sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DE OLHO NA LÍNGUA - Prof. Antônio da Costaartemisiodacosta@hotmail.com (Do Jornal Correio da Semana - Sobral-CE - 10.10.26)

Sarney criou a expressão “brasileiras e brasileiros”. É boa?

Só é boa como piada. Trata-se da expressão mais simplória criada em nossa língua nos últimos quinhentos anos. Talvez supere a que o povo inventou: “cuspido e escarrado” (para não dizer a verdadeira, que o povão diz, e que todos sabemos). 

Bastar-lhe-ia começar os seus aborrecidos e inócuos discursos com “Brasileiros”,  em que já estão compreendidos homens e mulheres. Justificaria, assim, o título de acadêmico. Quando se diz que o Brasil é dos brasileiros, alguém tem a intenção de afirmar que o nosso país é dos homens? Seria necessário dizer que o Brasil é dos brasileiros e também das brasileiras? 

Quando se afirma que no Brasil vivem duzentos milhões de brasileiros, estariam de fora as mulheres? Só mesmo numa cabeça muito pequena poderia caber propriedade numa expressão tão simplória. Pobres anos oitentas: começaram com uma piada e acabaram com outra, bem pior. 

Ave gratia plena

Está estampada no famoso cartão-postal de Sobral, Arco de Nossa Senhora de Fátima, monumento erigido em 1953. É uma expressão latina cujo significado, em Português, é “Salve cheia de graça”. Trata-se da saudação que o Anjo do Gabriel pronunciou ao ver a Virgem Maria. 

Posso dizer que estou ‘”quites” com o serviço militar?

Muita gente diz essa asneira, justamente porque não sabe que “quites” está no plural. Sendo assim, só cabe usar: Estou quite com o Serviço Militar; Estamos quites com o Serviço Militar; Você está quite com o Banco; Vocês estão quites com o Banco. 

“Ponto pacífico” ou “ponto passivo”?

O ponto é pacífico. E é pacífico porque sobre ele não há discussão, não há controvérsia, não há “guerra”. O adjetivo “pacífico” é relativo ao substantivo “paz” e pertence à mesma família de pacificar, pacificador, pacificamente, etc. 

Verruga ou berruga (Qual a correta/)

As duas formas são corretas, mas a segunda é eminentemente popular. Na língua elegante ou culta, prefira a primeira. A troca do ‘b’ pelo “v” é muito comum na língua portuguesa. Vejamos: Vassoura/bassoura, varrer/barrer, bravo/brabo, covarde/cobarde, etc. 

Susto na cozinha

“A cozinheira levou um enorme susto quando o bujão de gás explodiu’. Não é para menos! Com “bujão de gás” a cozinha poderia ir pelos ares. O correto é: botijão de gás (recipiente de gás combustível). Não confunda! A palavra “bujão” existe e significa rocha de madeira ou metálica, tampão. 

Risco de vida / Risco de morte

A expressão rigorosamente lógica, racional é risco de morte (o elemento final deve denotar sempre algo ruim), assim como se corre risco de infecção num ambiente infecto; assim como se corre risco de contágio, se se tem contato com alguém que sofre de mal contagioso, etc.

Nem sempre, porém, o que é racional, lógico, acaba a braços com a língua, que também agasalha risco de vida. A língua adota, também, as expressões “perigo de vida” e “perigo de morte”. Afinal, quando uma pessoa se põe a andar a 200 km/h, nas estradas brasileiras, arrisca a vida (e não a morte). 

Tupi e Tupi-guarani (Qual a diferença?)

O Tupi-guarani é uma família linguística pertencente ao tronco Tupi, que congrega várias línguas indígenas da América do Sul e apresenta uma ampla distribuição geográfica pelo continente. Essa diferença, na realidade, pouco é notada, todos chamam Tupi-guarani. 

(*) Professor Antônio da Costa é graduado em Letras Plenas, com Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Contato: (088) 99373-7724.

 

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