Criado para gerar
1,8 milhão de vagas de emprego para trabalhadores entre 18 e 29 anos, de acordo
com as estimativas oficiais, o Programa Verde Amarelo, anunciado no mês passado
pelo governo federal, se baseou no diagnóstico errado para tentar resolver o
problema do alto desemprego entre jovens.
A avaliação é do
economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas
do Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da
Universidade de São Paulo (FEA-USP).
"Tem uma série
de outras coisas que fazem com que o desemprego do jovem seja mais alto, não é
uma questão de desonerar [os empregadores]", diz Menezes Filho. "A
gente já sabe que esse tipo de política [de desonerar empresas para estimular
empregos] não funciona aqui no Brasil".
O programa do
governo federal pretende, ao reduzir de 30% a 34% os custos para o empregador
que contratar jovens, resolver um problema antigo: o alto nível de desemprego
entre os mais jovens que, tradicionalmente, é maior que a média nacional.
No segundo trimestre
de 2019, por exemplo, o desemprego entre os brasileiros de 18 a 24 anos era de
25,8%, enquanto a desocupação total do país era de 12% no mesmo período.
Para Menezes Filho,
no entanto, a iniciativa de reduzir os custos para as empresas em troca de
gerar empregos já se mostrou ineficiente em tentativas como o programa Primeiro
Emprego, criado em 2003 e descontinuado em 2007, e que era uma das bandeiras eleitorais
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No programa de Lula,
os empregadores tinham direito a um auxílio econômico no valor de R$ 1,5 mil
por ano para cada emprego criado. Quando o programa foi encerrado, a própria
equipe responsável pelo programa reconheceu que havia seguido o diagnóstico
errado, já que, na visão deles, o foco deveria ter sido melhorar a qualificação
dos jovens.
Na avaliação do
economista, formado pela USP e doutor em economia pela Universidade de Londres,
mais eficaz para ajudar os jovens a saírem do desemprego seriam iniciativas
mais óbvias, como ampliar o Bolsa Família para que todas as famílias que
precisam recebam a transferência de renda, criar mais incentivos para que o
jovem fique mais tempo na escola e possa se dedicar mais aos estudos, além de
implementar programas que atendam os jovens menos qualificados no contra turno,
com cursos técnicos de qualidade e informações úteis para o mercado de trabalho
no longo prazo.
E, para evitar que
uma nova geração de jovens caia também em um futuro de subemprego, baixa
qualificação e pobreza, a prioridade absoluta do governo deveria ser ampliar o
Bolsa Família tanto em valor do benefício quanto em alcance, para proteger as
milhares de crianças que nasceram durante a recessão econômica em famílias
pobres, sem segurança nos cuidados com alimentação, saúde e conforto,
justamente na fase mais importante para seu desenvolvimento.
Em 2017, 15,2
milhões de pessoas viviam no Brasil com renda inferior a R$ 140 por mês, nível
considerado extrema pobreza de acordo com a linha proposta pelo Banco Mundial,
de renda inferior a US$ 1,90 por dia.
"Essas
crianças, se o pai está desempregado, em situação de crise, não vão conseguir
desenvolver suas habilidades socioemocionais e cognitivas. Daí elas vão mal na
escola, repetem, saem da escola, algumas vão para o crime. E vão ficar
dependendo do Estado e vão virar esses jovens dos quais que a gente estava
falando, que ficam no emprego informal, ou na construção civil, e depois saem.
Isso tem que ser a prioridade número um", ele avalia.
"Daí depois
você tem que fazer esse tipo de programa para jovem, essa tentativa de
desonerar para aumentar o emprego para jovem. Se tivesse investido antes,
agora, na crise, não precisaria fazer esse tipo de programa mais para a frente."
'Essa coisa de cobrar do seguro-desemprego, isso é um absurdo completo.
Não faz o menor sentido, é uma falta de percepção', diz o economista do Insper
Leia os principais
trechos da entrevista:
BBC News Brasil - Que achou do programa do
governo para estimular o emprego entre jovens?
Naercio
Menezes -
Com relação à MP do Programa Verde Amarelo, eu acho que não vai funcionar.
No governo Lula a
gente teve o programa Primeiro Emprego, em 2003, que dava R$ 1,5 mil para cada
empresa que empregasse um jovem pela primeira vez. A expectativa era de criar
milhões de empregos e, na verdade, criou por volta de 30 mil vagas em três
anos. Viu-se que não funcionava, que era muito pouco emprego, e não valia a
pena.
E a desoneração da
Dilma [Rousseff] depois, que era diferente, também não funcionou. Então acho
que nós já sabemos que esse tipo de política não funciona aqui no Brasil.
BBC News Brasil - Por que não funciona?
Naercio
Menezes -
Acho que o diagnóstico está errado. O jovem fica mais desempregado por vários
motivos.
Primeiro: ele
circula muito entre empregos, então ele fica pouco tempo em cada emprego,
porque está experimentando.
Além disso, ele
combina estudo com trabalho, então tem épocas em que ele sai do trabalho para
se dedicar mais ao estudo, e depois volta.
A rotatividade do
jovem é muito grande. Normalmente não é uma questão de desonerar o emprego para
contratar o jovem que funciona. O problema é que ele fica muito pouco tempo na
empresa.
BBC News Brasil - E a qualificação,
influencia?
Naercio
Menezes -
Isso, ele é muito pouco qualificado. Ele quer só ficar um tempo para depois
receber seguro-desemprego, décimo terceiro, e ficar um tempo fora do mercado de
trabalho, e depois ele volta. É isso que acontece, basicamente, e a
rotatividade é altíssima.
Ele é pouco
qualificado, a empresa não investe nele porque sabe que ele vai ficar pouco
tempo, o jovem sabe que essa empresa não vai investir nele, que ele vai ganhar
muito pouco de aumento salarial ficando muito tempo na empresa.
Na verdade, para
estimular o jovem a permanecer mais tempo no emprego mais tempo você tem que
melhorar a qualificação, e tem que reformular um pouco essas leis do mercado de
trabalho.
Mas de maneira
geral, não só desonerar [o emprego para] o jovem. Dar incentivos para ele
permanecer mais tempo [no emprego]. Se a empresa souber que ele vai ficar mais
tempo no emprego, começa a investir nele. E se ela investe nele, ele fica com
mais vontade de ficar mais tempo, porque o salário vai aumentando ao longo da
vida.
E hoje estamos meio
ao contrário: todo mundo sabe que ele vai ficar pouco tempo, então ninguém
investe em ninguém. Além disso, ele não tem resiliência, não tem habilidades
socioemocionais como perseverança, não tem qualificação de aprendizado.
BBC News Brasil - Mas, durante a crise,
valeria alguma medida específica para os jovens? Ou programas mais amplos?
Naercio
Menezes -
Eu acho que tem coisas mais óbvias a serem feitas, que é o Bolsa Família, fazer
com que o jovem fique na escola, na faculdade, durante o período da crise.
Os períodos de crise
são um bom tempo para ele investir em capital humano. Se o jovem tiver uma
escola em tempo integral, que atenda os menos qualificados no contra turno. Ou
continuar a expansão do ensino superior, do ensino técnico qualificado. Mas um
ensino técnico que funcione, não um Pronatec [programa do governo Dilma] que
tinha algumas coisas que funcionava, outras que não.
Tem que ser ensino
técnico que seja útil para o jovem, que funcione, que tenha longo prazo, em que
ele aprenda coisas úteis para o mercado de trabalho, que está mudando muito. E
aí o mercado de trabalho, em si, demandaria uma série de medidas.
Não tenho certeza
ainda do que poderia ser feito mas tem FGTS, tem abono, tem seguro-desemprego,
tem um monte de coisas que poderiam ser tratadas, mas aí é uma outra conversa.
BBC News Brasil - E o que o sr. achou da
taxação do seguro-desemprego para financiar o programa?
Naercio
Menezes -
Essa coisa de cobrar do seguro-desemprego, isso é um absurdo completo. Não faz
o menor sentido, é uma falta de percepção.
BBC News Brasil - Houve economistas que
elogiaram a medida por ter uma fonte de recursos designada, em que já se sabe
de onde sairá o dinheiro. O que o sr. acha desse argumento?
Naercio
Menezes -
Acho equivocado. Eu acho que você tem que ter um dinheiro específico para a
medida.
Mas você pode, por
exemplo, aumentar a alíquota marginal do Imposto de Renda, pode aumentar o
imposto sobre heranças, você pode taxar lucros e dividendos.
Acho que é mais
coerente do que cobrar da pessoa que está em um momento de desemprego, sofrendo
para pagar as contas. Se o desempregado quiser contribuir para a Previdência
ele pode, acho que fica a critério dele.
BBC News Brasil - A pobreza cresceu
bastante durante a crise econômica, e o Banco Mundial, em 2017, recomendava a
expansão do Bolsa Família para acomodar os "novos pobres". Essa
recomendação ainda vale para reduzir essa pobreza?
Naercio
Menezes -
É preciso achar as pessoas pobres que ainda não recebem o Bolsa Família e dar o
benefício para elas, e aumentar o valor do Bolsa Família.
Os dados indicam que
há uma redução no número de beneficiários, mesmo em uma época de crise. Há uma
tentativa do governo de fiscalizar mais, o que eu acho que é válido, para que o
dinheiro vá para quem precisa. Mas parece que tem gente que precisa e não está
recebendo, e isso não pode acontecer.
O Bolsa Família tem
que ser a prioridade número um no país, junto com a primeira infância. Você tem
crianças nascendo todo dia, nasce uma geração de 3 milhões de pessoas no ano.
Então todo mês você tem 250 mil crianças nascendo, e dessas, um terço é pobre.
Essas crianças, se o
pai está desempregado, em situação de crise, elas não vão conseguir desenvolver
suas habilidades socioemocionais e cognitivas. Daí vão mal na escola, repetem,
saem da escola, algumas vão para o crime. E daí elas vão ficar dependendo do
Estado e vão virar esses jovens que a gente estava falando, que ficam no
emprego informal, ou na construção civil, depois saem do emprego.
Isso é a prioridade
número um. Daí depois você tem que fazer esse tipo de programa para jovem, essa
tentativa de desonerar para aumentar o emprego para jovem. Se tivesse investido
antes, agora, na crise, não precisaria fazer esse tipo de programa mais para a
frente.
É a prioridade
número um, junto com essas reformas fiscais. É preciso haver um programa social
de primeira infância, como o que foi organizado pela Tábata Amaral e pelo
Rodrigo Maia.
BBC News Brasil-Mas
daria para aumentar o Bolsa Família com a crise fiscal? Tirar dinheiro de
outras despesas?
Naercio Menezes - Sim, exatamente. Você tem muitas
desonerações [que poderiam ser revertidas] que o ministério da Economia
concede.
Além disso você tem
a emenda constitucional do teto de gastos, e é preciso que diminuir gastos de
outras áreas. Desonerações de Imposto de Renda, desconto para educação e saúde
no Imposto de Renda, o ministério tem uma lista. Tem que recuperar dinheiro daí
e preferir pelos mais pobres. (BBC)


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