E a
data do 13 de maio entendida como um marco, sobretudo para a população negra
brasileira.
Mas o tempo passou e a própria historiografia passou a ser atualizada. Porque não faz muito sentido que o protagonismo da luta negra seja de uma mulher branca, reforçou-se no imaginário nacional outra data: o 20 de novembro, dia em que teria sido assassinado o último líder do quilombo dos Palmares, Zumbi (1655-1695), hoje reconhecido como um símbolo da resistência negra.
"Quando
tratamos dessa questão de datas, o 13 de maio em contraponto ao 20 de novembro,
estamos tratando intrinsecamente da questão do protagonismo", afirma o
historiador Philippe Arthur dos Reis, pesquisador na Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). "E do entendimento do protagonismo de determinados
agentes no processo de luta e de conquista da liberdade frente à escravidão, no
caso do povo negro."
"Esse
processo de procura de uma nova data tem a ver com o próprio processo de
escrita da história. Não podemos esquecer que a partir dos anos 1970 e 1980,
existe toda uma narrativa que busca colocar em determinados agentes o seu
protagonismo no processo de compreensão do passado", prossegue Reis.
"Historiografias
mais tradicionais, do começo do século 20, encaravam e colocavam como data
fulcral para a questão da libertação dos escravos o 13 de maio", frisa o
historiador. Mas, conforme ele explica, muitas vezes história e memória caminham
juntas e a "construção memorialística" tem a ver com a forma de
construção da narrativa. "Justamente nesse ponto, para conferir
protagonismo ao negro, se coloca a figura do quilombo dos Palmares e o processo
de luta frente ao domínio colonial", contextualiza.
O
pesquisador Paulo Rezzutti, autor de diversos livros sobre o período
monarquista brasileiro, reconhece a importância dessa revisão mas, ao mesmo
tempo, preocupa-se em valorizar também a questão de gênero: Isabel, uma mulher
do século 19, teve um papel importante na história do Brasil.
"Toda
tradição é inventada, isso é um fato. Estamos vendo uma parte da sociedade
brasileira criar uma nova tradição na qual os movimentos negros assumem o
protagonismo por meio do discurso de uma luta ancestral dos escravizados
africanos no Brasil pela sua liberdade", comenta ele.
"Anteriormente,
o discurso dessa luta estava bastante ligado ao 13 de maio e à figura da
princesa Isabel por causa da data em que foi assinada a Lei Áurea. Tanto a luta
ancestral dos escravizados quanto a luta pela abolição da escravatura são
importantes", acrescenta Rezzutti. "O que eu tenho percebido é que
parte dessa nova tradição tenta se estabelecer buscando anular o 13 de maio, e
com isso o protagonismo de uma mulher, diminuindo a sua participação no
processo, assim como também a de outros protagonistas negros envolvidos na
abolição da escravatura."
Ativismo e política
Professor
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor do livro
'Sambas, Quintais e Arranha-Céus: as micro-áfricas em São Paulo', o historiador
e músico Amailton Azevedo afirma que o 13 de maio perdeu importância nos
últimos anos porque o 20 de novembro passou a compor uma "agenda de
ativismo político".
"Isso
de uma maneira ou de outra acabou se tornando a referência para uma memória de
luta dos negros no Brasil", comenta. "Estabeleceu-se o 20 de novembro
como a memória a ser relembrada e celebrada, em função da figura do Zumbi dos
Palmares, e, nesse sentido, o 13 de maio foi perdendo espaço e importância."
Por outro
lado, no contexto do 13 de maio a movimentação também tinha protagonistas
negros. Se a lei foi assinada por Isabel, a luta e as pressões para que esse
momento ocorresse contou com o ativismo de nomes como o jornalista,
farmacêutico e escritor José do Patrocínio (1853-1905), o engenheiro André
Rebouças (1838-1898) e o advogado autodidata, escritor e jornalista Luiz Gama
(1830-1882), entre outros.
"A
questão da suposta perda de importância da data do 13 de maio não tem a ver com
Isabel ser uma personagem branca. Até porque tínhamos muitos outros personagens
negros em 1888 e que lutavam pelo fim da escravidão, como José do Patrocínio e
André Rebouças, e as lembranças das ações [judiciais] de Luis Gama — três
homens negros", reconhece a historiadora Renata Figueiredo de Moraes,
professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
"A
perda do protagonismo da data na luta de homens e mulheres negros se deu ao
longo das décadas numa sociedade que quis apagar a escravidão do seu passado e,
consequentemente, seus descendentes", defende ela.
E o
movimento da Consciência Negra, que trouxe à tona o significado do 20 de
novembro, acabou portanto sendo consequência dessa desvalorização. "A
falta de direitos sociais, políticos, a falta de garantias de acesso à educação
e moradia que os libertos pela lei do 13 de maio sofreram causaram uma
ressignificação da data ao longo das décadas, além de uma conjuntura política
que favorecia personagens de luta e enfrentamento, como Zumbi dos
Palmares", explica a historiadora.
"Em
plena ditadura militar e no período da redemocratização, fazia mais sentido
evocar o guerreiro Zumbi, o resistente, do que Isabel, que assinou a lei, uma
vez que ela não esteve na linha de frente do processo abolicionista",
conclui ela.
"Não
podemos esquecer que, na formação do Estado nacional brasileiro, todo o
protagonismo, inclusive ao longo do século 20, caiu em torno de pessoas
brancas", ressalta o historiador Reis. "Quando você pensa um quilombo
e toda a sua luta, você coloca em xeque essa história."
Valorização dos abolicionistas negros
Nos
mesmos velhos livros de história que celebravam o protagonismo de Isabel, os
personagens negros abolicionistas ou nem sequer eram mencionados, ou apareciam
de forma muito rasa — muitas vezes sem mesmo citar que eram negros.
Nos
últimos anos, eles vêm sendo redescobertos e valorizados. Luiz Gama é um
exemplo: tema de vários livros recentes, foi até reconhecido em 2015, como
advogado, com carteirinha e tudo, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) — o
único caso póstumo da entidade.
"Nas
duas duas décadas, a historiografia brasileira e a historiografia
afrobrasileira têm buscado pensar e problematizar o 13 de maio não apenas como
uma vitória magnânima de Isabel, mas como uma virada de página importante
porque, de fato, encerra a escravidão, acaba com a escravidão", diz
Azevedo.
Mas,
conforme destaca o professor, hoje se reconhece que esse movimento só foi
possível "porque outros atores [além da princesa] foram bastante
importantes na derrocada da escravidão: os abolicionistas, evidentemente,
inclusive negros, foram figuras essenciais na elaboração de uma narrativa e um
postura crítica contra a escravidão".
Foram
eles que disseminaram a consciência de que tal regime "desumanizava a população
escravizada", segundo pontua Azevedo.
"E,
evidentemente [devemos levar em conta] os próprios escravizados com suas
resistências à escravidão, provocando revoltas e insurgências contra o regime
escravocrata", diz ainda.
Ao
reconhecer esse contexto todo, o protagonismo de Isabel é diminuído. "A
história oficialesca reservou a ela o papel de principal personagem [da
abolição]", completa Azevedo. "Deve-se atribuir ao 13 de maio um
outro conceito, levando o protagonismo aos escravizados e abolicionistas."
"Mas
ainda que se repense o 13 de maio, não devemos de maneira alguma jogar para
escanteio ou reduzir a importância do 20 de novembro", acrescenta. "O
20 de novembro tem uma importância política do ponto de vista da reivindicação
dos direitos e plena cidadania aos negros e negras brasileiros, da crítica ao
racismo e à violência e brutalidade do Estado contra jovens negros nas
periferias, favelas e outras comunidades vulneráveis no Brasil."
O que foi o 13 de maio?
Depois
de seis dias de acalorados debates no Congresso Nacional, em 13 de maio de 1888
a lei de número 3.353 foi sancionada pela princesa Isabel, então no posto de
regente imperial do Brasil — seu pai, o imperador dom Pedro II (1825-1891)
estava em viagem ao exterior.
"Declara
extinta a escravidão no Brasil", dizia o texto da lei, com apenas dois
artigos. O primeiro expressava: "é declarada extinta desde a data desta
lei a escravidão no Brasil". O segundo: "revogam-se as disposições em
contrário".
Para
Rezzutti, é preciso situar o 13 de maio exatamente como ele foi, sem criar um
mito de redenção, mas também sem desprestigiá-lo. "[Foi] uma lei que
encerrou oficialmente a escravidão no Brasil e na qual uma mulher, como regente
do império, ciente de como operar a política da época, conseguiu em tempo
recorde passar a legislação, manobrando as alavancas do poder moderador entre a
queda de um presidente do gabinete de ministros e a subido de um outro",
contextualiza ele.
"Ao
contrário do que se tenta afirmar erroneamente, não havia pressão da
Inglaterra, naquele período. Dona Isabel não 'se aproveitou' de que o pai
estava viajando para acabar com a escravidão sem que ele soubesse. Nem diversas
outras inverdades que uma guerra de versões atual tenta emplacar",
ressalta ele.
Para a
historiadora Moraes, a data "deve ser vista como um passo essencial para o
fim da escravidão". "A existência de uma lei, mesmo que curta, foi
fundamental para acabar com as possibilidades da permanência da escravidão nos
anos seguintes, quando revogou no seu segundo artigo as leis anteriores",
ressalta.
"O
fim da escravidão foi a vitória de um passado de lutas de muitos homens e
mulheres escravizados e seus descendentes e de parte da sociedade que não
compartilhava dos valores da escravidão. A data pode ser vista como um momento
para relembrar essa luta, que acabou com a assinatura da lei, e que ao mesmo
tempo iniciou outra batalha, a por direitos políticos, sociais e
culturais", explica ela.
"Atualmente
o 13 de maio é o dia nacional de denúncia contra o racismo. Mais do que nunca é
uma data de suma importância, principalmente nos últimos anos com o aumento da
violência racial no Brasil e no mundo."
O
historiador Reis afirma não ver "nenhum problema em colocar à tona o 13 de
maio como data comemorativa", mas ressalta que o feito não foi apenas da
princesa Isabel, "apesar de ter sido construída uma memória sobre
isso".
"É
uma das datas da luta do movimento negro pela sua libertação. Não deve ser
abolido, até porque faz parte de um processo, um conjunto de outras leis que
extinguiram a escravidão no país, de forma gradual", afirma, citando as
leis Eusébio de Queirós, de 1850 — que proibiu o tráfico negreiro —, do Ventre
Livre, de 1871, e a do Sexagenário, de 1885.
"E
isso tudo não foi feito exclusivamente por líderes políticos, mas por muitos
intelectuais, jornalistas, pessoas da sociedade civil, que tiveram um papel
para pressionar o governo para que isso fosse levado a cabo", acrescenta.
"[O
13 de maio] é uma data que tem de ser colocada nesse processo de luta, mas é
preciso que se reconheça que existem uma série de fissuras", diz Reis.
Terceiro reinado?
Se
houvesse um terceiro reinado, Isabel seria a sucessora natural de Pedro II. De
sua imagem anteriormente construída, como redentora e libertadora, as análises
mais recentes colocam a princesa como uma mulher que teve papel fundamental em
diversos momentos do império.
Houve
três momentos em que ela se tornou a regente do país, sempre por conta de
viagens do pai. Primeiro, de 1871 a 1872. Depois, de 1876 a 1877. Por fim, de
1887 a 1888. "Na primeira regência no trono, ela assinou a primeira lei
abolicionista, a Lei do Ventre Livre, pela qual foram libertados os filhos de
escravizados nascidos a partir da lei, mas também foram dadas outras providências,
como a liberdade para todos os escravos pertencentes à coroa e à nação.
Na
segunda regência dela, há a questão da grande seca no Ceará, em que ela vai
atuar tanto no governo quanto na sociedade para enviar ajuda para a região. Mas
essas e outras ações dela como regente foram eclipsadas pela Lei Áurea, que
acabou sendo utilizada pelos monarquistas e pelos defensores do Terceiro
Reinado, com ela à frente, na propaganda feita ao redor da princesa",
explica Rezzutti.
Autora
de um verbete que deve ser lançado neste dia 13 sobre a princesa Isabel para o
projeto Salvador Escravista, Moraes enfatiza que a monarca, "como toda
mulher do seu tempo", não foi criada para a política — mesmo sendo a
herdeira natural do trono.
"Nas
três vezes em que ocupou a regência não protagonizou grandes batalhas
políticas", diz a professora. "A perspectiva de um terceiro reinado
sob comando de Isabel existia, apesar de alguns se posicionarem contra por
temer que seu catolicismo interferisse nas suas ações, além também de acharem
que uma mulher fosse incapaz para essa função. O fato é que o terceiro reinado
não veio, mas a memória de redentora que fizeram sobre ela foi fundamental para
que mesmo na República fosse lembrada e celebrada por aqueles que a viam como
responsável pela abolição."
Reis
pontua que havia uma resistência de setores da aristocracia sobre um terceiro
reinado, "pelo fato de ser uma mulher assumindo o trono" e também
porque seu marido, Gastão de Orléans (1842-1922), o Conde D'Eu, "não era
bem visto pela elite, não era sociável".
"Mas
havia toda uma questão pensada para que ela assumisse o trono, se tornasse a
imperatriz do Brasil oficial [quando Pedro II morresse]", pontua o
historiador. "Quando ela ocupava o posto de regente, tentava segurar o
apoio para que a monarquia se sustentasse, com ações pontuais em contatos com o
Senado."
O que veio depois foi uma construção memorialística, movida por interesses políticos. "Essa imagem de redentora, salvadora e afins, é um processo que partiu de determinados grupos", enfatiza Reis.
(BBC)







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