quarta-feira, 12 de abril de 2017

ARTIGOS ACADÊMICOS: Ensino da Língua Materna: Um Desafio (Por Camila Márcia Vasconcelos Ferreira)

O Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa em nossas escolas está completamente defasado. Sim, é através dessa afirmação que poderemos refletir sobre como a língua materna está sendo trabalhada dentro das escolas e como muitas pessoas tem a concepção de que não sabem o português, de que o português é difícil e até mesmo há pessoas que saem das instituições de ensino afirmando que odeiam português (uma relação de ódio com a língua que falam?). Por que tantos problemas diante do ensino da própria língua materna?

Não se pretende aqui traçar soluções e propor metodologias eficientes para o ensino do português, muito pelo contrário, o que se pretende é fazer refletir/questionar e através da reflexão e questionamento de cada um, poder observar a realidade de cada sala de aula para que assim se possa diagnosticar a melhor forma de agir para mudar o ensino e torná-lo uma experiência agradável e acessível a todos os alunos. Ademais, é imprescindível que na sala de aula se mostre por que se estudar e aprender a usar a língua portuguesa nos inúmeros contextos existentes, seja verbal, escrito, social, etc. Se temos como instrumento de expressão uma língua comum devemos aprender a usá-la para nós mesmos e de acordo com as nossas necessidades.

É certo que o ensino, não só de língua portuguesa como de qualquer disciplina, apresenta muitos problemas metodológicos e até mesmo burocráticos (currículo), mas um bom professor não pode se focar nos problemas, pelo contrário, deve preocupar-se com as soluções. Essa defasagem, no ensino da língua portuguesa, que está ocorrendo em diversos âmbitos, só vem a mostrar que os professores estão focados nos problemas e não nas soluções.

Esses obstáculos dizem respeito tanto aos objetivos que não estão bem definidos, quanto a metodologia inadequada.  O ensino da língua está baseado no ‘decoreba’ onde os alunos decoram terminologias e situações de uso que posteriormente irão esquecer. Será que o ensino da língua materna não deveria ter como laboratório as situações cotidianas? O contato maior com livros e observações empíricas nas conversas?

Todavia, a maior desculpa que se dá para não inovar as aulas é que se deve ensinar gramática normativa, pois ela que é cobrada nos concursos e vestibulares. Ok. A gramática normativa deve ser, sim, ensinada, mas de forma contextualizada, de modo que ela deixe de ser vista apenas como um livro cheio de regras chatas, mas como algo real. Algo que vá além de um livro e não apenas desculpas: “Porque a gramática normativa é exigida no vestibular”, “Porque para se escrever uma boa redação deve-se saber gramática”. É muito mais fácil aprendermos coisas com a prática e o contato direto com o objeto ensinado e não apenas com provas, regras e mais regras. O ensino hoje – de qualquer disciplina – deve ser voltado para situações de uso, situações reais, e não para algo metafísico e abstrato, o aluno tem que sentir a necessidade e a lógica de se estar aprendendo aquilo.

Vale frisar que o ensino da língua portuguesa não deveria ser algo monótono e enfadonho, pois a língua é algo que o aluno sempre está utilizando para se expressar, desse modo o ensino não deve se prender apenas a gramática, mas também a interpretações de textos, instigar questionamentos aos alunos, fazer com que eles pensem e reflitam sua própria língua. A língua não é um objeto de estudo morto, pelo contrário, a língua é viva e está em constante evolução.

Não obstante, a vontade de tornar o ensino da língua portuguesa algo mais atrativo, é incontestável os empecilhos encontrados diante do currículo da escola que na maioria das vezes não dá espaço para o professor ter autonomia de inovar, ademais, tem-se que seguir o livro didático, ensinar apenas a gramática normativa e negligenciar as outras gramáticas existentes – inclusive a gramática internalizada do aluno! –, desse modo as aulas acabam sendo sempre expositivas e por conseguintes cansativas.

Entre tantos problemas ainda podemos distinguir mais um, que a meu ver, caracteriza-se como o mais grave: professores de outras áreas ensinando língua portuguesa sem saber, apenas por que, concursados e/ou contratados, tendo suas áreas de ensino já lotadas por outros professores, são basicamente obrigados a ensinar aquilo que não sabem. Há quem defenda tais ações justificando que português é fácil de ensinar, é só mostrar o que está na gramática, ademais todo mundo sabe português! De fato, ninguém é um total ignorante na sua língua materna, mas ensinar é algo muito complexo, principalmente quando se trata daquilo que não faz parte de sua formação.

Desse modo o ensino da língua materna torna-se cada vez mais prejudicado e quando os alunos percebem a falta de domínio do professor sobre o conteúdo, simplesmente se sentem desmotivados a estudar/aprender sobre ele. Mediante a isso, tenho a concepção de que o professor que ensina uma área da qual não tem formação, não tem a mínima condição de exigir do aluno aquilo que também não sabe.

Em suma, a teoria pode, por vezes, parecer algo utópica e falar sempre é mais fácil do que fazer, no entanto, a esperança e a boa vontade de mudar o ensino da língua portuguesa é um primeiro passo que só pode ser dado por aquele que realmente sabe o que faz e tem iniciativa de fazer. É evidente que aquele que gosta do que faz e sabe fazer terá muito mais propriedade de inovar, de mudar e de efetuar um ensino de qualidade mesmo diante das limitações da escola, do currículo enfim... Uma pequena mudança já é significativa e também motivo de comemoração. Cada professor (a) está sendo desafiado a ser ator dessa peça, espera-se que eles não se recusem a atuar!


                                                          Camila Márcia Vasconcelos Ferreira, de Bela Cruz, é graduada em Letras pela UVA





* Artigo realizado para a disciplina de Tópicos Especiais I ministrada pelo Prof. Leunam Gomes.




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