12,20 libras (R$ 88) por hora.
"Era muito cansativo, muitas horas de serviço,
mas fisicamente mais tranquilo do que a limpeza de casas", conta a
brasileira.
O oceanógrafo Wagner, de 28 anos, que deixou Porto
Alegre há três anos, vive frustrações parecidas. No Brasil, ele fez várias
atividades acadêmicas em sua área, mas diz que a carreira não é valorizada no
país.
"Vim para Londres para conseguir trabalhar,
mesmo sem documentação, e pela qualidade de vida", diz Wagner.
"Terminei minha graduação durante o
intercâmbio, mas nunca consegui exercer a profissão — mais por falta de
oportunidade do que por vontade própria."
Mas, diferente de Lívia, Wagner já contava que
poderia acabar trabalhando com limpeza. Atualmente, ele trabalha em um hotel
londrino, por meio de uma agência, e recebe cerca de 2 mil libras (R$ 14,4 mil)
por mês.
"Considero o salário baixo para o que é
exigido. É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina
intensa, escala 6x1 e cansaço constante", diz
Wagner.
Antes de conseguir o trabalho atual, ele trabalhava
como cleaner independente, recebendo entre 10 libras (R$ 72) e
13 libras (R$ 94) por hora — o suficiente apenas para pagar aluguel e suprir
suas necessidades básicas.
Seus trabalhos também sempre foram irregulares. O
oceanógrafo diz que nenhum tipo de visto se aplica a seu caso, por não ter
vínculos familiares no Reino Unido, especialização ou um salário suficiente
para atender aos requisitos exigidos.
"Além disso, são poucas as empresas dispostas
a custear um visto de trabalho, ainda mais para mim, que sou recém-formado.
Então, continuo trabalhando assim e juntando dinheiro, enquanto espero que
apareça alguma oportunidade no futuro", afirma Wagner.
"Fico triste de ver tantos brasileiros
qualificados trabalhando com limpeza ou em funções abaixo do nível de formação
que têm. O Brasil perde muita gente boa por não valorizar o que tem."
No caso de Lívia, trocar o capacete de engenheira
por vassouras e produtos de limpeza representa um recomeço indesejado — algo
que ela jamais imaginou enfrentar, embora reconheça a dignidade do trabalho.
"Não é fácil ser chamada de faxineira após
tanto tempo de estudo, mas aprendi na marra que todo trabalho é digno, e é isso
que importa nesse momento", conta a brasileira.
Imigrantes qualificados sujeitos ao 'rebaixamento'
As trajetórias de Lívia e Wagner ilustram o que a
pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, chama de
"paradoxo da sobrequalificação migrante".
Em sua tese de doutorado "Navigating
Precarity: The Lives of London's Migrant Cleaners" (Navegando a
precariedade: as vidas dos faxineiros imigrantes de Londres, em tradução livre
do inglês), Marcel afirma que mesmo aqueles com diplomas universitários
enfrentam os mesmos baixos salários, longas jornadas e insegurança que os
demais.
Marcel explica que as qualificações obtidas em
outros países muitas vezes não são reconhecidas e que o status migratório
limita as possibilidades de emprego. A barreira linguística agrava a situação,
acrescenta a pesquisadora.
Tânia Tonhati, professora e pesquisadora do departamento
de Sociologia da Universidade de Brasília, explica que casos como os dos dois
brasileiros entrevistados pela BBC News Brasil refletem um fenômeno estrutural
da imigração brasileira contemporânea.
"Desde os anos 1990, o Reino Unido sempre
recebeu imigrantes brasileiros com ensino superior e alta qualificação. O que
mudou agora é o contexto", diz Tonhati, que já realizou pesquisas sobre
imigração e a atuação de cidadãos do Brasil no exterior.
"Depois do Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] e
da pandemia, o processo migratório ficou mais restrito e caro. Muitos
brasileiros que antes circulavam com passaporte europeu perderam essa
facilidade, tornando o recomeço mais precário e, em muitos casos, mais
solitário."
A pesquisadora afirma que um perfil de imigrante
comum no Reino Unido é justamente o do jovem com "capital econômico,
social e cultural" que aceita empregos temporários — e, muitas vezes, em
condições precárias de trabalho — com a esperança de mudar depois.
E acrescenta: "Quase todos os imigrantes, não
só brasileiros" passam por essa espécie de "rebaixamento", em
que uma pessoa altamente qualificada ocupa funções abaixo da sua formação.
"Não se trata de falta de mérito individual,
mas de estruturas que desvalorizam o trabalho migrante", conclui Tonhati.
'Vivo com medo, em um estado de vigilância
permanente'
Para quem deixa o Brasil sem diploma universitário
e sem visto, os obstáculos se multiplicam. É o caso da goiana Fabiana, de 24
anos, que chegou a Londres em 2020, durante a pandemia, com a esperança de
juntar dinheiro para voltar e estudar.
Cinco anos depois, ela encontrou estabilidade como
funcionária em uma casa de família, onde trabalha de segunda a sexta, das 8h30
às 19h. Antes disso, passou por diferentes funções — de entregadora de comida a
babá.
"Faço tudo: limpeza, comida, passo roupa,
cuido do cachorro. Sou quase uma governanta — nem sei se essa função ainda
existe", brinca Fabiana.
Ela trabalha por meio de uma agência terceirizada.
Ela conta que o cliente paga 16,50 libras (R$ 119) por hora, Fabiana fica com
11 libras (R$ 79), e as 5,50 restantes (R$ 40) vão para a empresa.
Com essa carga horária, o salário semanal chega a
cerca de 550 libras (R$ 3.963), aproximadamente 2,2 mil (R$ 15,9) por mês.
Apesar desse rendimento, alto para os padrões
brasileiros, o custo de vida em Londres — incluindo aluguel, transporte e
alimentação — consome mais da metade, deixando pouco espaço para poupança ou imprevistos.
Segundo Fabiana, é muito comum encontrar
brasileiros no ramo da faxina — e muitos deles contam como é sua rotina, quanto
ganham e compartilham dicas em redes sociais como o TikTok.
"Foi assim que consegui meu primeiro emprego:
por meio de grupos nas redes sociais de brasileiros", conta a goiana.
"Até hoje, consigo meus trabalhos por
indicação de outros brasileiros ou em grupos de WhatsApp da comunidade. Eu
estou em pelo menos uns dez grupos, cheios de pessoas que trabalham com
isso."
A brasileira, que concluiu o ensino médio, diz que
sua falta de diploma universitário impede a regularização do seu status
migratório.
"Vim durante a pandemia, quando as regras e
leis de imigração ficaram ainda mais complicadas. Além disso, assistência jurídica
é cara, e priorizo ajudar minha família no Brasil com o dinheiro que
ganho", afirma Fabiana.
Mesmo com algum equilíbrio financeiro, ela relata
viver sob constante tensão: "A imigração já bateu na minha porta quando eu
não estava. Já fui parada pela polícia e precisei fugir. Vivo com medo, em uma
ansiedade constante, em um estado de vigilância permanente".
Essa situação afeta diretamente sua vida
profissional. "Não é que alguém diga que vai te deportar, mas você sente
que chamar atenção pode virar problema", diz a brasileira.
"Por isso, muita gente — inclusive eu — evita
reclamar de salário, horário, qualquer coisa. A gente engole muita coisa porque
tem medo de alguém te denunciar."
Wagner também diz que sente o peso da informalidade
e do medo.
"Vivo em alerta o tempo todo, com dinheiro de
emergência na conta e um contato para arrumar minhas malas caso eu seja
deportado", diz o oceanógrafo.
"Parece que estou acabando com minha saúde
física e mental a troco de 'qualidade de vida'. Mas, no Brasil, também seria
impossível conseguir estabilidade."
O Home Office, órgão do governo britânico
responsável pela imigração, segurança e aplicação da lei no Reino Unido, diz em
nota à BBC News Brasil que o tempo de processamento para um visto de trabalho
padrão e não complexo é de "apenas 15 dias úteis".
Uma publicação no site do governo britânico mostra
que esse é o prazo para vários tipos de visto de trabalho, como de curta
duração para trabalhadores criativos e trabalhadores sazonais; e de longa
duração para profissionais de saúde e trabalhadores qualificados (skilled
worker).
O órgão explica ainda que o visto do tipo skilled
worker é o mais adequado para empregadores que estejam contratando
estrangeiros para trabalhar no Reino Unido.
Segundo o Home Office, o candidato a esse visto
deve ter uma oferta de um empregador aprovado pelo Ministério do Interior, além
da previsão de um salário anual de pelo menos 41,7 mil libras (R$ 339,4 mil) ou
o salário-padrão para sua ocupação — o que for maior.
"Os requisitos salariais podem ser reduzidos
por meio de pontos negociáveis para um mínimo de 30.960 libras [R$ 223,1 mil)
por ano", explica o órgão, acrescentando que os candidatos a esse visto
podem solicitar também a entrada de familiares e, após cinco anos, podem pedir
residência permanente no Reino Unido.
O Home Office pede ainda que qualquer pessoa que
"acredite ter testemunhado um crime relacionado à imigração" faça uma
denúncia às autoridades.
"Optar por não denunciar o trabalho ilegal
prejudica os empregadores honestos, reduz os salários locais e alimenta o crime
organizado relacionado à imigração", diz o órgão britânico, acrescentando
que a fiscalização contra o trabalho ilegal aumentará ainda mais em 2026.
O peso do setor de limpeza na economia britânica
Apesar das realidades enfrentadas pelos jovens
brasileiros entrevistados, o setor em que eles trabalham tem grande peso
econômico.
Segundo dados divulgados esse ano pelo British
Cleaning Council (BCC), associação nacional da indústria de limpeza, o
faturamento do mercado de limpeza, higiene e resíduos do Reino Unido atingiu
66,9 bilhões de libras (cerca de R$ 482 bilhões) em 2022 — um crescimento de
10,2% em 12 meses, tornando-se uma das dez maiores indústrias do país.
O setor emprega 1,49 milhão de pessoas, cerca de 5%
da força de trabalho britânica. Os trabalhadores da área são na maioria
mulheres (58%) e em muitos casos, imigrantes, especialmente em Londres.
Na capital, 60% dos trabalhadores da limpeza
nasceram fora do Reino Unido e 40% são britânicos. O BCC não esclarece, no
entanto, se esses dados dizem respeito apenas ao trabalho formal.
Marcel aponta que o crescimento do setor se apoia
na precarização e na terceirização extrema, deixando os diretos dos
trabalhadores à margem.
"Muitos cleaners recebem em
dinheiro, sem contrato formal, e podem ser dispensados sem aviso prévio, o que
os torna vulneráveis ao roubo de salários e à exploração", explica a
pesquisadora.
Fabiana conta ter vivido isso na pele com um
trabalho que encontrou no Facebook.
"Ganhava 9,50 libras [R$ 68] por hora, valor
abaixo do comum, com pagamento a cada 15 dias. Trabalhava muitas horas, às
vezes, sem tempo para comer, e chegava exausta em casa, porque morava
longe", lembra a brasileira.
Deportações e retornos voluntários
O governo britânico tem intensificado a
fiscalização do trabalho irregular.
Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office
realizou 10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano
anterior.
As operações miram situações de trabalho ilegal,
mas os dados divulgados não especificam se envolvem trabalhadores britânicos,
imigrantes regulares ou irregulares.
No mesmo período, foram registradas 7.130 prisões
de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior.
Londres concentrou 1.786 prisões, seguida por País de Gales e Oeste da
Inglaterra (1.196) e Midlands (1.151).
O governo britânico também aplicou 2.105 multas a
empregadores de pessoas em situação irregular, com punições chegando a 60 mil
libras (R$ 432,4 mil) por trabalhador em situação irregular.
Além disso, dados oficiais mostram que 4.810
brasileiros retornaram voluntariamente ao país no período de um ano — um
aumento de 49% em relação a 2024.
O programa de retorno voluntário do Home Office
oferece até 3 mil libras (R$ 21,6 mil) para pessoas em situação migratória
irregular que aceitem deixar o Reino Unido.
Os brasileiros representaram 18% dos 26.761
retornos voluntários realizados entre julho de 2024 e junho de 2025.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores do
Brasil, vivem atualmente no Reino Unido 230 mil brasileiros, sendo 190 mil na
área do Consulado-Geral de Londres — a quarta maior comunidade brasileira no
mundo, atrás dos Estados Unidos (2,08 milhões), Portugal (513 mil) e Paraguai
(263 mil).
Questionado pela BBC News Brasil se estes números
incluem pessoas em situação regular e irregular, o ministério afirmou apenas
que "os serviços consulares do Estado brasileiro (com base nos quais são
feitas as estimativas a que faz menção) são prestados aos cidadãos brasileiros
no exterior nos termos da lei do Brasil, independentemente do status do
nacional perante qualquer Estado estrangeiro".
(Fonte:
BBC)




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