Para conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo com uma oposição fortalecida, Lula precisará contornar a rivalidade acirrada que se formou na eleição para atrair legendas bolsonaristas, como parte do próprio PL, e montar uma coalizão funcional junto com o PT.
Essa é a análise do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018), livro que carrega o nome do conceito que ele criou, nos anos 1980, para descrever as relações institucionais entre Executivo e Legislativo no desenho político brasileiro.
"Lula vai precisar colocar mais os partidos
que elegeram poucos deputados [na sua coalizão] e ainda transformar
alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não,
ele não conseguirá governar", diz Abranches em entrevista à BBC News
Brasil.
O próprio Lula indicou que pretende seguir esse
caminho. "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele
que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", disse em seu
discurso após a oficialização do resultado, em um hotel de São Paulo.
Abranches prevê que boa parte dos congressistas dos
partidos de direita, como o próprio PL, por exemplo, tenderão a aceitar se
integrar à coalizão governista.
"O PL ficou muito forte no Congresso: fez a
maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e fez vários senadores [19].
Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai
migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças
democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e
ao PSB", argumenta.
"Eles ainda querem ir para o governo, ainda
querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações, etc",
completa. Será nessa relação institucional que, acredita o cientista político,
uma "direita democrática" pode se impor sobre a direita radical.
Na entrevista que concedeu à BBC News Brasil,
Sérgio Abranches também discutiu os motivos que levaram o petista à segunda
reeleição da sua história política e a continuidade do bolsonarismo, como força
política, depois da sua segunda derrota seguida nas urnas.
Leia trechos da conversa a seguir.
BBC News Brasil – Nunca havia acontecido uma virada
do primeiro para o segundo turno. Como Lula conseguiu fazer isso?
Sérgio Abranches – O fator fundamental foi a mudança do tom da campanha dele, que foi
muito gelada no primeiro turno. Flávio Bolsonaro teve uma presença mais intensa
nas ruas.
BBC News Brasil – Por que isso aconteceu?
Abranches – Lula achou que
ia ganhar já no primeiro turno. Inclusive, parte da abstenção ali [de 21,08%]
se deveu a isso. Os idosos pensaram que ele já estava reeleito e sequer se
preocuparam em ir votar. Daí, quando viram a ameaça da derrota, compareceram [às
urnas no segundo turno]. A redução da abstenção também foi fundamental para
a reeleição.
Soma-se a isso a digitalização da campanha. No
primeiro turno, uma parte da campanha do Flávio foi digital, enquanto a do Lula
foi quase nada [digital]. No segundo, ele foi totalmente para o digital.
Um dos problemas das pesquisas [de intenção de voto em acertar os resultados],
inclusive, é que elas não veem o digital.
É que estamos em um sistema híbrido: o digital está
avançando muito rápido, enquanto alguns aspectos da velha sociedade analógica
continuam funcionando. Não é à toa que o fator rua foi muito fundamental
também. A ausência de Lula nas ruas no primeiro turno foi o que o fez perder.
Da mesma forma, a ida da campanha para a rua no segundo turno, do jeito que foi
— com entusiasmo, com empolgação — fez toda a diferença.
Essas duas coisas foram decisivas: a digitalização
da campanha e a rua.
BBC News Brasil – O cientista político Marcos Nobre
disse à BBC, há alguns dias, que essa digitalização da campanha do Lula,
sobretudo no WhatsApp, com o André Janones, não tem o mesmo tamanho do "partido digital
bolsonarista". Como essa digitalização tardia conseguiu
competir com essa estrutura consolidada?
Abranches – Na verdade,
ele (Lula) conseguiu neutralizar o partido digital bolsonarista, principalmente
quando ganhou alguns políticos digitais, como a Ana Elisa [segunda deputada
mais votada em Minas Gerais, pelo PT, com 524.219 votos] ou o próprio
Janones. Imagine 10 milhões de pessoas seguindo as recomendações dele e indo
para o digital? O efeito multiplicador disso é muito grande. Há um conjunto
desses políticos digitais que se elegeram, gente da nova geração, que ganhou
votos predominantemente no digital.
A Ana Elisa, por exemplo, fez campanha séria mesmo
em apenas dois municípios de Minas Gerais, e mesmo assim foi eleita. Esse
partido digital que está se formando dentro do PT — e que também vai se formar
em outros partidos da centro-direita — fica 24 horas no ar, não só no período
eleitoral. Isso faz uma grande diferença.
BBC News Brasil – Lula melhorou seu desempenho nos
Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, justamente os dois colégios
eleitorais onde ele e Flávio Bolsonaro fizeram mais atos de rua nos últimos
dias. Essa presença foi mais importante do que a digitalização?
Abranches – Sim, foi
fundamental. Mais do que isso: quando Lula percebeu que perdeu [no primeiro
turno], ele formou uma equipe melhor que resolveu fazer uma campanha mais
focada no Rio, em São Paulo e em Minas e na expansão no Nordeste — onde ele
precisava compensar os votos que não já teria no Rio e em São Paulo. Essa
combinação das estratégias de levar a campanha para a rua e ir para o digital
ao mesmo tempo fez a diferença. Nós costumamos dizer que o segundo turno é
outra eleição, mas, dessa vez, foi uma novíssima eleição.
BBC News Brasil – Por quê?
Abranches – Porque houve um
comportamento totalmente diferente do candidato incumbente no segundo turno,
enquanto Flávio, o candidato opositor, manteve o mesmo tom da campanha do
primeiro turno, apenas melhorando algumas ênfases aqui e ali.
BBC News Brasil – A campanha de Flávio cometeu
algum erro decisivo?
Abranches – Sim. Um erro
grave: ele achou que já estava eleito e, aí, entrou no segundo turno muito
arrogante. Já estava distribuindo ministérios... Esse foi o erro do Lula no
primeiro turno, inclusive, e que o Flávio reproduziu no segundo. Eles empataram
nesse erro.
BBC News Brasil – As denúncias que ele enfrenta no
STF e em inquéritos da Polícia Federal colaboraram com isso em algum sentido?
Abranches – O Flávio era
um candidato muito vulnerável por conta dessas acusações, que são de processos
judiciais em andamento, muito lesivos, que contrariam até o que ele diz sobre
si. Era natural que saíssem mais informações [conforme a campanha seguisse].
Lula foi muito leal, inclusive, porque não usou o poder que tem para pegar mais
informações com a Polícia Federal e vazá-las. Ele se comportou como um
estadista.
BBC News Brasil – Foi a segunda derrota seguida de
um Bolsonaro. Como fica o bolsonarismo, agora, a nível institucional?
Abranches – Flávio perdeu a
eleição e o mandato. Ficará ao relento. Por outro lado, o mais radical da
família [Bolsonaro], Carlos, foi eleito senador [por Santa Catarina,
com cerca de 1,9 milhão de votos], além da Michele [Bolsonaro,
ex-primeira dama e eleita para o Senado pelo Distrito Federal]. Embora eles
não se gostem muito, são polos que podem tentar manter o bolsonarismo vivo,
embora ele fique mais fraco agora. Isso vai dar espaço para a direita
democrática crescer.
É que, no governo [de Jair] Bolsonaro [entre
2019 e 2022] e depois, ao longo desse atual governo Lula, com a oposição
bolsonarista e o crescimento do Flávio como candidato, eles engoliram a direita
democrática. O PSD, por exemplo, é um partido com várias lideranças
democráticas que ficou vendido para a extrema-direita. O [Gilberto]
Kassab [presidente do PSD] cometeu um erro grave ao decidir ficar do
lado do Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] e do Flávio.
O avanço da extrema-direita sobre a direita
democrática prejudicou o processo democrático brasileiro, porque se o Brasil
tem uma população de direita importante, significativa, ela precisa ser
absorvida pelos partidos da direita democrática — o PSD, o MDB...
BBC News Brasil – Mas existe chance de isso
acontecer agora?
Abranches – Agora sim,
porque eles terão que fazer uma coalizão com o Lula. O PL ficou muito forte no
Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e fez
vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida parlamentar à
extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é
aí que ela poderá usar suas lideranças democráticas para fazer um contraponto
conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB.
BBC News Brasil – Mas, depois dessa eleição tão
acirrada, o PL migraria para a coalizão do governo?
Abranches – Um pedaço dele
pode, sim. O pedaço não bolsonarista, isto é, o pedaço adesista. O Centrão que
migrou para dentro do PL. Esses deputados já têm algumas divisões importantes
entre eles que provavelmente vão se acentuar, segundo informações que eu tenho.
Não ficaria tão surpreso, inclusive, se alguns parlamentares do PL migrassem
para outros partidos de centro-direita em meio à janela de mudanças de legendas
no Senado e na Câmara.
BBC News Brasil – Nos últimos dias da campanha, o
Senado aprovou uma série de medidas que beneficiou Lula — a maioria por
intermédio de Davi Alcolumbre (União-AP). Por que ele resolveu apoiar o governo
depois de entrar em colisão com ele por diversas vezes?
Abranches – O Alcolumbre
perdeu a eleição no Estado dele [seus aliados candidatos a governador e
senador no Amapá não foram eleitos]. Ficou fraco lá e precisa do Lula para
se fortalecer. Se, de um lado, ele tem o trunfo de já ser o presidente do
Senado e, portanto, ter condições de se reeleger, de outro ele terá que se
contrapor à bancada bolsonarista, que vai querer fazer seu presidente —
provavelmente o Rogério Marinho (PL-RN). Alcolumbre tem toda a razão em
continuar apoiando o Lula, porque é a única saída dele.
Na Câmara dos Deputados, porém, a sucessão do
presidente [Hugo Motta, do Republicanos-PB] é mais complicada, porque a
bancada do PL é muito forte e muito grande. A gente vai ver como tudo se
organizará agora no final do Lula 3.
BBC News Brasil – Quais são as condições de
governabilidade desse novo governo?
Abranches – Vai ter que
ser um governo muito diferente do Lula 3. Ele terá que construir uma coalizão
mais líquida — principalmente em relação aos dois primeiros governos dele [entre
2003 e 2010] — e em um Congresso mais adverso. Ele já teve uma coalizão
líquida nesse mandato atual, com muita dificuldade em aprovar coisas, inclusive
no Supremo Tribunal Federal. Agora, terá que dar mais espaço para a
centro-direita e, por isso, será um governo mais pluralista, mais mitigado, com
menos PT.
BBC News Brasil – Mas isso não vai gerar uma reação
de quem foi à rua defendê-lo neste segundo turno e que demandava, em paralelo,
um governo "mais PT" caso Lula vencesse?
Abranches – Não sei se a
rua estava querendo um governo mais à esquerda, Dessa vez, a rua não foi
comandada pelo PT e pelas centrais sindicais, mas, sim, pelos movimentos
sociais mais independentes, como os estudantes, e aquelas pessoas mais
democratas que não queriam o Flávio de jeito nenhum. O antibolsonarismo não
petista e não-esquerda também foi às ruas apoiá-lo.
A demanda, na verdade, é que Lula preserve a
democracia. Para isso, ele terá que fazer uma aliança mais forte com os
partidos de representação no Congresso.
BBC News Brasil – O novo governo, embora legitimado
pelas urnas, terá condições de fazer isso?
Abranches – Se você pegar
os principais partidos do Congresso, o PL fez 121 deputados — um aumento de 88
parlamentares na sua bancada que o transformou em uma força respeitável. Ele
dificulta qualquer formação de maioria que não seja firme o suficiente. Isso significa
que, para qualquer maioria do Lula 4 ser forte, terá que colocar mais gente
dentro dela. Isso significa ceder mais aos partidos de centro-direita. Ele vai
ter que conversar seriamente com o Kassab, sobretudo.
O PSDB não existe mais: fez 11 deputados. Está fora
do jogo. O MDB fez 36 deputados. É muito pequeno. O PSD fez 43 e o PT, 70
parlamentares. Então, para construir maioria, Lula vai precisar colocar mais
partidos que elegeram poucos deputados [na sua coalizão] e ainda
transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão,
porque, se não, ele não conseguirá governar
O problema do presidencialismo de coalizão é que um
presidente sem maioria, sem coalizão majoritária, não passa nada no Congresso.
É por isso que eu presumo que Lula vá tentar tomar algumas medidas importantes
já agora, logo depois da eleição, assim que o velho Congresso voltar a
funcionar, negociando com o Alcolumbre e com o presidente da Câmara.
BBC News Brasil – O quê, por exemplo?
Abranches – Ele vai
indicar logo o ministro do Supremo que está faltando desse mandato, por
exemplo, para ficar mais tranquilo no STF. Também vai aprovar algumas questões
que ele vai querer manter no Lula 4. Na verdade, ele vai ter que antecipar
parte da agenda do seu quarto mandato para agora, no fim desse terceiro,
aproveitando a força da reeleição, porque terá mais dificuldades no governo
seguinte com o Congresso mais à direita.
O quarto mandato vai ser mais complicado do que o
terceiro. É fato.
BBC News Brasil – Mas é possível construir essa
relação com os partidos bolsonaristas?
Abranches – De cara, não,
mas quando o novo Congresso vier, o PL terá necessidade de ter apoio do
governo. A parte mais moderada do PL, que não é bolsonarista fanática, poderá
até migrar do PL para outros partidos justamente para ajudar o governo Lula.
É preciso entender que a política funciona com base
em duas coisas: uma é [quem está] no poder do momento — porque ele (o
presidente) tem o Tesouro, ou seja, poder para alocar verbas, por exemplo.
O Congresso até ficou mais independente do Executivo nos últimos tempos por
causa das emendas, que cresceram muito, mas ele continua precisando [de uma
relação saudável com o Executivo]. Continua precisando de alguns cargos
estratégicos para influenciar seus colégios eleitorais contra opositores, por
exemplo. Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda
querem dirigir certas organizações, etc. Então, o poder de agora conta.
A outra coisa é a expectativa de poder futuro — e,
agora [com a derrota de Flávio], o PL perdeu sua expectativa de poder
futuro. Com [Jair] Bolsonaro doente e preso, sem a possibilidade de um
indulto, com Flávio derrotado e sem mandato e um Bolsonaro muito menos hábil e
mais radical no Congresso, o Carlos, além da Michele — uma populista religiosa
da qual não sabemos a real capacidade de fazer política, mas que deve ser um
canal de condução do Jair —, a expectativa futura de poder está vazia.
Provavelmente surgirão lideranças com capacidade de
disputar as eleições em 2030 que, ao se mostrarem interessadas, vendo crescer a
sua influência nacionalmente, provavelmente até vão viajar mais pelo Brasil,
vão fazer mais campanha digital. Essa expectativa de poder construirá
lideranças que servirão como polos. Podemos até ver o surgimento de uma
liderança mais significativa de oposição.
Isso sem contar o papel do [Geraldo]
Alckmin.
BBC News Brasil – O senhor vê ele como um futuro
protagonista?
Abranches – Ele mudou para
o PSB para ficar mais confortável. Tem 73 anos. Quando terminar o Lula 4,
estará com 77 anos, isto é, ainda terá condições de disputar uma eleição. Pode
vir a ser uma alternativa. Ele já disputou um pleito presidencial e, embora
tenha perdido [em 2006, para Lula], teve uma votação importante [cerca
de 39,9 milhões de votos no segundo turno]. Tem ainda um recall nacional
de ser o atual vice do Lula, de ter sido ministro, etc. É uma figura para
prestar atenção.
BBC News Brasil – E a crise do Supremo? É de se
esperar que o Congresso mais à direita paute o impeachment de ministros
à revelia de Lula?
Abranches – Eu acho que
não. Isso já está resolvido. Lula vai nomear rapidamente um novo ministro para
STF para garantir uma maioria tranquila. Essa crise vai ser apagada.
BBC News Brasil – Esse mandato também será
determinante para os sucessores de ambos os movimentos: do PT e do
bolsonarismo?
Abranches – Sim. Todos os
partidos terão que produzir lideranças para essa nova fase. Estamos vivendo um
encerramento do ciclo PT e Lula e, em especial, daqui em diante, o PT não será
mais o partido competitivo que vem sendo até hoje. Os outros partidos, que
nunca foram tão competitivos nos pleitos presidenciais, precisarão disputar
esse espaço com o PL. Isso vai resultar em um processo de busca por lideranças
com capacidade eleitoral presidencial. Vai mudar muito a natureza das eleições
futuras.



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