Foram,
ao todo, 76 pedidos de abertura de inquérito, envolvendo oito ministros, 24
senadores, 39 deputados e três governadores. Na terça-feira, o ministro Edson
Fachin (foto), do STF (Supremo Tribunal Federal), deu sinal verde às investigações
contra uma parcela significativa da classe política brasileira, provocando um
verdadeiro terremoto em Brasília.
Os inquéritos foram abertos com
base na "delação do fim do mundo" - como ficaram conhecidos os
acordos de delação premiada da empreiteira Odebrecht, alvo da operação Lava
Jato, iniciada a partir da investigação de um amplo esquema de corrupção na
Petrobras.
A decisão de Fachin ocorre cerca
de um mês depois de o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviar 83
pedidos de abertura de inquérito ao STF.
O ministro também enviou dezenas
de outros inquéritos - totalizando mais de 200 nomes, incluindo os de quatro
ex-presidentes - a outros tribunais porque os envolvidos não têm prerrogativa
de foro no STF.
Entre eles, estão, por exemplo,
governadores de Estado que têm de ser julgados pelo STJ (Superior Tribunal de
Justiça), além de ex-presidentes, como Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da
Silva e Fernando Henrique Cardoso.
Embora tenha sido citado, o
presidente Michel Temer não será alvo de inquérito, uma vez que a lei proíbe
que o presidente seja investigado por fatos anteriores ao seu mandato. Trata-se de uma etapa importante
do processo, acompanhado atentamente por milhões de brasileiros. Mas o que esse
novo estágio significa? E quais serão os próximos passos? Confira abaixo.
1) O que aconteceu?
Na terça-feira, o ministro do STF
(Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin decidiu abrir inquérito contra oito
ministros, 24 senadores, 39 deputados e três governadores.
Fachin também enviou dezenas de
outros inquéritos - totalizando mais de 200 nomes, incluindo de ex-presidentes
- a outros tribunais porque os envolvidos não tem prerrogativa de foro no STF.
Todos eles foram citados nas
delações premiadas de 78 ex-executivos do grupo Odebrecht. A empreiteira é
acusada de participar de um amplo esquema de corrupção na Petrobras.Devido à
magnitude, e seu possível impacto no universo político brasileiro, esse
conjunto de delações foi apelidado de "delação do fim do mundo".
Prevista por lei desde 1999 no
Brasil, a delação premiada é um benefício legal concedido ao réu em uma ação
penal que aceite colaborar com a Justiça.
Caso apresente provas que possam
ajudar nas investigações ou solucionar um crime, o réu pode ser beneficiado
pelo juiz com a diminuição da pena, cumprimento da pena em regime semiaberto,
extinção da pena ou mesmo perdão judicial.
2) O que isso significa?
A abertura de um inquérito é considerada
a primeira etapa de uma apuração. A partir do sinal verde de Fachin, serão
colhidas provas que podem, potencialmente, transformar um investigado em
suspeito pela prática de um crime. Ou seja, por ora, todos são investigados.
3) Por que a decisão sobre a
abertura dos inquéritos coube ao ministro Edson Fachin?
Fachin é, atualmente, o relator
da Operação da Lava Jato no STF. Ele foi sorteado como novo relator do processo
que investiga o esquema de corrupção na Petrobras substituindo o ex-relator,
ministro Teori Zavascki, morto em acidente de avião no início deste ano.
Pela lei brasileira, só é
possível abrir um inquérito contra presidentes, ministros ou parlamentares após
autorização do STF. Isso porque eles contam com o chamado "foro por
prerrogativa de função" (ou popularmente conhecido como foro
privilegiado), que os impede de ser julgados nas instâncias inferiores. Ou seja, por terem imunidade, só
podem ser julgados pela maior instância jurídica do país, o STF.
Apesar de não ser competência do
STF julgar governadores - a tarefa cabe ao STJ (Superior Tribunal de Justiça),
Fachin decidiu abrir inquérito contra três deles (Alagoas, Acre e Rio Grande do
Norte) pois são citados em ações envolvendo pessoas com foro no Supremo.
4) Como foi o trâmite (ou como a
"lista de Janot" se tornou a "lista de Fachin")?
Há cerca de um mês, no dia 14 de
março, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a abertura de 83
inquéritos ao STF. Fachin aprovou 76 pedidos e arquivou sete.
Em 2015, a primeira lista com
pedidos de abertura de inquérito ao STF totalizou 27 nomes, mas apenas quatro
políticos se tornaram réus (ou seja, passaram a responder a um processo
judicial). São eles: o deputado cassado
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e os deputados
Nelson Meurer (PP-RJ) e Aníbal Gomes (PMDB-CE).
5) Qual será o próximo passo?
Com a autorização do Supremo para
a abertura do inquérito, a Procuradoria-Geral da República (PGR) passa a
comandar a apuração dos investigados com foro. Nesse contexto, o órgão pode
solicitar a ajuda da Polícia Federal. Serão conduzidas diligências e colhidos
depoimentos.
Se ao fim do inquérito houver
indícios de que os investigados tiverem cometido crime, a PGR pode apresentar
denúncia ao STF. Durante essa etapa de coleta de provas, o órgão pode, por
exemplo, pedir a quebra do sigilo telefônico ou bancário e a prisão preventiva
dos investigados, com autorização prévia de Fachin.
Só a partir do momento em que o
STF aceita a denúncia, o denunciado passa à condição de réu e começa a
responder ao processo judicial. Além do processo no Judiciário, os investigados
podem ser penalizados com a possível cassação do mandato, mas disso dependerá a
decisão do Congresso (Legislativo).
6) Quanto tempo esse processo
pode demorar?[
Não se sabe. Existe o risco de
algumas investigações prescreverem, como já ocorreu anteriormente. O desfecho do caso ainda está bem
distante - e há temores de que mudanças legislativas ponham em xeque a punição
de parte dos crimes cometidos.
Em 2014, pesquisadores da FGV do
Rio de Janeiro analisaram a duração de processos no STF entre 1988 e 2013. Segundo o estudo, ações que
envolviam direito penal - caso de grande parte das denúncias apuradas na Lava
Jato - levaram em média 5,5 anos para serem julgadas.
Se seguirem essa média, os
julgamentos dos políticos na "nova lista de Janot" que se tornarem réus
chegariam a uma conclusão no final de 2022. (BBC)

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