"No começo não entendi se era militar mesmo. Fui procurar na internet como funcionava, qual era o propósito."
Barbosa não estava
satisfeita com o atendimento ao filho adolescente, hoje com 15 anos, em um
colégio particular em que estava matriculado.
Ela já vinha
enfrentando desafios para que ele se saísse bem nos estudos ao menos desde a
pandemia do coronavírus, em 2020, quando todos os alunos tiveram de se adaptar
à rotina de aulas online.
Com o retorno à
vida social pós-pandemia, as coisas ficaram mais difíceis. "Comecei a
perceber que ele não queria ir pra escola. As notas eram ruins. Falei com a
diretora: não é possível; meu filho sempre foi bem."
Barbosa foi
orientada a buscar uma psicóloga e a submeter o filho a alguns exames. Ele
então recebeu o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade (TDAH).
Com o tempo, a mãe
sentiu que o filho não conseguia se adaptar ao colégio particular e também não
recebia o apoio que precisava.
Uma das reclamações
é de que a escola só a teria avisado sobre o desempenho dele, abaixo do
esperado, no fim do ano, depois de ele ter ficado em recuperação em diversas
matérias. "Esperava que me informassem."
Barbosa decidiu,
então, matriculá-lo em um colégio cívico-militar público.
O modelo de ensino,
em que militares da reserva atuam em atividades administrativas e compartilham
a gestão da escola com civis, foi lançado como um programa nacional na gestão
do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2019.
Foi descontinuado
em 2023 pelo governo Lula, mas segue em expansão pelo país por iniciativa
principalmente dos Estados. O Paraná começou a aplicá-lo em 2021 e já converteu
mais de 300 escolas ao modelo.
"A maioria das
pessoas na cidade achava que era pra transformar as crianças em soldados. Eu
logo pensei: vou tentar entender, conversar com o diretor do colégio. E aí
percebi que não era dessa maneira."
O filho precisou
ser convencido a mudar, pois já tinha trocado de escola uma vez e tinha receio
de não se adaptar.
"Expliquei a
ele que queria que ele ficasse bem, que se desenvolvesse. Não era uma questão
de dinheiro, de poder não pagar [o colégio particular], disse a mãe.
Fizeram, então, um
acordo: ele ficaria no colégio por um ano e, se não se adaptasse, poderia sair.
"No primeiro
dia, ele disse que ficou com medo. Que todo mundo parecia muito sério."
Logo chamou a
atenção dos dois a grande quantidade de regras a serem seguidas.
"Cabelo sempre
bem cortado, nada de barba e bigode. Sapatos sempre limpos. Unhas sempre limpas
e cortadas. Os horários têm que ser respeitados. Manter as salas limpas e
organizadas para a próxima turma. Mau comportamento é observado de perto. Bom
comportamento é reconhecido", conta.
Dois anos depois, a
mãe diz que o adolescente se acostumou e que seu desempenho melhorou, tanto na
escola quanto em casa, com tarefas diárias.
"Tive uma
surpresa maior do que eu imaginava. Percebi que ele mudou bastante, mais
responsável com as coisas dele."
Popular entre pais, programa enfrenta crítica de sindicato e trava batalha no STF
Por um lado, o
programa é popular entre as famílias: dados obtidos pela BBC News Brasil por
meio da Lei de Acesso à Informação apontavam que em novembro de 2025 havia uma
fila de espera de 11,2 mil estudantes para se matricular em escolas
cívico-militares no Paraná.
A popularidade fez
com que o programa se tornasse uma das principais bandeiras do governador
Ratinho Jr. e despertasse o interesse de outros Estados, que tentam criar seus
próprios colégios — em São Paulo, por exemplo, governado por Tarcísio de
Freitas (Republicanos), há previsão de adoção ainda em 2026 em 100 escolas.
Só em 2025 o
governador paranaense publicou em sua conta no Instagram ao menos onze vezes
sobre o tema — e há quem peça, nos comentários dessas publicações, que ele se
candidate à Presidência da República.
De outro lado, o
programa enfrenta fortes críticas do sindicato de professores e funcionários do
Estado, a APP, que afirma que o modelo concentra mais recursos para essas
escolas em detrimento das outras, não resolve o problema da segurança e impõe
regras de comportamento que interferem no processo pedagógico.
A legalidade do
programa também é questionada no Supremo Tribunal Federal pelo PT e pelo PSOL,
em uma ação que alega que o modelo impõe militarização precoce dos estudantes,
além de outros argumentos.
No fim de 2025, a
Procuradoria-Geral da República enviou um parecer à corte afirmando que o programa
está em conformidade com a Constituição. O processo ainda não foi julgado.
'Pais querem formar
cidadão de bem', diz diretor
Diretor do colégio
cívico-militar onde estuda o filho de Rafaela Barbosa, que aparece no início
desta reportagem, Rivail Lucas de Oliveira diz que o modelo gerou uma demanda
inédita por vagas.
"Estamos com
332 alunos matriculados, com expectativa de chegar a 380. Não há espaço e
estrutura física para aceitar todos", conta — a prioridade é para alunos
que moram mais perto do colégio.
Ele, que já era
diretor da mesma unidade antes da mudança e até estudou no mesmo local, diz que
a escola já foi muito rejeitada pela comunidade no passado por estar em uma
região socialmente vulnerável, com alunos considerados "mais
problemáticos", em suas palavras.
"O maior
desafio era a escola trazer para os pais uma confiança de que poderiam colocar
os filhos lá, que haveria disciplina."
Com o modelo
cívico-militar, avalia que a situação melhorou. "Há um respaldo maior para
trazer disciplina para dentro da sala de aula. É o motivo dos pais quererem
colocar os filhos aqui."
O processo de
transformar o colégio envolveu reuniões com famílias dos alunos e professores e
uma votação.
"Foi unânime.
Tivemos votação em 2023 e 97% aprovaram o modelo cívico-militar. Em 2024 já
iniciamos o programa."
A alta procura,
avalia o diretor, tem a ver com uma expectativa dos pais de formação mais
rigorosa dos filhos.
"A expectativa
dos pais é que o filho se forme cidadão de bem. Que saiba de seus direitos, mas
principalmente de seus deveres e obrigações, do respeito, de cuidado com o
patrimônio público."
Cabelos 'discretos'
e pontos por comportamento
O modelo
cívico-militar teve início em 2021 no Paraná. Há hoje mais de 300 escolas do
tipo e mais 33 devem migrar para o modelo em 2026.
Esta é uma
categoria diferente dos tradicionais colégios militares, geridos pela Polícia
Militar. Na prática, os colégios continuam sendo geridos por civis e sob
responsabilidade da Secretaria da Educação, mas com apoio de monitores
militares — a quantidade desses funcionários varia de acordo com o número de
alunos de cada unidade.
Nessas escolas são
empregados militares da reserva que, após selecionados em processo seletivo,
recebem remuneração fixa (R$ 5,5 mil) para atividades administrativas nos
colégios. O valor é pago em diárias, não como salário (eles não recebem décimo
terceiro).
Os militares não
usam armas e não ocupam o lugar dos professores, mas realizam atividades
específicas como as chamadas "formaturas", quando alunos cantam
hinos, organização de desfiles, cerimônias, dentre outras. Há também a função
de monitorar o comportamento dos estudantes.
A decisão de migrar
uma escola comum para o modelo cívico-militar parte de uma votação de cada
comunidade escolar, incluindo pais, alunos e funcionários. Se não houver uma
quantidade mínima de votos, a decisão fica para o governo.
O modelo atende
alunos dos anos finais do ensino fundamental e médio e já chega a 20% da rede
de ensino do Estado, segundo o governo. Não há processo seletivo para ingresso.
As regras de
convivência são rígidas e descritas em um manual oficial. Há, por exemplo,
indicação de corte de cabelo ("meia cabeleira para meninos e coque,
trança ou rabo de cavalo para meninas") e recomendação de não usar
piercings ou brincos.
"As coisas têm
que ser discretas. Todo início de ano a gente faz reunião com pais para mostrar
as regras. Eles estão cientes de que o padrão é esse", diz o diretor
Rivail Lucas.
"Às vezes, vem
um ou outro que viu um jogador [de futebol] da moda e cortou o cabelo moicano.
Vamos chamar e orientar. Está no manual. Não é uma ordem inventada pela
gente."
Outra diferença
entre as cívico-militares é o chamado sistema de créditos: os alunos são
observados ao longo de todo o ano e podem receber nota por "fatos
observados positivos" ou negativos.
"O estudante
começa com dez pontos de crédito, que podem aumentar ou diminuir. Se não
respeitar a fila do lanche, por exemplo, ou não se comportar na fila na hora de
cantar o hino, vai perdendo ponto", explica o secretário de Educação do Paraná,
Roni Miranda Vieira.
'Mas ele também
pode ganhar se ajudar um colega com necessidade especial, juntar um lixo, for
colaborativo com o professor. Isso enaltece boas atitudes em relação à
convivência social", diz. Os mais destacados podem receber elogios formais
e distinções, como certificados e medalhas.
'Pais procuram
alguém que possa disciplinar'
O secretário de
Educação do Paraná, Roni Miranda, conta que havia interesse em aproximar
militares das escolas desde o início da gestão de Ratinho Jr. Existia, por
exemplo, um programa em que esses policiais monitoravam o entorno dos colégios,
o Escola Segura.
"Atendia a
entrada e saída [das escolas] e fora dos muros da escola. Pra monitorar crimes,
briga na frente da escola, traficante que vai vender drogas, assediadores dos
estudantes. Mas a parte interna ficava desassistida", lembra o secretário.
O modelo
cívico-militar vem, então, em 2021, para incluir esses militares e uma
expectativa de maior disciplina para dentro dos muros dos colégios.
"O que
acontece hoje? Um pai, uma mãe, saem de madrugada para trabalhar e voltam
praticamente à noite. Os filhos acabam ficando desassistidos."
Na avaliação do
secretário, a escola passa a desempenhar um papel que vai além do conteúdo
pedagógico.
"Eles procuram
alguém que possa fazer a parte disciplinar dos seus filhos. Que consiga trazer
aquela educação que, por muitas vezes, por não estarem presentes no dia a dia
do filho, não conseguem entregar essa boa educação e disciplina ao filho. A
visão é de que o militar é disciplinado e respeita as regras. Tem esse imaginário."
Miranda afirma que
os colégios neste modelo alcançam bons resultados educacionais por oferecerem
boas condições de trabalho aos professores.
"O professor
que está na cívico-militar não se preocupa com disciplina. Vai chegar na sala
de aula e os alunos vão estar sentados e organizados. Saiu uma pesquisa de que
professores perdem, em média, 10% do tempo pra organizar a turma e começar a
dar a aula (A pesquisa fala em 21% do tempo para
manter ordem na sala no Brasil). [Na cívico-militar] eles já encontram a
turma organizada."
Como o fenômeno é
recente, ainda não há pesquisas que apontem de forma conclusiva que o
desempenho dessas escolas é sistematicamente superior ao dos colégios
tradicionais.
O secretário pontua
que o modelo não é uma imposição do Estado, mas uma opção para as famílias.
"Temos vários modelos de segmentos educacionais. Escola em modelo
integral, cívico-militar, parceria com privada, escola técnica, do campo,
escola agrícola. Os pais escolhem onde querem matricular o filho. Não é o
Estado que faz a decisão."
Para o secretário,
o tema das escolas cívico-militares tem potencial de pautar o debate eleitoral
no Brasil em 2026.
"A população
está preocupada com segurança. Hoje é o que mais preocupa o brasileiro.
Automaticamente associam [este modelo] a um ambiente mais
seguro. Tínhamos escolas com incidência de tráfico muito grande no entorno. Com
a presença da cívico-militar, afastou os traficantes. Sabem que tem um militar
da reserva que está ali. Afasta esse tipo de meliante."
Bandeira da direita, programa nacional foi revogado sob Lula
Mais do que um
modelo de ensino, as escolas cívico-militares se tornaram uma bandeira política
da direita no Brasil e uma espécie de contraposição à esquerda.
A criação de um
programa nacional das escolas cívico-militares foi uma promessa de campanha do
ex-presidente Jair Bolsonaro, que iniciou a implementação do modelo durante seu
mandato.
Até 2022,
segundo balanço oficial, o programa havia sido adotado
por 202 escolas, atendendo cerca de 120 mil alunos. A proposta era aplicar o
modelo em escolas já existentes.
Na época, o governo
Bolsonaro divulgou indicadores que apontariam uma redução da violência verbal e
física, além da violência patrimonial. Também indicou queda de quase 80% na
evasão e no abandono escolar em escolas desse tipo.
Em 2023, já sob o
governo Lula, o programa foi descontinuado por decreto. Em declaração pública,
o presidente afirmou que não é obrigação do Ministério da Educação manter esse
tipo de iniciativa.
"Se cada
Estado quiser criar, que crie. Se cada Estado quiser continuar pagando, que
continue. Mas o MEC tem que garantir a educação civil, igual, para todo e
qualquer filho de brasileira ou brasileiro", disse Lula.
Em audiência na
Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, também em 2023, o ministro da
Educação, Camilo Santana, afirmou que discutiria com governadores e prefeitos o
destino das escolas já em funcionamento, mas que o MEC interromperia a criação
de novas unidades.
Em entrevista ao
UOL, Santana negou que o encerramento do programa fosse uma tentativa de se
contrapor ao governo Bolsonaro.
"Não tem base
legal. Foi uma política criada por decreto. O governo passado enviou um projeto
de lei ao Congresso para institucionalizar a política, que foi considerado
inconstitucional. Não há previsão na Lei de Diretrizes e Bases nem no Plano
Nacional de Educação. Foi feita por decreto."
'Alguns alunos saem
com depressão', diz presidente de sindicato
A Associação dos
Professores do Paraná (APP) é uma das instituições que buscam a revogação do
programa de escolas cívico-militares no Paraná.
Para Walkiria
Olegário Mazeto, presidente da associação, há três pontos principais na crítica
ao modelo. Ela argumenta que, por se tratar da rede pública de ensino, e não
privada, é dever do Estado garantir educação igual para todos, sem priorizar um
público específico.
Além disso,
acrescenta, segurança pública não é responsabilidade da escola. A presença de
um policial não necessariamente vai garantir segurança da comunidade, ela
opina.
Finalmente, ela
aponta que o modelo impõe uma intervenção direta no comportamento dos
estudantes em fase em que a diversidade deveria ser respeitada.
Além desses pontos
centrais da crítica, Mazeto disse à BBC News Brasil que recebe denúncias
relacionadas à postura dos militares nessas escolas, como a de entrar em aulas
mesmo sem autorização do professor ou de confrontos com esses professores em
temas históricos, como a ditadura militar.
"É comum
recebermos denúncias de militares que chamam a atenção de professores ou que fazem
contraponto a conteúdos ministrados que divergem da concepção de história
deles. Seja dizendo para estudantes no pátio que o conteúdo não é daquele jeito
ou classificando o professor como sendo de esquerda ou doutrinador."
Outra crítica é que
a padronização de vestimenta e cabelo prejudicaria estudantes negros.
"O cabelo afro
não é aceito, seja dos meninos ou das meninas. Precisa estar preso, cortado,
dentro de um padrão. Nesses casos temos ido ao Ministério Público, para que
escolas não possam proibir estudantes de terem cabelo de determinada cor ou
fora do padrão militar. Mas ainda assim há assédio sobre esses
estudantes."
Mazeto afirma
também que o governo usa essas escolas como vitrine ideológica, expulsando
alunos que não se adaptam, por meio do sistema de pontuação por comportamento.
"Quando as
escolas começam a perceber quais estudantes tendem a reprovar ou não têm bom
desempenho escolar, a família é convidada a retirá-los da escola."
Para ela, esse
sistema gera pressão tanto sobre os alunos quanto sobre as famílias.
"Eles são tão
assediados que temos um grande número de estudantes que acabam saindo dessas
escolas em processo de depressão e abalo psicológico. Aqueles que têm tempo
diferenciado de aprendizagem, ritmo mais lento, que exigem da escola mais
atenção e não vão seguir o padrão acabam sendo os mais assediados. E assim vão
fazendo uma 'limpa', deixando naquela escola só os que têm facilidade de
aprendizagem e bom desempenho."
Mas por que, então,
há uma fila de pais que querem matricular seus filhos nessas escolas?
Para Mazeto, essa é
uma reação esperada por causa da propaganda do governo estadual sobre o modelo.
"Num Estado
com o Paraná, conservador, bolsonarista, que tem propagado que seu filho vai
estar mais seguro [na escola cívico-militar], que aquela escola vai garantir
qualidade educacional a ele...o pai tem menos condições de avaliar essa leitura
de uma rede inteira de qualidade. Ele está preocupado com a condição do seu filho.
Mesmo que isso não se confirme para todo mundo."
Ela diz também que
o modelo prioriza algumas escolas em detrimento das outras.
"Se eu estou
falando de escola pública, preciso garantir, enquanto Estado, um padrão de
qualidade e de atendimento a todas as escolas, sem criar espaços privilegiados.
Não posso, enquanto Estado, criar nichos e dizer: essa é boa, essa é mais ou
menos."
'Programa traz
resultados concretos, mas tem que ser bem pensado'
Como o programa de
escolas cívico-militares é recente, há poucos estudos sobre o tema. Uma exceção
é o Estado de Goiás, que tem um modelo próprio desde os anos 2000.
Uma pesquisa publicada em
2023 concluiu que o programa goiano gerou impactos positivos nos indicadores
educacionais, reduziu a chamada distorção idade-série (quando estudantes não
estão na etapa esperada de ensino para a sua idade) e melhorou o desempenho em
provas de português e matemática.
Um dos autores, o
professor de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Jevuks Matheus
de Araújo, associa esses resultados à melhoria do ambiente escolar.
"Há uma
tranquilidade no ambiente escolar que provavelmente está gerando resultados no
desempenho acadêmico."
Ele reconhece que
pode haver um viés de seleção no programa — estudantes com desempenho pior já
evitariam, de antemão, as escolas cívico-militares.
"É difícil
isolar esse efeito. Deixamos isso claro no artigo. Pode existir um viés de
seleção: aquelas escolas podem estar atraindo os melhores alunos."
Ainda assim, há um
esforço do estudo de isolar esse fator por meio de outras comparações, como a
observação de que as taxas de aprovação e reprovação são semelhantes entre
escolas cívico-militares e escolas regulares.
"Tentamos
isolar o máximo possível, [para demonstrar] que o efeito [de melhoria no
desempenho dos alunos] vem da gestão, do modelo adotado nas escolas. Pode haver
algum viés, sim, mas não anula o resultado que encontramos."
O pesquisador diz
que esse resultado é específico para a realidade de Goiás e que aplicar a mesma
fórmula em outros lugares não necessariamente levaria a um desempenho
semelhante.
Ele avalia que
falta, no debate que acontece no país sobre esse modelo de escola, um acúmulo
maior de evidências sobre o que pode ou não funcionar em cada estado.
"Quando o
Estado do Paraná ou outro vai pensar no programa, deve levantar as evidências
daquele estado para identificar o perfil da escola e do estudante que vai ter
melhor desempenho. É necessária a construção de evidências nessas localidades
antes da implementação. Não é simplesmente uma consulta."
Para ele, o
programa não pode ser considerado como solução milagrosa. "É mais um
programa dentro de um escopo de programas possíveis em educação. Traz
resultados concretos, mas tem que ser bem pensado."
Olavo Nogueira
Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação, disse à BBC News Brasil que é
preciso cuidado para interpretar esse tipo de resultado da pesquisa.
"Não é
possível isolar com precisão se os resultados decorrem especificamente dos
ritos e da disciplina militares — isto é, da 'militarização' em si — ou de um
conjunto de outros fatores que costumam acompanhar a mudança de modelo. É
comum, por exemplo, que essas escolas passem a receber maior atenção do Estado,
reforço das equipes gestoras, melhorias de processos administrativos, garantia
de professores em todas as turmas, envio de materiais e até mais oportunidades
de formação docente."
Ele diz também que
há consenso de que a escola é um espaço para construção de identidade,
valorização das diferenças e relações baseadas em confiança, pertencimento e
autonomia, não no medo ou na coerção.
"O modelo cívico-militar tende a tensionar esses princípios. Ao privilegiar hierarquia rígida, controle comportamental e padronização, o modelo entra em conflito direto com objetivos educacionais mais amplos, especialmente no que se refere à formação integral dos estudantes."
(Fonte: BBC)





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