sexta-feira, 20 de março de 2026

Um milhão de tetos solares: programa visa autonomia energética de agricultores do semiárido

O programa ‘Um milhão de tetos solares’, lançado durante a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia na Paraíba, promove autonomia energética para famílias agricultoras da região do semiárido do Brasil. Isso porque o acesso à energia solar, abundante e econômica, ocorre a partir da formação de pessoas do próprio território para a fabricação e implementação das placas, garantindo também a manutenção adequada.

Para Giovanne Xenofonte, coordenador do programa, a iniciativa é plenamente viável e deve garantir qualidade de vida para mais de um milhão de famílias no território. A afirmação foi feita em entrevista ao programa Conversa Bem Viver.

Xenofonte diz que são três os objetivos do projeto: baratear a energia para as famílias, colaborar para a produção de alimentos e manejo de animais, além de se tornar uma fonte de renda, já que as famílias poderiam vender o excedente de energia elétrica para outras comunidades.

Durante a conversa, ele explica que essa forma de se pensar o acesso à energia de forma descentralizada, além de ter um impacto na vida das famílias, pode ser um ponto positivo na preservação do bioma Caatinga, se comparado com os grandes empreendimentos de Usinas Solares. “Fazendo isso de família em família, não precisa desmatar nada, aproveita os espaços, como o telhado de uma casa, uma cisterna, vários espaços que já tem ali, propícios para produção dessa energia. Isso eu acho que conta muito a nosso favor. Desse processo, de um a um, quando se soma, é bem maior do que uma usina que devastou hectares de Caatinga para ser implementada”.

Giovanne ainda pontua que o diferencial do programa é olhar para o que a região tem de excesso e não de falta. ”Projetos da sociedade civil como um todo, eles partem normalmente do que é limitante, do que a gente tem pouco, do que a gente não consegue. Esse, acho, que é um dos primeiros que a gente parte do que a gente tem em abundância, que é o sol.”

Confira a entrevista: 

Brasil de Fato: Em 2020 a Articulação do Semiárido Brasileiro, a ASA, apresentou o programa Um milhão de cisternas, uma iniciativa pela democratização da água. A proposta era considerada utópica naquele período, mas o tempo passou e olhando para a história, se diz que ele é uma conquista. É possível fazer um paralelo da luta permanente pela democratização da água com a luta atual da democratização pela energia? 

Giovanne Xenofonte: Creio que sim. Uma das coisas que têm um comum dessa época que nós começamos o programa Milhão de Cisternas, é que naquela época a gente falava também muito da concentração do dos recursos hídricos, da mesma forma também hoje é concentrada a produção de de energia. 

A própria Marcha das Mulheres [17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia], ocasião em que estivemos lançando o programa Milhão de Tetos Solares, já vem denunciando isso há bastante tempo. Os grandes empreendimentos de energias ditas renováveis concentram toda a riqueza dos nossos territórios e, de certa forma, invadem, degradam, depredam toda a riqueza. E o programa 1 milhão de tetos solares nasce em resposta a essa questão, como uma alternativa, uma saída para produção de energia descentralizada. 

A gente costuma dizer que essa energia vai ter três objetivos centrais junto à família agricultora: o primeiro objetivo é promover um conforto doméstico para as famílias, para que possam ter mais eletrodomésticos, um ventilador, uma geladeira. Algo que que parece muito normal e comum para algumas pessoas que vivem em outras regiões do país, mas aqui na na zona rural do semiárido ainda é bastante limitado, até por conta do custo da energia.

O segundo objetivo é que essas famílias tenham energia para incrementar a sua produção de alimentos. Energia para bombear água, por exemplo, que possa ser utilizada nos sistemas de irrigação, de produção, para dessedentação animal, enfim. E um terceiro objetivo é que essas famílias possam comercializar o excedente dessa energia. Que ela participe do mercado de energia no Brasil. Isso também pode provocar impactos, inclusive no abastecimento nacional de energia, que hoje é um dos grandes limitantes, muito concentrado, por exemplo, com o combustível fóssil.

Então, a gente tem capacidade, aqui no semiárido, junto com as famílias agricultoras e de forma descentralizada, de superar essas questões, esse limite. Ampliar a produção de alimento no semiárido e ampliar a produção de energia. 

Quero falar das escolas-fábricas solares, que fazem parte deste programa. É sobre ter uma autonomia para o desenvolvimento e acompanhar todas as etapas. Qual a importância disso, pensando no programa ‘Um milhão de tetos solares’? 

Esse é o grande diferencial do programa. Desenvolver as capacidades nos territórios para fazer o bom uso, e o desenvolvimento de toda a tecnologia.

Fazendo esse paralelo com as cisternas, elas também têm essa característica. É uma tecnologia que as famílias agricultoras dominam, de fácil conserto e manutenção. Quem constrói são pedreiros das próprias comunidades. A gente se inspira muito nessa ideia. Que a gente possa ter nos territórios pessoas com capacidade – olhando, nesse momento, muito para as juventude – com as capacidades desenvolvidas e aprimoradas para produzir as placas, montar todo o sistema de geração de energia e fazer também a manutenção junto com as famílias agricultoras.

O projeto prevê uma formação com pessoas dos territórios, principalmente as juventudes, para dominar todo esse processo. Nessas escolas que a gente chama de escolas-fábricas. E ainda tem uma formação que a gente chama de gestão do empreendimento social, a gestão da escola-fábrica. Esses jovens também vão ser formados e vão desenvolver as capacidades para tocar a escola para além do projeto.

Fica o empreendimento no território e a pretensão é que elas continuem produzindo essas placas, que devem ser instaladas também para outras famílias agricultoras para além do que está previsto agora no programa. Que é o início de um piloto. Estamos iniciando agora com três estados do Nordeste, com um convênio com a Fundação Banco do Brasil e mais um estado com um convênio em parceria com a Cáritas Francesa. 

Vamos pensar em uma casa de uma família que conquiste esse direito à energia solar dentro do programa. Como imaginar essa tecnologia na prática dentro das casas, considerando o diálogo com outras tecnologias adaptadas ao clima. Podemos pensar nos chamados quintais produtivos, que traz essa materialidade da agroecologia para perto das casas, pode-se pensar em fogões ecológicos, entre outras tecnologias adaptadas à região?

A gente fica vislumbrando várias possibilidades. Lógico que o projeto é piloto, está iniciando agora, vai se concretizar, vai se materializar ainda no território. A gente bebe de uma experiência muito legal, que é a experiência de Monte Santo, na Bahia, com a turma da Escola Família Agrícola, que tem um espaço dentro da própria escola onde alunos da escola produzem as placas e instalam junto às famílias agricultoras. E a fábrica se utiliza da energia solar produzida pelos sistemas que os jovens montaram.

A gente imagina o projeto se materializando junto às famílias agricultoras, com essas unidades espalhadas pelos territórios, um espaço de aprendizado, de construção, de conhecimento, de interação, onde a juventude possa ser protagonista disso, com participação com uma  equidade, de gênero, como a gente preconiza em todos os programas da ASA.

Ainda é preciso fazer algumas adequações, porque hoje a placa ainda é quadrada, fixa e por isso mesmo que parcerias estão sendo desenhadas com centros de pesquisa, de ensino, para ver se a gente consegue desenvolver uma manta ou uma película que gere energia e que se adeque aos telhados das residências.

Quando a gente começou o programa ‘Um milhão de cisternas’, tinha famílias agricultoras com o telhado da casa menor do que era possível para captar água para encher a cisterna. Então teve muitas famílias, que a comunidade fez mutirão para ampliar o telhado da casa, de tão pequena que era a casa. Às vezes era até contrastante, porque a casa era pequena e a cisterna ficava grande, mesmo sendo uma cisterna de 16 mil litros. Graças a Deus essa realidade vem mudando. 

Hoje as residências já têm telhado de telha, de cerâmica, antigamente tinha muita casa com telha de palha, que não permitia captação de água de chuva.

Eu fico imaginando também famílias, por exemplo, com mananciais, um barreira, um tanque de pedra, com uma placa de energia lá, uma placa produzida pelos jovens da comunidade, instalada numa bomba, com água para irrigar ou para levar água para algum animal com essa tecnologia que capta a água de chuva.

Para irrigar meio hectare, por exemplo, o consumo médio de energia chega a aumentar em 200 a 250 reais, pelo que algumas famílias falaram. Então, com uma placa dessas instalada num sistema de bombeamento, já economizamos 250 reais. É um ganho para a família. Sem falar do impacto social e ambiental que essa energia pode proporcionar.

Pensando na comercialização de energia, que você trouxe como terceiro ponto de objetivo do programa, a gente lembra que historicamente o semiárido é visto como uma região problema porque tem muito sol. Esse excesso de sol pode ser visto também como uma solução?

Projetos da sociedade civil como um todo, eles partem normalmente do que é limitante, do que a gente tem pouco, do que a gente não consegue. Esse, acho, é um dos primeiros que a gente parte do que tem em abundância, que é o sol. 

No semiárido a gente diz: é um sol para cada um. Agora, a gente vai ter uma geração de energia para cada um, cada uma. Eu percebo como algo revolucionário, sobre diversos aspectos, ainda mais imaginando que isso não está dentro de uma grande empresa que visa lucro, mas sim algo feito pelas próprias famílias do território, porque sempre esteve ali naquele lugar, porque sempre foi explorado. Quem esteve sempre à margem do processo, tem uma chance agora de reverter o rumo dessa história, de se colocar protagonista, como figura central, isso pode ser revolucionário.

Isso cabe no semiárido, porque a gente tem energia de sobra, tem o sol brilhando o ano todo, mas isso cabe também para outras regiões do país. Certamente vai ser referência para que a gente amplie.

Inclusive cabe muito bem dentro do debate das mudanças climáticas, do enfrentamento à desertificação, todas essas questões que hoje nos afligem enquanto sociedade.

Fico muito feliz quando percebo que é algo que parte da iniciativa da própria sociedade, que é a gente, fazendo a revolução, transformando, propondo algo que, de fato, possa promover a qualidade de vida das nossas famílias agricultoras do semiárido, e que possa chegar a outras regiões do país.

A gente está agora em Remígio, na Paraíba, durante a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, que tem denunciado o modelo das usinas eólicas e sobre a concentração, qual o desenho dela hoje na região. E neste modelo centralizado por empresas, além de do conflito com as comunidades, também trazendo problemas, desafios para o Bioma Caatinga, então, comparando com o programa, queria que você fizesse uma comparação entre esses dois lados.

A marcha sempre denunciou esse modelo, e tem até um slogan que eu acho muito legal, que é ‘Energia renovável sim, mas não assim’, e a marcha, tem a oportunidade, nessa décima sétima edição, de além de fazer a denúncia, anunciar uma nova proposta de produção de energia não concentrada. “Se não é concentrada, como é que vocês imaginam?” Dessa forma que a gente está arquitetando e desenhando o programa.

O impacto na natureza é bem menor. Se em alguns campos, alguns parques de produção de energia solar, que já são hectares e hectares de Caatinga que são devastados. Eles usam também herbicidas para que a vegetação não possa mais reaparecer naquele local. 

Além da retirada da Caatinga, que é um bioma que está extremamente degradado, ameaçado, são colocados vários tipos de herbicidas. Fazendo isso [placas solares] de família em família, não precisa desmatar nada, aproveita-se os espaços, como o telhado de uma casa, uma cisterna, vários espaços que já tem ali propício para produção dessa energia.

Isso eu acho que conta muito a nosso favor. Desse processo, de um a um, quando se soma, é bem maior do que uma usina que devastou hectares de Caatinga para ser implementada.

Fazendo a análise do ponto de vista social, ambiental, mas também do ponto de vista econômico. A gente tem plenas condições e tem viabilidade sim para funcionar. Não precisa ser dessa forma que é hoje, concentrado, onde a riqueza também é concentrada em poucos.

Quando a gente fala de pobreza energética, a gente cita a falta de energia, a energia muito cara e também energia insuficiente ou precária para algumas situações do dia-a-dia. Como é que a gente pode associar o programa Um milhão de tetos solares, no combate a essa pobreza?

Há algum tempo atrás, o problema era acesso a água. Você não tinha água. Hoje, graças a Deus, a gente conseguiu ampliar esse acesso das famílias à água. Hoje as famílias têm água, têm um manancial, têm a cisterna, têm um barbeiro, têm um poço, e não podem usar essa água porque a energia é cara.

A gente escuta muito a família agricultora dizer: “Olhe, estava tão bonita aqui minha horta, meu quintal, mas eu tive que diminuir, porque a conta da energia aumentou consideravelmente. Então, eu não tenho dinheiro para pagar a energia.” As placas solares poderem resolver essa questão, é muito para esperançoso, muito motivador.

Eu sou um dos camaradas que acredita que o semiárido tem condições de ser o maior produtor de alimento do planeta. Mas é preciso que a gente avance em políticas públicas, precisa que a gente avance nessa perspectiva de construir caminhos para que a população participe e esteja envolvida. Se a família não tiver participando, não tem desenvolvimento, não acontece. Onde se cria um ambiente que a tecnologia possa ser manejada amplamente em plano do território, sem depender muito de algo que vem de fora.

(Brasil de Fato)

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