A intolerância é a principal
causa dos linchamentos que ocorrem em vários estados do Brasil, dizem
especialistas em comportamento humano, segurança pública e direito. Para a
pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São
Paulo, Ariadne Natal, os espancamentos são fruto da combinação da percepção de
Estado ineficiente, por parte da população, com uma tradição de desrespeito aos
direitos humanos.
“De um lado, [há] a percepção de
que o Estado não é capaz de prover segurança e justiça. Há uma percepção difusa
de uma parte da população de que a impunidade dá a sensação de medo, aumento da
criminalidade e a população se vê vulnerável. Então, há a percepção de que o
Estado é ausente e ineficiente. Além disso, há uma cultura de desrespeito aos
direitos humanos. A gente vive em um país em que há uma cultura de resolução de
conflito por meio do emprego da violência”, disse.
Conforme explica a pesquisadora,
as motivações variam, mas partem da ideia de que algumas regras foram quebradas
e, com isso, os suspeitos são alvo de ameaças ou de agressões físicas, que
podem ter um desfecho fatal. “O linchamento é uma espécie de controle social, é
uma espécie de punição ou pena dada à pessoa acusada de cometer um crime, não
necessariamente culpada, porque ali não tem uma investigação real, é com base
em indícios momentâneos.”
Ariadne Natal destacou que, em
geral, quando ocorre um linchamento não há qualquer base de investigação e a
imputação da responsabilidade se dá no calor dos acontecimentos. “Geralmente,
as falas são até desconexas. As pessoas que participam podem apontar razões
diferentes para o linchamento. É meio a história de telefone sem fio”,
comparou.
Na sua avaliação,
independentemente de a vítima ser inocente ou culpada, o espancamento é injusto,
ainda que a pessoa tenha culpa. “Trata-se de uma ação que não é para fazer
justiça, mas para fazer vingança”, completou.
Uma pesquisa do NEV, da qual
Ariadne participou, mostrou que as motivações que levam à intolerância e aos
linchamentos variam, mas a principal é um crime contra a vida, como casos de
homicídio ou latrocínio. A segunda motivação pode ser um crime contra o
patrimônio e a terceira, crime contra os costumes, que são os casos de estupro.
Na última quinta-feira (30), no
Grajaú, zona norte do Rio, um homem suspeito de assalto teve as mãos e os pés
amarrados por um grupo de pessoas e precisou ser encaminhado a um hospital. Lá,
ele negou ter praticado o crime. Ainda no Rio, na segunda-feira (27), outro
homem foi acusado de estupro e teve o rosto ferido. Também foi levado para
receber socorro médico. No mesmo dia, em Belo Horizonte, acusado de roubar um
celular, um homem foi detido, agredido e amarrado. No domingo (26), por ser
suspeito de tentativa de roubo, outro foi espancado e as consequências foram
trágicas. Ele morreu em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre.
Na semana passada, também se
transformou em tragédia o espancamento de um homem na Vila de Samuel, a 50
quilômetros de Porto Velho. Ele tentou estuprar uma jovem, matou o irmão dela
que tentava protegê-la e foi linchado até a morte. Na comunidade da Rocinha, na
zona sul do Rio, um homem foi espancado até a morte por 30 pessoas. Ele foi
acusado de agressão com uma barra de ferro a três pessoas de uma família, entre
elas, duas crianças.
Comportamento - Para o presidente da Associação
Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, o alto grau de
intolerância leva algumas pessoas a quererem fazer justiça com as próprias
mãos. “Como as pessoas estão com o estopim extremamente curto e a tolerância
está realmente muito baixa, elas não estão conseguindo lidar com mais perdas e
com tanta situação de incapacidade do Estado de atuar. E as pessoas estão
atuando de maneira errada e agressiva.”
O médico destacou que essas
reações representam um retrocesso no comportamento humano. “As pessoas estão
voltando à que época? Estamos voltando à Idade Média? Que violência é essa?”,
questionou.
Na avaliação do presidente da
ABP, a sensação de ineficiência do Estado, que leva à intolerância, acaba por
criar na população a necessidade de ter figuras de destaque que se tornam
celebridades, como o juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, e o
ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, que são festejados e aplaudidos, até em
atos comuns do dia a dia, como a ida a um restaurante ou a entrada em um avião.
“São vistos como superstar.
E o que eles fizeram? Nada, apenas atuaram, como deveria fazer um magistrado”,
acrescentou.
Crimes - Quem participa de um ato de
linchamento pode ser julgado e receber penas que chegam a 30 anos, dependendo
do tipo de crime e a consequência dele. O professor da Escola de Direito da
Fundação Getulio Vargas Thiago Bottino informou que se a vítima morrer, o
agressor será enquadrado em crime de homicídio doloso intencional. E a punição
se agrava se a vítima for aprisionada ou amarrada a um poste, por exemplo,
porque haverá ainda a qualificação por impedimento de defesa da pessoa. Caso
não haja morte, o crime é de tentativa de homicídio. Os acusados podem ainda
responder por lesão corporal com penas até 12 anos. Mesmo se o crime for
praticado por um grupo de pessoas, a polícia deverá prender e identificar todas
para que sejam processadas.
“O que a polícia tem que fazer é
prender a pessoa na hora em que estiver praticando o fato, para que vá a
julgamento”, esclareceu.
Legislação - O professor informou que não
existe um crime específico de linchamento, mas qualquer caso pode ser
enquadrado na legislação existente e nunca é sem intenção. “Ninguém lincha sem
querer, então, é sempre doloso e qualificado. A ideia de qualificação é porque
há algumas características que qualificam o crime". Se alguém é morto sem
que possa se defender, o crime é qualificado, quando várias pessoas se reúnem
para matar, é qualificado, se usa fogo é qualificado, explicou.
Na avaliação do advogado, a
legislação atual é suficiente. “O problema não é a legislação. O problema é
que, muitas vezes, a polícia não interfere, aceita e tolera. Na verdade, esse é
um comportamento completamente intolerável. É uma barbárie. O Estado não pode
deixar que as pessoas resolvam fazer justiça com as próprias mãos”, contou.
O professor destacou que os
suspeitos podem ser processados e só quem pode punir é o Estado. “Imagine se a
partir de hoje todo mundo que se sentir vítima de um crime puder sair fazendo
justiça pelas próprias mãos? Vai virar um caos. Não é a legislação que tem que
mudar, o problema é a cultura das pessoas e o funcionamento da polícia”,
avaliou. (Ag. Brasil)
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