O prêmio
é concedido, em parceria, por Brasil e Portugal. Além do diploma, Chico levou a
quantia de 50 mil euros de cada um dos países, algo em torno de R$ 650 mil. Em
seu discurso no Palácio de Queluz, onde Dom Pedro I nasceu e morreu, Chico
disse que se reconforta ao "lembrar que o ex-presidente [Jair Bolsonaro]
teve a rara fineza de não sujar o diploma do prêmio".
"Conforta-me
lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu
Prêmio Camões, deixando espaço para a assinatura do nosso presidente Lula.
Recebo esse prêmio menos como honraria pessoal e mais como desagravo a tantos
autores e artistas humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e
obscurantismo."
Chico
também comemorou ter recebido o prêmio da véspera do aniversário da Revolução
dos Cravos, que pôs fim à ditadura fascista em Portugal no dia 25 de abril de
1974. Ele se referiu ao governo Bolsonaro como “um tempo em que o tempo parecia
andar para trás”.
"Valeu
a pena esperar por esta cerimônia, marcada não por acaso para a véspera do dia
em que os portugueses descem a Avenida da Liberdade a festejar a Revolução dos
Cravos. Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me
perguntava se me haviam esquecido, ou, quem sabe, se prêmios também são
perecíveis, têm prazo de validade. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam
às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que
se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma
eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás",
discursou.
O
compositor lançou seu primeiro livro de ficção, "Fazenda Modelo", em
1974. Três anos mais tarde, publicou o livro infantil "Chapeuzinho
Amarelo". O primeiro romance, "Estorvo", foi lançado em 1991.
Ele também escreveu "Benjamin", em 1995. Nos anos 2000, o artista
lançou "Budapeste" (2003) e "Leite derramado" (2009). Seu
último romance foi "Irmão Alemão", de 2014.
Para o teatro, Chico escreveu as peças "Roda Viva" (1968);
"Calabar" (1972); "Gota D’Água" (1974), e "Ópera do
Malandro" (1978).
O artista
recebeu o prêmio na presença dos presidentes do Brasil e de Portugal, Luiz
Inácio Lula da Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro luso,
António Costa, dos ministros da Cultura dos dois países, Margareth Menezes e
Pedro Adão e Silva, e do presidente do júri, o escritor português Manuel Frias
Martins.
Presidentes
discursam
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva também discursou. O petista destacou que a
cerimônia de entrega corrige “um dos maiores absurdos cometidos contra a
cultura brasileira nos últimos tempos”.
"Hoje,
para mim, é uma satisfação corrigir um dos maiores absurdos cometidos contra a
cultura brasileira nos últimos tempos. Digo isso porque esse prêmio deveria ter
sido entregue em 2019 e não foi. Todos nós sabemos por quê. O ataque à cultura
em todas as suas formas foi uma dimensão importante do projeto que a extrema
direita tentou implementar no Brasil", ressaltou o chefe do Executivo.
Já Rebelo
de Sousa comparou o artista brasileiro a Bob Dylan, que ganhou o Prêmio Nobel
de Literatura em 2016. Segundo ele, Dylan é celebrado, mas sua obra é
principalmente musical. Já Chico Buarque, além da música, também fez obras
elogiadas na literatura e no teatro.
"Se
todos considerassem o cancioneiro de Chico parte integrante do nosso patrimônio,
em patamar que poucos se comparam, haveria de sentir alguma dissonância? Mesmo
aqueles que alegam deméritos técnicos para contestar o prêmio e as opiniões de
Chico, contestam as ideias de quem deu a cara contra a ditadura?",
questionou.
O
prêmio
O Prêmio
Camões de Literatura foi criado em 1988 pelos governos brasileiro e português,
com o objetivo de consagrar um autor de língua portuguesa cuja obra tenha
contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural lusófono.
O vencedor é escolhido por um júri composto por dois brasileiros, dois
portugueses e dois representantes dos demais países lusófonos (Angola, Cabo
Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste).
Em 34
edições, o prêmio contemplou nomes como os portugueses António Lobo Antunes e
José Saramago, o moçambicano Mia Couto e os brasileiros Jorge Amado, João
Cabral de Mello Neto, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Raduan Nassar.
O
discurso de Chico Buarque na íntegra
"Ao
receber este prêmio penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque
de Holanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa.
Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos
juvenis, que ele julgava sem complacência nem excessiva severidade, para em
seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira
literária.
Mais
tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso,
pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius
de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais
sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje
aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria
na assistência e ele cá no meu posto, a receber o Prêmio Camões com muito mais
propriedade.
Meu
pai também contribuiu para a minha formação política, ele que durante a
ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democrática, futuro Partido
Socialista Brasileiro. No fim dos anos sessenta, retirou-se da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em solidariedade a
colegas cassados pela ditadura militar.
Mais
para o fim da vida, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, sem chegar
a ver a restauração democrática no nosso país, nem muito menos pressupor que um
dia cairíamos num fosso sob muitos aspectos mais profundo.
O
meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu
tataravô, baiano. Tenho antepassados negros e indígenas, cujos nomes meus
antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa
maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador,
o que ajuda a nos explicar um pouco.
Recuando
no tempo em busca das minhas origens, recentemente vim a saber que tive por
avós paternos o casal Shemtov ben Abraham, batizado como Diogo Pires, e Orovida
Fidalgo, oriundos da comunidade barcelense. A exemplo de tantos cristãos-novos
portugueses, sua prole exilou-se no Nordeste brasileiro do século XVI.
Assim,
enquanto descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição, pode ser
que algum dia eu também alcance o direito à cidadania portuguesa a modo de
reparação histórica. Já morei fora do Brasil e não pretendo repetir a
experiência, mas é sempre bom saber que tenho uma porta entreaberta em
Portugal, onde mais ou menos sinto-me em casa e esmero-me nas colocações
pronominais.
Conheci
Lisboa, Coimbra e Porto em 1966, ao lado de João Cabral de Melo Neto, quando
aqui foi encenado seu poema Morte e Vida Severina com músicas minhas, ele, um
poeta consagrado e eu, um atrevido estudante de arquitetura. O grande João
Cabral, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, sabidamente não gostava
de música, e não sei se chegou a folhear algum livro meu.
Escrevi um primeiro romance, Estorvo, em 1990, e publicá-lo foi para mim como me arriscar novamente no escritório do meu pai em busca de sua aprovação. Contei dessa vez com padrinhos como Rubem Fonseca, Raduan Nassar e José Saramago, hoje meus colegas de prêmio Camões. De vários autores aqui premiados fui amigo, e de outras e outros – do Brasil, de Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde - sou leitor e admirador.
Mas
por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e
contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto em ser
reconhecido no Brasil como compositor popular e, em Portugal, como o gajo que
um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim.
Valeu
a pena esperar por esta cerimônia, marcada não por acaso para a véspera do dia
em os portugueses descem a Avenida da Liberdade a festejar a Revolução dos
Cravos. Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me
perguntava se me haviam esquecido, ou, quem sabe, se prêmios também são
perecíveis, têm prazo de validade.
Quatro
anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem
mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um
governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo
parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por
isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste no Brasil como um
pouco por toda parte.
Hoje,
porém, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente
teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu
espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula. Recebo este prêmio
menos como uma honraria pessoal, e mais como um desagravo a tantos autores e
artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e
obscurantismo.
Muito
obrigado!"
(Jornal do Brasil)

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