NO PRINCÍPIO:
No Rio de Janeiro,
após 1808, ano em que dom João VI invadiu nosso paraíso arrastando milhares de
fujões, havia trabalhadores conhecidos como “tigres” ou “tigrados.” A
especialidade deles era recolher nas manhãs, das casas dos “nobres”, barris
repletos de fétidos dejetos e os despejar nas águas do mar.
As listras claras
desenhadas pelos líquidos que desciam pelas costas daqueles humanos, lembravam
o exótico animal. Como escravos, eles não tinham voz e aceitavam sua desdita em
silêncio. A população livre entrava com os aplausos. Aquilo era normal.
NO SÉCULO XX:
Até os anos 1.970,
as trabalhadoras domésticas eram recrutadas no campo e, salvo exceções,
mantidas nas casas em regime de semiescravidão. Somente no ano de 2013, com a
“PEC das Domésticas” elas adquiriram alguns direitos, o que causou revolta em
muita gente e ainda hoje, são burlados pela maioria. Continuava a normalidade.
NO ANO DE 2022:
Segundo dados do
UOL, 27 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza e cerca de 90% dos
brasileiros ganham menos de três salários mínimos. O IBGE relata que 19,10
milhões de pessoas passam fome. São valores que bloqueiam a essa multidão, o
acesso a cinemas, praias, viagens, cerveja...Sorvete para os netos...
Os deficientes são
ignorados, e a cultura é relegada. Os afro-brasileiros e os índios são
massacrados. Os descendentes dessa gente sofrida, à margem de quase de tudo o
que a vida moderna oferece, continuam nas periferias, à beira dos abismos e
desprotegidos da vingança da Natureza. Sem perspectivas, matam-se todos os
dias, numa corrente sem fim de violência,
SILÊNCIO E
VIRULÊNCIA: .
Parte da classe
média se engalfinha nas redes sociais, postando ou repassando postagens grosseiras,
repletas de rancor, mentiras em tentativas de resgatar ideias já em extinção,
como nazismo e comunismo. Através da eletrônica, enchem os baldes como era
feito pelos príncipes.
Com contribuição
das pestes, aprofunda-se a cada dia o abismo social. O mais triste, é que de um
modo geral, temos consciência disso e não discutimos a sério, as formas de
evitarmos mais uma previsível catástrofe.
Na verdade, desde
o princípio, tudo isso é anormal, cruel e deplorável, mas somos os mesmos de
1.808.
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