O país foi invadido em fevereiro de 2022 pela Rússia e passou a receber
doações de armamentos dos Estados Unidos e de nações europeias para sua defesa.
Em viagem à China em abril, Lula disse que esses doadores estariam, assim,
incentivando o conflito, enquanto esses governos argumentam que a Ucrânia seria
massacrada pela Rússia sem seu apoio.
Um porta-voz do governo americano chegou a dizer na ocasião que a
posição brasileira era “profundamente problemática” e que o país estaria
"papagueando (repetindo automaticamente) propaganda russa e chinesa"
sobre a guerra, acusação que Amorim classificou como algo “totalmente absurdo”.
Pressionado nos dois lados por grandes potências, a decisão de Lula de
agora enviar Amorim a Kiev é vista como uma forma de tentar reequilibrar a
posição do Brasil no conflito. O país tem defendido um “clube da paz” com
países neutros para mediar um acordo que interrompa a guerra, algo considerado
bastante difícil por especialistas.
Encontros entre autoridades brasileiras e russas já ocorreram em
abril.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi
recebido em Brasília por Lula e pelo chanceler brasileiro, Mauro Vieira, no dia
17. E pouco antes, no começo de abril, Celso Amorim esteve em Moscou, onde se
reuniu com o presidente do país, Vladimir Putin.
Apesar da pretensão brasileira de mediar negociações de paz entre os
dois lados, o secretário especial não esteve em Kiev na ocasião, o que gerou
críticas. Nesta terça, Lula disse esperar que Amorim traga de Kiev “indícios de
soluções”.
"Hoje (terça) Amorim chegou na Ucrânia. Ele já tinha ido à Rússia.
Espero que o Celso me traga não a solução, que ele me traga indícios de
soluções para que a gente possa começar a conversar sobre paz. A gente sabe o
que Putin quer, ele agora vai saber o que quer o Zelensky. Vamos ter
instrumentos para conversar com outros países e construir, quem sabe, a
possibilidade de parar essa guerra", afirmou o presidente, ao lado do
primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, que esteve em Brasília em visita
oficial.
Lula também voltou a condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia. Essa já
era a posição adotada formalmente pelo Brasil na ONU, ao apoiar resoluções
contra a violação do território ucraniano, mas passou a aparecer com mais
ênfase nas falas do presidente após o mal-estar com as potências ocidentais.
"Ucrânia não pode aceitar ocupação do território, tem que resistir.
União Europeia tem sua razão. Brasil e outros países têm sua razão de tentar
encontrar um meio-termo", disse ainda Lula nesta terça.
Relutância em visitar Kiev?
Lula e Zelensky conversaram por telefone no início de março, ocasião em
que o presidente brasileiro foi convidado a visitar Kiev. Apesar disso, Amorim,
ex-chanceler nos primeiros governos do petista e seu assessor direto para
assuntos internacionais hoje, optou por visitar apenas Moscou em abril.
Questionado a respeito, em uma entrevista ao canal GloboNews, Amorim
destacou a dificuldade de transporte até a capital ucraniana, em meio à guerra,
mas também criticou o caráter do convite ucraniano, que não seria focado em
dialogar, mas em mostrar os impactos da guerra no país.
“Estamos dispostos a conversar com quem quer que seja. Agora, cada vez
que surge um convite, não é um convite para conversar, é um convite para ir lá
ver a guerra. Nós sabemos que a guerra é uma coisa terrível. Nós vimos a guerra
do Vietnã, nós vimos as guerras no Afeganistão, vimos a invasão do Iraque,
vimos tudo isso. Não estou diminuindo a importância nem a tragédia do povo
ucraniano. Os convites são sempre dessa forma”, disse Amorim ao canal, citando
conflitos envolvendo os Estados Unidos.
A fala ocorreu no mesmo dia que o porta-voz do Ministério de Relações
Exteriores ucraniano, Oleg Nikolenko, reagiu às declarações de Lula na China em
uma publicação no Facebook.
Na postagem, ele reforçou o convite para Lula visitar seu país e
“compreender as verdadeiras causas e a natureza da agressão russa e as suas
consequências para a segurança global”.
Nikolenko também disse que a Ucrânia "observa com interesse"
os esforços do Brasil pela paz, mas criticou "a abordagem que coloca a
vítima e o agressor na mesma escala e acusa os países que ajudam a Ucrânia a
defender-se contra a agressão mortal de encorajar a guerra".
Na China, a fala de Lula havia sido: "É preciso que os EUA parem de
incentivar a guerra e comecem a falar em paz. É preciso que a União Europeia
comece a falar em paz pra que a gente possa convencer o Putin e o Zelensky de
que a paz interessa a todo mundo e a guerra só está interessando, por enquanto,
aos dois".
Antes, Lula já havia afirmado que a Ucrânia poderia ceder a Crimeia,
anexada pela Rússia em 2014, em nome da paz, proposta totalmente rechaçada por
Kiev.
O delicado equilíbrio brasileiro
A invasão russa à Ucrânia começou em 24 de fevereiro de 2022.
Um dos argumentos usados pelo lado russo para tentar justificar o ataque
seria impedir o que classifica de cerco à sua fronteira com a possível adesão
da Ucrânia à Otan — aliança militar de 30 países liderada por potências
ocidentais, que se expandiu pelo Leste Europeu, incluindo hoje 14 países do
ex-bloco comunista.
Putin acusa ainda, sem provas, o governo ucraniano de genocídio contra
ucranianos de origem étnica russa que vivem nas regiões separatistas de Donetsk
e Luhansk. Ele alega que a invasão tenta "desmilitarizar e
desnazificar" a Ucrânia.
Por outro lado, a Ucrânia e outros observadores veem na guerra uma
tentativa da Rússia restabelecer a zona de controle e influência da antiga
União Soviética, algo visto como desrespeito à soberania da Ucrânia, que
deveria ter o direito de decidir seu destino e suas alianças.
Passado mais de um ano do conflito, o governo russo é acusado de ter
cometido crimes de guerra, incluindo a deportação ilegal de crianças da Ucrânia
para a Rússia. Por causa disso, o Tribunal Penal Internacional (TPI)
emitiu em 17 de março um mandado de prisão contra o presidente da Rússia,
Vladimir Putin.
Em meio a esse delicado conflito, que divide grandes potências, o
Itamaraty tem mantido equilíbrio em suas posições na ONU. O Brasil apoiou, por
exemplo, duas resoluções das Nações Unidas contra a ação russa. A mais recente,
de fevereiro, condenava a invasão territorial ucraniana e exigia a imediata
retirada das tropas russas.
Essa resolução obteve 141 votos a favor, sete contra e 32 abstenções
entre os 193 Estados-membros da ONU. Os países que votaram contra o texto foram
Rússia, Belarus, Síria, Coreia do Norte, Eritreia, Mali e Nicarágua. Entre os
que se abstiveram estavam China, Índia, Moçambique, Angola e Cuba.
A posição brasileira foi coerente com sua tradição de seguir os
princípios previstos na Carta da ONU, de respeito à integridade territorial dos
países, de promoção à paz e de evitar agressões entre as nações. O documento,
assinado pelo Brasil em 1945, é o tratado que estabeleceu as Nações Unidas.
Por outro lado, o respeito à Carta também explica a decisão do Brasil de
não apoiar as sanções impostas pelas potências ocidentais à Rússia. Segundo a
interpretação do Itamaraty sobre esse documento, sanções internacionais só são
legais se aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU.
Países desenvolvidos, porém, discordam dessa interpretação e lembram que
não seria possível aprovar sanções no Conselho de Segurança contra a Rússia
porque o país é membro permanente e tem poder de veto.
"Ao Brasil interessa que sanções sejam limitadas ao mecanismo de
segurança coletiva porque não tem capacidade de aplicar sanções unilaterais e
teme ser alvo desse tipo de medida. Já os países poderosos não temem ser alvos
e são capazes de aplicar sanções dolorosas aos demais", disse à BBC News
Brasil um diplomata brasileiro.
(BBC)



Nenhum comentário:
Postar um comentário