Xenofonte
diz que são três os objetivos do projeto: baratear a energia para as famílias,
colaborar para a produção de alimentos e manejo de animais, além de se tornar
uma fonte de renda, já que as famílias poderiam vender o excedente de energia
elétrica para outras comunidades.
Durante
a conversa, ele explica que essa forma de se pensar o acesso à energia de forma
descentralizada, além de ter um impacto na vida das famílias, pode ser um ponto
positivo na preservação do bioma Caatinga, se comparado com os grandes
empreendimentos de Usinas Solares. “Fazendo isso de família em família, não
precisa desmatar nada, aproveita os espaços, como o telhado de uma casa, uma
cisterna, vários espaços que já tem ali, propícios para produção dessa energia.
Isso eu acho que conta muito a nosso favor. Desse processo, de um a um, quando
se soma, é bem maior do que uma usina que devastou hectares de Caatinga para
ser implementada”.
Giovanne
ainda pontua que o diferencial do programa é olhar para o que a região tem de
excesso e não de falta. ”Projetos da sociedade civil como um todo, eles partem
normalmente do que é limitante, do que a gente tem pouco, do que a gente não
consegue. Esse, acho, que é um dos primeiros que a gente parte do que a gente
tem em abundância, que é o sol.”
Confira
a entrevista:
Brasil de Fato: Em 2020 a Articulação do
Semiárido Brasileiro, a ASA, apresentou o programa Um milhão de cisternas,
uma iniciativa pela democratização da água. A proposta era considerada utópica
naquele período, mas o tempo passou e olhando para a história, se diz que ele é
uma conquista. É possível fazer um paralelo da luta permanente pela
democratização da água com a luta atual da democratização pela energia?
Giovanne
Xenofonte: Creio que sim. Uma das coisas que têm um comum dessa época que nós
começamos o programa Milhão de Cisternas, é que naquela época a gente falava
também muito da concentração do dos recursos hídricos, da mesma forma também
hoje é concentrada a produção de de energia.
A
própria Marcha das Mulheres [17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela
Agroecologia], ocasião em que estivemos lançando o programa Milhão de Tetos
Solares, já vem denunciando isso há bastante tempo. Os grandes empreendimentos
de energias ditas renováveis concentram toda a riqueza dos nossos territórios
e, de certa forma, invadem, degradam, depredam toda a riqueza. E
o programa 1 milhão de tetos solares nasce em resposta a essa questão,
como uma alternativa, uma saída para produção de energia descentralizada.
A
gente costuma dizer que essa energia vai ter três objetivos centrais junto à
família agricultora: o primeiro objetivo é promover um conforto doméstico para
as famílias, para que possam ter mais eletrodomésticos, um ventilador, uma
geladeira. Algo que que parece muito normal e comum para algumas pessoas que
vivem em outras regiões do país, mas aqui na na zona rural do semiárido ainda é
bastante limitado, até por conta do custo da energia.
O
segundo objetivo é que essas famílias tenham energia para incrementar a sua
produção de alimentos. Energia para bombear água, por exemplo, que possa ser
utilizada nos sistemas de irrigação, de produção, para dessedentação animal,
enfim. E um terceiro objetivo é que essas famílias possam comercializar o
excedente dessa energia. Que ela participe do mercado de energia no Brasil.
Isso também pode provocar impactos, inclusive no abastecimento nacional de
energia, que hoje é um dos grandes limitantes, muito concentrado, por exemplo,
com o combustível fóssil.
Então,
a gente tem capacidade, aqui no semiárido, junto com as famílias agricultoras e
de forma descentralizada, de superar essas questões, esse limite. Ampliar a
produção de alimento no semiárido e ampliar a produção de energia.
Quero falar das escolas-fábricas
solares, que fazem parte deste programa. É sobre ter uma autonomia para o
desenvolvimento e acompanhar todas as etapas. Qual a importância disso,
pensando no programa ‘Um milhão de tetos solares’?
Esse
é o grande diferencial do programa. Desenvolver as capacidades nos territórios
para fazer o bom uso, e o desenvolvimento de toda a tecnologia.
Fazendo
esse paralelo com as cisternas, elas também têm essa característica. É uma
tecnologia que as famílias agricultoras dominam, de fácil conserto e
manutenção. Quem constrói são pedreiros das próprias comunidades. A gente se
inspira muito nessa ideia. Que a gente possa ter nos territórios pessoas com
capacidade – olhando, nesse momento, muito para as juventude – com as
capacidades desenvolvidas e aprimoradas para produzir as placas, montar todo o
sistema de geração de energia e fazer também a manutenção junto com as famílias
agricultoras.
O
projeto prevê uma formação com pessoas dos territórios, principalmente as
juventudes, para dominar todo esse processo. Nessas escolas que a gente chama
de escolas-fábricas. E ainda tem uma formação que a gente chama de gestão do
empreendimento social, a gestão da escola-fábrica. Esses jovens também vão ser
formados e vão desenvolver as capacidades para tocar a escola para além do
projeto.
Fica
o empreendimento no território e a pretensão é que elas continuem produzindo
essas placas, que devem ser instaladas também para outras famílias agricultoras
para além do que está previsto agora no programa. Que é o início de um piloto.
Estamos iniciando agora com três estados do Nordeste, com um convênio com a
Fundação Banco do Brasil e mais um estado com um convênio em parceria com a
Cáritas Francesa.
Vamos pensar em uma casa de uma família
que conquiste esse direito à energia solar dentro do programa. Como imaginar
essa tecnologia na prática dentro das casas, considerando o diálogo com outras
tecnologias adaptadas ao clima. Podemos pensar nos chamados quintais
produtivos, que traz essa materialidade da agroecologia para perto das casas,
pode-se pensar em fogões ecológicos, entre outras tecnologias adaptadas à
região?
A
gente fica vislumbrando várias possibilidades. Lógico que o projeto é piloto,
está iniciando agora, vai se concretizar, vai se materializar ainda no
território. A gente bebe de uma experiência muito legal, que é a experiência de
Monte Santo, na Bahia, com a turma da Escola Família Agrícola, que tem um
espaço dentro da própria escola onde alunos da escola produzem as placas e
instalam junto às famílias agricultoras. E a fábrica se utiliza da energia
solar produzida pelos sistemas que os jovens montaram.
A
gente imagina o projeto se materializando junto às famílias agricultoras, com
essas unidades espalhadas pelos territórios, um espaço de aprendizado, de
construção, de conhecimento, de interação, onde a juventude possa ser
protagonista disso, com participação com uma equidade, de gênero, como a
gente preconiza em todos os programas da ASA.
Ainda
é preciso fazer algumas adequações, porque hoje a placa ainda é quadrada, fixa
e por isso mesmo que parcerias estão sendo desenhadas com centros de pesquisa,
de ensino, para ver se a gente consegue desenvolver uma manta ou uma película
que gere energia e que se adeque aos telhados das residências.
Quando
a gente começou o programa ‘Um milhão de cisternas’, tinha famílias
agricultoras com o telhado da casa menor do que era possível para captar água
para encher a cisterna. Então teve muitas famílias, que a comunidade fez
mutirão para ampliar o telhado da casa, de tão pequena que era a casa. Às vezes
era até contrastante, porque a casa era pequena e a cisterna ficava grande,
mesmo sendo uma cisterna de 16 mil litros. Graças a Deus essa realidade vem
mudando.
Hoje
as residências já têm telhado de telha, de cerâmica, antigamente tinha muita
casa com telha de palha, que não permitia captação de água de chuva.
Eu
fico imaginando também famílias, por exemplo, com mananciais, um barreira, um
tanque de pedra, com uma placa de energia lá, uma placa produzida pelos jovens
da comunidade, instalada numa bomba, com água para irrigar ou para levar água
para algum animal com essa tecnologia que capta a água de chuva.
Para
irrigar meio hectare, por exemplo, o consumo médio de energia chega a aumentar
em 200 a 250 reais, pelo que algumas famílias falaram. Então, com uma placa
dessas instalada num sistema de bombeamento, já economizamos 250 reais. É um
ganho para a família. Sem falar do impacto social e ambiental que essa energia
pode proporcionar.
Pensando na comercialização de energia,
que você trouxe como terceiro ponto de objetivo do programa, a gente lembra que
historicamente o semiárido é visto como uma região problema porque tem muito
sol. Esse excesso de sol pode ser visto também como uma solução?
Projetos
da sociedade civil como um todo, eles partem normalmente do que é limitante, do
que a gente tem pouco, do que a gente não consegue. Esse, acho, é um dos
primeiros que a gente parte do que tem em abundância, que é o sol.
No
semiárido a gente diz: é um sol para cada um. Agora, a gente vai ter uma
geração de energia para cada um, cada uma. Eu percebo como algo revolucionário,
sobre diversos aspectos, ainda mais imaginando que isso não está dentro de uma
grande empresa que visa lucro, mas sim algo feito pelas próprias famílias do
território, porque sempre esteve ali naquele lugar, porque sempre foi
explorado. Quem esteve sempre à margem do processo, tem uma chance agora de
reverter o rumo dessa história, de se colocar protagonista, como figura
central, isso pode ser revolucionário.
Isso
cabe no semiárido, porque a gente tem energia de sobra, tem o sol brilhando o
ano todo, mas isso cabe também para outras regiões do país. Certamente vai ser
referência para que a gente amplie.
Inclusive
cabe muito bem dentro do debate das mudanças climáticas, do enfrentamento à
desertificação, todas essas questões que hoje nos afligem enquanto sociedade.
Fico
muito feliz quando percebo que é algo que parte da iniciativa da própria
sociedade, que é a gente, fazendo a revolução, transformando, propondo algo
que, de fato, possa promover a qualidade de vida das nossas famílias
agricultoras do semiárido, e que possa chegar a outras regiões do país.
A gente está agora em Remígio, na
Paraíba, durante a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, que tem
denunciado o modelo das usinas eólicas e sobre a concentração, qual o desenho
dela hoje na região. E neste modelo centralizado por empresas, além de do
conflito com as comunidades, também trazendo problemas, desafios para o Bioma
Caatinga, então, comparando com o programa, queria que você fizesse uma
comparação entre esses dois lados.
A
marcha sempre denunciou esse modelo, e tem até um slogan que eu acho muito
legal, que é ‘Energia renovável sim, mas não assim’, e a marcha, tem a
oportunidade, nessa décima sétima edição, de além de fazer a denúncia, anunciar
uma nova proposta de produção de energia não concentrada. “Se não é
concentrada, como é que vocês imaginam?” Dessa forma que a gente está
arquitetando e desenhando o programa.
O
impacto na natureza é bem menor. Se em alguns campos, alguns parques de
produção de energia solar, que já são hectares e hectares de Caatinga que são
devastados. Eles usam também herbicidas para que a vegetação não possa mais
reaparecer naquele local.
Além
da retirada da Caatinga, que é um bioma que está extremamente degradado,
ameaçado, são colocados vários tipos de herbicidas. Fazendo isso [placas
solares] de família em família, não precisa desmatar nada, aproveita-se os
espaços, como o telhado de uma casa, uma cisterna, vários espaços que já tem
ali propício para produção dessa energia.
Isso
eu acho que conta muito a nosso favor. Desse processo, de um a um, quando se
soma, é bem maior do que uma usina que devastou hectares de Caatinga para ser
implementada.
Fazendo
a análise do ponto de vista social, ambiental, mas também do ponto de vista
econômico. A gente tem plenas condições e tem viabilidade sim para funcionar.
Não precisa ser dessa forma que é hoje, concentrado, onde a riqueza também é
concentrada em poucos.
Quando a gente fala de pobreza
energética, a gente cita a falta de energia, a energia muito cara e também
energia insuficiente ou precária para algumas situações do dia-a-dia. Como é
que a gente pode associar o programa Um milhão de tetos solares, no combate a
essa pobreza?
Há
algum tempo atrás, o problema era acesso a água. Você não tinha água. Hoje,
graças a Deus, a gente conseguiu ampliar esse acesso das famílias à água. Hoje
as famílias têm água, têm um manancial, têm a cisterna, têm um barbeiro, têm um
poço, e não podem usar essa água porque a energia é cara.
A
gente escuta muito a família agricultora dizer: “Olhe, estava tão bonita aqui
minha horta, meu quintal, mas eu tive que diminuir, porque a conta da energia
aumentou consideravelmente. Então, eu não tenho dinheiro para pagar a energia.”
As placas solares poderem resolver essa questão, é muito para esperançoso,
muito motivador.
Eu
sou um dos camaradas que acredita que o semiárido tem condições de ser o maior
produtor de alimento do planeta. Mas é preciso que a gente avance em políticas
públicas, precisa que a gente avance nessa perspectiva de construir caminhos
para que a população participe e esteja envolvida. Se a família não tiver
participando, não tem desenvolvimento, não acontece. Onde se cria um ambiente
que a tecnologia possa ser manejada amplamente em plano do território, sem
depender muito de algo que vem de fora.
(Brasil
de Fato)

Nenhum comentário:
Postar um comentário