Segundo dados da Last Beach
Cleanup, organização ambientalista sediada na Califórnia, até outubro do ano
passado, os EUA haviam enviado mais de 89.824.167 kg de resíduos plásticos para
os países da região, alguns dos quais receberam o dobro do que em 2020.
A situação levou a plataforma
ambiental Gaia, que reúne 130 organizações da América Latina e do Caribe, a
publicar um comunicado em dezembro passado exigindo que os governos da região
atuem no que considera uma emergência.
"Alertamos que estamos
diante de um perigo iminente de contaminação da natureza e violação dos
direitos das comunidades de viver em um ambiente seguro para sua saúde e a de
seus territórios", diz o comunicado.
O principal destino das
exportações de resíduos plásticos é o México, que de janeiro a outubro de 2021
recebeu cerca de 60.503.460 kg, o que equivale a cerca de 57 contêineres por
dia.
No entanto, toneladas de lixo
também foram enviadas durante 2021 para Argentina, Bolívia, Brasil, Chile,
Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, Guatemala, Panamá,
Paraguai, Peru, República Dominicana e até Venezuela.
No Brasil, houve uma queda na
quantidade de lixo enviada dos EUA, segundo o relatório da Last Beach Clean Up:
foram 481 toneladas nos primeiros dez meses de 2021, contra 1,7 mil toneladas
em todo o ano de 2000.
"E não é apenas uma questão
de tamanho ou população. É que esses países, na maioria dos casos, já têm problemas
suficientes para lidar com seu próprio lixo e processá-lo para ter que lidar
também com lixo plástico dos EUA", acrescenta.
É o caso de países como Honduras,
que teve conflitos ambientais com a Guatemala devido à questão do lixo e que
até novembro de 2021 recebeu 6.127.221 kg de resíduos plásticos, mais que o
dobro dos 2.250.593 kg recebidos em todo o ano de 2020.
El Salvador, que tem poucos
centros de processamento de lixo, recebeu cerca de 1.932.206 kg apenas em
novembro de 2021.
Para os ambientalistas, a grande
questão é o que acontece ou para onde vai o lixo enviado para esses países.
O novo lixão
De acordo com María Fernanda
Solís, especialista em questões ambientais da Universidade Andina Simón
Bolívar, no Equador, embora as exportações de resíduos plásticos dos EUA para a
América Latina venham acontecendo há anos, elas começaram a aumentar com o
anúncio da China de que deixaria de receber esses resíduos.
"Em 2018, a China decidiu
deixar de ser o lixão do mundo, e foi aí que os EUA encontraram uma via de
escape na América Latina", diz a especialista.
"Com governos enfraquecidos
e marcos regulatórios, normativos e jurídicos fracos como em nossos países, a
região é um cenário perfeito para importações gigantescas de resíduos
plásticos", diz.
Segundo Dell, outros contextos
específicos contribuíram para os recordes alcançados no último ano.
"As exportações de resíduos
plásticos dos EUA para a América Latina aumentaram fortemente em 2021 em
comparação com 2020 e acho que isso se deve às restrições de importação mais
rígidas que impuseram na Turquia e na Ásia, mas também pode ser devido à crise
de contêineres, que aumentou significativamente o custo do envio de resíduos
dos EUA para a Ásia", diz ela.
A principal razão das exportações,
segundo a especialista, é porque é mais fácil (e mais barato) para as empresas
americanas enviar o lixo para outros países do que processá-lo e ter que lidar
com as regulamentações ambientais americanas ou com os altos custos dos poucos
centros de processamento nos EUA.
"No fim das contas, é uma
questão de dinheiro. É muito mais barato colocar resíduos plásticos em
caminhões e enviá-los em um contêiner para o exterior do que ter que pagar para
ir para um aterro sanitário. É mais fácil enviar nosso lixo para outro lugar e
'todos vivemos felizes para sempre'", diz ela.
"Além disso, há também o
fato de que produzir plástico hoje é muito mais barato do que reciclá-lo.
Então, não é um negócio que traga benefícios para as empresas americanas, é
mais barato mandar para outro lugar."
O mercado do lixo
Segundo Solís, esses contextos
transformaram o lixo em um negócio para empresas não estatais em toda a América
Latina.
"Geralmente são empresas
privadas que importam esses resíduos em convênio direto com empresas americanas
ou municípios americanos", diz.
"No caso do Equador, por
exemplo, recebemos anualmente dos EUA a mesma quantidade de lixo que 40 de
nossas cidades produziriam. Ou seja, 20 empresas no Equador importam dos EUA a
mesma quantidade de lixo plástico que 40 cidades em nosso país produzem."
No entanto, a prática é polêmica,
já que grupos e especialistas ambientalistas denunciam que essas empresas se
aproveitam de algumas brechas para importar lixo que não deveriam poder... pelo
menos não legalmente.
Muitas das nações
latino-americanas que recebem esses resíduos são signatárias da Convenção de
Basileia, que regulamenta a importação de resíduos plásticos.
"No entanto, em nossos
países existem mecanismos, brechas e buracos negros legais para permitir que
esses resíduos continuem entrando, apesar de esses países serem signatários
desses acordos internacionais e, portanto, a entrada desses resíduos constitui
uma violação desses tratados internacionais", diz Solís.
Segundo a acadêmica, a pesquisa
realizada mostra que uma das formas como isso ocorre é que, geralmente, quando
esse resíduo é importado, é feito com o rótulo "matéria-prima", o
que, segundo ela, é uma forma para "disfarçar" o conteúdo.
"Na maioria dos países, a
alfândega mal verifica esses carregamentos de lixo, então é muito difícil
regular o que entra", diz ele.
Mas, para ela, há um aspecto
ainda mais preocupante.
"O que os estudos mostram é
que, na realidade, mais de 50% do lixo plástico que chegam até nós não pode ser
processado, porque está contaminado. Então, acaba sendo enterrado, abandonado
em córregos, rios ou aterros", aponta.
A especialista diz que várias
investigações realizadas mostram que as autoridades não dão seguimento a estes
resíduos depois de saírem dos portos, e que não existe um controle sobre o que
acontece com este lixo, como ele é processado ou para onde vai parar.
Impactos ambientais e humanos
Os envolvidos no negócio do lixo
na região alegam que o mercado de importação de resíduos plásticos é fonte de
emprego para milhares de pessoas, além de contribuir para a "economia
circular" e a reciclagem de matérias-primas.
No entanto, os ambientalistas
acreditam que, na prática, a realidade muitas vezes é bem diferente.
Dell ressalta que, por não ser um
processo fiscalizado pelas autoridades, há denúncias de que muitas dessas
empresas não só pagam salários baixos a seus trabalhadores, como também não
lhes oferecem condições de trabalho seguras ou proteção adequada.
Várias reportagens da imprensa
local relataram nos últimos anos pessoas trabalhando no lixo sem sequer usar
luvas. Algumas dessas empresas foram acusadas de usar trabalho infantil.
"Tem a dimensão ambiental, o
dano que se faz ao meio ambiente quando esse lixo é levado para países que não
têm condições para o seu processamento ou que já têm muitos problemas com o
próprio lixo, mas também a dimensão humana, os perigos de não ter
regulamentação ou fiscalização sobre o trabalho feito por milhares de pessoas
que entram em contato com esse resíduo", diz Dell.
Problemas ambientais
Dell e Solís concordam que a
maioria dos países da região sofre com dificuldades de processamento e descarte
de seu próprio lixo, por isso é um problema a mais para eles "ter também
que arcar com a responsabilidade pelo lixo dos EUA".
"Além do fato de que esse
resíduo pode ir parar em qualquer lugar ou ser queimado e gerar gases tóxicos,
seu processamento também demanda grandes quantidades de água, o que faz com que
muitas comunidades vejam seu acesso à água afetado", diz Dell.
A engenheira explica que essa é
uma das grandes preocupações do norte do México, que tem sérios problemas de
escassez de água e é a área que mais recebe lixo por estar tão próxima da
Califórnia, Texas e
Novo México.
Solís, por sua vez, acredita que
o problema virou uma questão de Estado, já que às vezes são os governos que
acabam por arcar com o custo do descarte do lixo.
Na sua opinião, essa situação
reproduz mecanismos coloniais de décadas anteriores.
"As expressões do
colonialismo evoluíram e agora também se expressam desta forma: na exportação
de grandes quantidades de resíduos plásticos contaminados para o sul, que
acabam por transformar esses territórios em zonas de sacrifício", diz.
"É mais uma ocupação
colonial, uma espécie de imperialismo do lixo, e como consequência estão
gerando todo tipo de impactos ambientais nas comunidades cujas consequências
mais graves ainda não foram vistas", conclui. (BBC)
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