Os
participantes do ato vestiram, em grande número, roupas pretas e também
camisetas com uma imagem do cão e frases como "Não foi só um latido,
foi um chamado por justiça!". Adesivos com mensagens semelhantes foram
distribuídos entre o público, composto por pessoas de todas as idades, algumas
levando seus animais.
Iniciado
às 10h, em frente do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), o protesto
ainda permanecia ativo às 13h, sustentado por palavras de ordem como "Não
são crianças, são assassinos!" e "Não vai cair no
esquecimento!". Placas pedindo a redução da maioridade penal eram
vistas ocasionalmente.
A
psicóloga Luana Ramos se declara a favor da redução da maioridade penal de 18
para 16 anos. A pauta voltou
a ser foco no Congresso Nacional - mais especificamente, na Câmara dos
Deputados. A medida vale para crimes violentos, como os hediondos, o homicídio
doloso (quando há intenção de matar) e lesão corporal seguida de morte.
"Se fossem
quatro meninos pretos, teriam sido linchados. Já teriam feito justiça com as
próprias mãos, enquanto os quatro meninos brancos, ricos, estão indo à Disney.
Isso não pode mais acontecer", diz Luana
"Erro
não é isso. Erro dá para consertar. Isso não dá para consertar, não tem como
voltar atrás. Foi assassinato, crueldade", acrescenta, reagindo à
tentativa dos pais dos autores do crime de atenuar a seriedade do ato que
cometeram. Post que circula na internet mostra a mãe de um deles afirmando
que tudo não passou de um erro.
Além
disso, pais de dois deles e um tio tentaram coagir testemunhas para impedi-las
de depor. Os garotos são investigados por ato infracional análogo ao crime
de maus-tratos.
A
advogada Carmen Aires levou à Paulista seus dois cachorros adotados, junto com
a filha, para expressar indignação diante da morte de Orelha, que teria
sido a segunda vítima dos jovens catarinenses. A outra é um cachorro que
quase morreu por afogamento.
Para
Carmen, adolescentes de 15 anos já deveriam responder criminalmente. Ela avalia
como amenas demais as penalidades cumpridas por quem pratica violências contra
animais. "São muito brandas, praticamente não existem. Não
resolveram nada, tanto é que continuam acontecendo. A lei é recente, mas
deve ser revista, porque atrocidades estão sendo feitas e a gente não aceita
mais isso, ver o noticiário, as redes sociais", afirma.
A
instituição Ampara
Animal disponibiliza em seu site diversos materiais capazes de
auxiliar no processo de reeducação da sociedade. Um dos alertas é a de haver
relação entre a violência que vitima animais e a praticada contra mulheres.
O casal
Thayná Coelho e Almir Lemos, de Belém, passeava pelos cartões-postais da
capital paulista, sem saber da manifestação, à qual aderiu, também
movido pelo sentimento de revolta e impunidade. Perguntados sobre uma
possível ligação entre a cor dos jovens e o modo como se comportaram, sem
remorso, responderam, ao mesmo tempo: "Com certeza."
"A cor, a
classe social. Acharam que tinham o direito e simplesmente foram e fizeram.
Acharam que estavam no direito deles. As filmagens são muito claras. Eles não
fizeram como se fosse um crime, como se fosse alguma coisa errada. Não, eles
fazem como se estivesse dentro do direito deles", disse o
publicitário, criticando os familiares empenhados em abafar o caso. "Foi
muito sádico o ato, chocante. Hoje foi um cachorro. E amanhã? Eles acham que as
vidas pertencem a eles, que têm direito de tirar as vidas?"
"Tem
muito a ver também com o que é prometido a eles. O branco, principalmente o
homem branco, classe média, classe média alta. É prometido a eles um
privilégio. Eles sabem que têm esse privilégio. Acham que o mundo é deles, que
podem matar. Não só um cachorro, mas mulheres", completa a psicóloga.
"Imagine as namoradas deles."
"A
gente está vendo, por esse caso do Orelha, que é apenas a ponta do iceberg, mas
que há maus-tratos todos os dias, a cada minuto e nada é feito. As
organizações não governamentais (ONGs) é que, com muito sacrifício, com
protetores independentes, conseguem minimizar o sofrimento desses
animais."
(Ag.
Brasil)

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