Presentes
eróticos para comemorar o aniversário de Putin, no poder na Rússia há mais de
duas décadas, são apenas um elemento da exaltação pública costumeira a uma
característica central na personalidade do líder russo. Putin se tornou um
modelo de virilidade e masculinidade a inspirar políticos ao redor do mundo,
como o americano Donald Trump, o húngaro Viktor Orban e o brasileiro Jair
Bolsonaro, que embarcou nesta segunda-feira (14/2) para Moscou com objetivo de
se reunir com o chefe de Estado russo.
Além
do episódio do helicóptero dos bombeiros, Putin já se deixou fotografar em uma
série de situações másculas. Derrubou adversários num tatame em lutas de judô.
Examinou os dentes de um urso polar no Ártico e de um tigre na Sibéria, ambos
anestesiados. Pilotou um submarino e um barco e voou em uma espécie de asa
delta motorizada. Posou de rifle em punho (e sem camisa) durante caçada na
Sibéria. Surgiu de dorso nu em cavalgadas e pescarias. Preparou um churrasco. Exibiu-se
com uma pistola em um estande de tiro ao alvo. Ou apenas apareceu em roupas
esportivas enquanto treinava os músculos do peitoral, na academia.
Nenhum
dos registros foi fortuito, fruto do trabalho de fotógrafos paparazzi. "É um
trabalho de imagem pensado e executado pelo Kremlin. E, como a internet ainda é
largamente livre na Rússia, se algo escapa ao controle e ofende ou desagrada, o
governo russo pune", disse à BBC News Brasil Valerie Sperling, professora
da Clark University, em Massachussets, e autora do livro Sex, Politics and Putin (Sexo, Política e Putin, em
tradução livre).
Com
altas taxas de popularidade, mesmo quando descontada a possível coerção sobre a
população em um regime crescentemente autoritário, especialistas argumentam que
Putin deve ao menos em parte ao perfil "machão" a admiração que
inspira nos russos.
'Potência
masculina mundial'
Ao
chegar ao poder, no fim dos anos 1990, Putin passou a comandar um país que
tentava se reerguer dos escombros da União Soviética. O bloco soviético
implodira em 1991, e os russos se viam diante de questionamentos de identidade
profundos, tendo que se acostumar ao capitalismo, lidar com o fracionamento do
território e com a perda do status de potência global.
"Havia
uma sensação de derrota generalizada, uma instabilidade econômica forte, com a
desvalorização da moeda russa, e a derrota na Guerra Fria. A fragilidade era
ainda mais evidente entre os pais de família russos, gente em seus 30, 40 e 50
anos que tinha perdido suas economias e seus empregos, que já não conseguia
mais sustentar a família enquanto via jovens enriquecendo em novos negócios, e
que era alvo de abertas críticas, por sua ausência na vida familiar, por
violência doméstica e por problemas como o alcoolismo", afirma Amy
Randall, professora de História da Santa Clara University, na Califórnia, e
organizadora da edição especial "Masculinidades soviéticas", da
publicação acadêmica Estudos Russos em História.
De
acordo com Randall, a humilhação e o constrangimento russos perante o mundo nos
anos 90 acabaram personificados pelo então líder do país, Boris Yeltsin,
flagrado bêbado e em atitudes embaraçosas em eventos internacionais. Ele chegou
a fingir que regia uma orquestra em uma solenidade militar e deu declarações
sobre o desejo de desarmamento nuclear russo depois de passar da conta na
bebida, tendo que ser desmentido por seus auxiliares.
Relativamente
desconhecido do grande público, Putin surge no cenário político russo pelas
mãos de Yeltsin, a quem viria a suceder. "Putin oferece aos russos essa
imagem sóbria de agente durão, das artes marciais, egresso da KGB (o serviço
secreto soviético). Se apresenta como o homem que iria levantar a Rússia, então
de joelhos, e reestabelecer sua força no cenário internacional", diz
Sperling.
É
claro que não só de imagem se construiu a trajetória de Putin. Sob seu comando,
o Exército russo retomou o controle da Chechênia, invadiu a Geórgia e anexou a
Crimeia. Agora, o país vive às voltas com a possibilidade de um conflito armado
com a Ucrânia. Desde o fim do ano passado, Putin mantém mais de cem mil
soldados na fronteira entre os dois países e exige que a Ucrânia não seja admitida
na Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN, uma aliança militar
liderada por EUA e Europa Ocidental que Putin vê como ameaça à segurança de seu
país.
"Sob
a liderança de Putin, a Rússia tem se estabelecido como uma potência masculina
mundial, exibindo sua virilidade política, sua independência econômica e seu
poderio tecnológico e militar. Putin deve sua popularidade - e sua habilidade
de se manter por tanto tempo no poder - a mecanismos como seu nacionalismo
masculinizado, à ambição de fazer a Rússia grande outra vez, ao seu uso de
ideais patriarcais e à noção das diferenças de papéis sociais entre gêneros,
além da aberta homofobia", afirma Randall, segundo quem Trump tomou seu
slogan ("fazer os EUA grandes outra vez) de empréstimo de Putin.
Melhores qualidades masculinas'
Foi
a partir dessa perspectiva que Putin disse, em novembro de 2020, que Jair
Bolsonaro apresentava "as melhores qualidades masculinas" no comando
do Brasil. O elogio aconteceu durante o discurso do mandatário russo no
encontro dos BRICS, bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do
Sul, e fazia referência ao modo como Bolsonaro lidou com a pandemia de
covid-19.
"Você
até foi pessoalmente infectado por essa doença e resistiu à provação com muita
coragem. Sei que aquele momento não deve ter sido fácil, mas você o encarou
como um verdadeiro homem e mostrou as melhores qualidades masculinas, como
força e força de vontade", disse Putin, segundo transcrição que o próprio
governo brasileiro postou.
No
léxico de Putin, esse é um elogio típico de quem pretende agradar e conhece bem
o interlocutor. Bolsonaro já repetiu a performance de Putin em situações
altamente fotografáveis: ele nadou em mar aberto, comandou motociatas, praticou
tiro ao alvo, pilotou uma churrascada, jogou futebol, deu cavalo de pau em
carro de competição. Quando a covid surgiu, disse que, no seu caso, uma
eventual infecção seria leve "graças ao seu histórico de atleta".
Mas,
de acordo com Sperling, "apenas mostrar que é durão não esgota as possibilidades
de obter legitimidade política a partir da masculinidade".
Ela
afirma que as demonstrações públicas de tais habilidades costumam se somar
também com questionamentos sobre a masculinidade dos oponentes. "E isso é
feito, por exemplo, sugerindo que seu adversário não é homem o suficiente, ou é
gay, ou ainda dizendo que a mulher dele é feia, não desejável", diz
Sterling, que mapeou o comportamento masculino em diferentes líderes mundiais.
Há
uma semana, Putin chamou a atenção do mundo com uma declaração em que censurava
o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, crítico dos acordos de paz de Minsk.
"Goste ou não, minha linda, você tem que aturar", disse Putin, usando
uma expressão em feminino para se dirigir ao líder da Ucrânia. Já Bolsonaro, no
auge de suas discussões com o presidente Emmanuel Macron acerca das queimadas
na Amazônia, em 2020, republicou uma postagem que comparava a primeira-dama
Michelle Bolsonaro, de 39 anos, com Brigitte Macron, de 68. A postagem dizia:
"entende agora por que Macron persegue Bolsonaro?". E o próprio
presidente comentava "Não humilha, cara Kkkkkk".
Outra
tática comum é fazer "piadas" com estupro e misoginia. Em 2014, em
discussão com a colega Maria do Rosário, do PT, o então deputado Jair Bolsonaro
afirmou que "Jamais estupraria você, porque você não merece." Bolsonaro
explicou que Rosário seria feia demais para seu gosto. Já Putin, em 2006, teria
dito a um repórter israelense, a propósito de acusações de estupro contra o
então presidente de Israel Moshé Katsav: "Diga olá a seu presidente. Ele
se mostrou um sujeito muito poderoso. Estuprou dez mulheres. Estamos todos
surpresos. Todos o invejamos". Depois da repercussão negativa do episódio,
o Kremlin culpou uma falha na tradução pelo teor do comentário.
Em
2014, quando a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, comparou a
invasão da Crimeia ao assalto do alemão Adolf Hitler sobre a Polônia, Putin foi
sucinto: "Melhor nem discutir com mulheres". Disse ainda que o
comentário de Hillary revelava "fraqueza". E que "fraqueza não é
algo necessariamente ruim em mulheres". Já Bolsonaro, em 2017, afirmou
sobre sua filha Laura: ""Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens,
aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".
Sperling
nota que esse tipo de recurso à masculinidade para legitimar - ou deslegitimar
- políticos não é uma exclusividade da direita. Mas que talvez fique mais
evidente entre políticos direitistas cuja pauta é socialmente conservadora,
categoria em que tanto Bolsonaro quanto Putin se enquadram.
Putin
se coloca como feroz defensor da família nuclear tradicional. "Quanto a
esse papo de 'pai número 1' e 'pai número 2', já falei publicamente sobre isso
e vou repetir novamente: enquanto eu for presidente isso não vai acontecer.
Haverá papai e mamãe", disse Putin, em 2020. Em 1997, quando era deputado,
Bolsonaro afirmou: "ninguém gosta de gay. A gente suporta".
Ao
contrário do Brasil, no entanto, na Rússia o casamento homossexual é ilegal.
Casais homoafetivos também não podem adotar crianças em conjunto. Se feita, a
adoção é registrada apenas no nome de um dos pais.
Quanto
à questão da violência doméstica, no Brasil, a Lei Maria da Penha completou 15
anos. Já na Rússia, a agressão de companheiros contra mulheres foi
descriminalizada em 2017. A partir de então, apenas agressões dos maridos que
provoquem graves lesões corporais nas esposas são passíveis de punição legal. A
mudança legislativa representou um ganho do governo Putin, que tem ficado cada
vez mais conservador com o passar dos anos.
"Putin
e Bolsonaro se admiram e juntos reforçam esse senso de orgulho em relação à
masculinidade. Bolsonaro tem claramente tentado emular Putin em suas posturas
misóginas e homofóbicas, e em sua confrontação de lideranças europeias e
multilaterais. Ele claramente vê em Putin um homem forte. E essa imagem do
homem forte tem se tornado mais e mais popular e prevalente no mundo
atual", diz Randall.
(BBC)
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