O relatório, que foi
feito por jovens de várias regiões e situações de maior vulnerabilidade de
São Paulo, apresenta propostas para diminuir a violência contra a juventude.
Os
jovens que elaboraram o documento tinham entre 16 e 21 anos de idade e
foram divididos em três turmas, com cerca de 20 pessoas cada. Eles foram
ouvidos em rodas de conversa e outras atividades, onde puderam compartilhar
vivências e criar poesias e músicas sobre esses temas.
O projeto
foi executado desde março do ano passado e finalizado agora em maio. Ele foi
desenvolvido com três turmas, em média com 20 jovens de territórios de São
Paulo - na zona leste, em São Mateus, e na zona norte, na Brasilândia
-, escolhidos pela alta taxa de letalidade da juventude negra.
"Além
desses territórios, também escolhemos uma unidade da Fundação Casa, porque
entendemos que o público das medidas socioeducativas de internação teria muito
a contribuir no projeto”, explicou Vanessa Alves, psicóloga e
supervisora socioeducativa do Instituto Sou da Paz, em entrevista à Agência Brasil.
Um
dos jovens que participou da agenda foi Gabriel Souza, 19 anos,
conhecido como MC GS e que atualmente é segurança de eventos. Ele disse que
estava cumprindo medida socioeducativa na Fundação Casa [de onde saiu em
2022] quando decidiu participar do projeto. “Todas as propostas retratavam
tudo aquilo que eu passava na minha realidade dentro das periferias e também
dentro do perfil em que eu me enquadro, em ser um jovem negro”, acrescentou.
“No
começo, [o projeto] chegou a abranger várias perspectivas diferentes. Eles
relatavam o que a gente passava lá dentro, mas não era novidade, todo mundo já
havia visto isso [a violência] de perto. A maioria dos moleques que estava lá
internada já tinha presenciado essas coisas. Então, o que fizemos?
Fomos
além na proposta. A gente não só fez uma roda de debates sobre o que acontecia
dentro das comunidades, mas também montamos um plano para criar formas de
que essas coisas que aconteciam dentro das comunidades não voltassem a
acontecer”, afirmou.
Para
Gabriel, participar do projeto lhe deu responsabilidades e nova perspectiva de
vida. “Ter a oportunidade de participar de um projeto, evitando que amanhã
outras pessoas sejam vítimas da mesma violência que sofri, foi muito
satisfatório”.
Violência
Jovens
negros como Gabriel são as maiores vítimas de homicídios no país.
Segundo o Atlas da Violência, mais da metade (51,3%) dos 45.503
homicídios que ocorreram no Brasil em 2019 afetaram jovens
de 15 a 29 anos, sendo esses em sua maioria negros. No estado de São Paulo,
dados compilados pelo Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na
Adolescência, no relatório Vidas
Protegidas, de 2022, já mostravam que 53,81% das crianças e
adolescentes vítimas de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte
eram negros.
Para
discutir o tema da violência com os jovens e construir as propostas de
enfrentamento, o Instituto Sou da Paz fez uso de duas estratégias: oficinas
artísticas e pontos formativos, com participação de especialistas em
assuntos relacionados à segurança pública. “Usamos como expressões
artísticas a rima, o grafite e a percussão. Nessas oficinas
construímos propostas de enfrentamento à letalidade da juventude negra.
Por meio dessas ofertas, eles iam conseguindo nos dizer como achavam que seria
possível diminuir os índices [de letalidade]”, explicou Vanessa. “Eles
conseguiam nos dizer, por meio de suas próprias experiências de vida,
quais seriam as melhores formas de enfrentamento”.
Foi
assim que Gabriel Souza participou da cypher [música
gravada por vários MCs, que se alternam nas rimas] Paz na Favela, que está disponível em
plataformas de música, como Spotify e Youtube. Isso agora está
impulsionando sua carreira de MC.
“Como
eu ficava com a mente vazia, muito angustiado, a rima foi um meio, uma válvula
de escape para passar meu tempo, expor meus sentimentos e desabafar. Na minha
segunda internação, encontrei esse projeto do Sou da Paz e eles viram em mim um
potencial, minha facilidade com rimas e de me expressar por meio da música. E
fizeram a proposta de fazermos uma cypher,
a produção de uma música com vários MCs”.
Propostas
Entre
as propostas apresentadas por esses jovens para prevenir a violência está
o aumento dos canais de denúncia contra a violência policial, a
implementação de terminais de identificação digital nas viaturas e a
ampliação do uso de câmeras corporais em uniformes de policiais militares.
Essa proposta feita por jovens, inclusive, vai ao encontro dos resultados
de um relatório elaborado
pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fórum Brasileiro de
Segurança Pública (FBSP), divulgado ontem. O relatório demonstra que, após
a adoção das câmeras corporais pela Polícia Militar de São Paulo, o número de
crianças e adolescentes mortos em intervenções de policiais em serviço caiu
66,3% em 2022 na comparação com 2019, passando de 102 para 34 mortes.
“Um tema
recorrente nas três turmas e que chamou muito a atenção foi que eles
escolheram, já no início do projeto, falar sobre a violência das abordagens
policiais. Independentemente do território em que estavam, esses jovens
disseram que queriam discutir a temática porque tinham muitas dúvidas e
muito receio de como poderiam lidar ou enfrentar a violência decorrente
das abordagens policiais”, explicou Vanessa.
Os
jovens consultados pelo Instituto Sou da Paz também citaram, entre as
propostas, a ampliação das oportunidades de emprego formal e
de acesso à cultura e a transformação das escolas em ambientes mais
acolhedores. “Nas três turmas foram apresentadas ideias que diziam
muito sobre a prevenção à violência. Eles falaram sobre a importância de uma
escola mais acolhedora e que trabalhe, em seus conteúdos, temáticas de
diversidade, racismo, violências de gênero e direitos humanos. Também
destacaram a importância de jovens negros e periféricos acessarem
espaços de cultura e de lazer que abordem essas temáticas”, acrescentou.
Para
que o documento não se tornasse apenas um conjunto de ideias, as propostas
apresentadas pelos jovens foram analisadas por especialistas. “A gente
entendeu que só a apresentação das propostas nesse documento talvez não
trouxesse uma confiabilidade. Então, incluímos também dois pareceres técnicos
de especialistas falando sobre a importância das sugestões e a
viabilidade delas”, disse a psicóloga.
O
objetivo é que o documento amplie as discussões na sociedade sobre o
tema, possa ser encaminhado a diversas autoridades do país e
ajudena criação de políticas públicas de juventude e de segurança pública.
“A ideia é que esse material possa amplificar a voz da juventude para que
chegue a pessoas que têm poder de decisão”, afirmou Vanessa.
(Ag.
Brasil)

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