Pode
parecer estranho acordar e logo começar a conversar consigo mesmo, repetindo
frases como “Meus braços e pernas estão pesados. Meus braços e pernas estão
aquecidos. Meu coração está calmo e batendo normalmente”. Mas
este é exatamente o tipo de pensamentos enunciados pelas pessoas que praticam o
treinamento autógeno – uma terapia de auto-sugestão que, acredita-se, reduz o
estresse e melhora a concentração.
Em
sessões de 15 minutos ou menos, o praticante segue uma espécie de roteiro,
mentalizando diferentes partes do corpo e instruindo músculos – como os do
pescoço, dos braços e das pernas – a relaxar e se reoxigenar.
Especialistas
acreditam que quem se dedica à terapia regularmente por longos períodos de
tempo consegue entrar em relaxamento profundo ao se concentrar em alguma parte
do corpo e repetindo uma das frases.
Katja
Engelskirchen, ex-executiva que procurou o treinamento autógeno após uma crise
e hoje dá aulas da terapia nos arredores de Frankfurt, na Alemanha, recomenda o
método para pessoas que estão procurando maneiras de contrabalançar o estresse
psicológico, espantar preocupações ou ter mais controle sobre uma vida
sobrecarregada. O
treinamento autógeno foi criado nos anos 1930 por Johannes Heinrich Schultz,
psiquiatra alemão que estudou hipnose clínica e técnicas de meditação oriental.
Segundo especialistas, a terapia ajuda as pessoas a relaxar
profundamente em um curto período de tempo porque elas se condicionam a
responder a suas próprias instruções verbais. Na
Alemanha, o método é tão popular que suas primeiras noções já são ensinadas a
crianças em idade pré-escolar.
Fácil de fazer - Uma
das vantagens do treinamento autógeno é que os exercícios podem ser feitos na
mesa de trabalho, em algum canto tranquilo do escritório ou até no carro. Konstanze,
uma adepta do método que mora em Frankfurt e que preferiu não revelar seu
sobrenome, conta que faz a prática várias vezes por semana desde a
adolescência.
“Aos
16 anos, eu tinha dificuldade para respirar quando fazia educação física, e os
médicos me recomendaram a técnica”, lembra. “No início, parecia uma grande
bobagem. Mas aos poucos fui percebendo as diferenças. Hoje, quando pratico os
exercícios, me sinto muito mais relaxada e com energia de sobra.”
Para Konstanze, outra enorme vantagem do treinamento é conseguir
se desligar totalmente do trabalho quando não está no escritório. “Esse método
nos ajuda a cortar o intenso fluxo de pensamentos e preocupações ao levar a
mente a se concentrar em algo banal, como os dedos dos pés”, explica.
"Enorme potencial de cura" - Else
Müller, especialista em prevenção do estresse, acredita que ter “a cabeça
cheia” é algo que se tornou parte do cotidiano e que o estresse se tornou um
grande problema de saúde pública. Autora de 17 livros sobre técnicas de relaxamento e consultora em
empresas multinacionais, Müller desenvolveu sua própria versão das técnicas de
Schulz, “modernizando” o treinamento autógeno e tornando-o mais fácil de ser
aprendido.
Seu
método, chamado de Treinamento Autógeno Inovador (IAT, na sigla em inglês),
difere da abordagem de Schulz porque combina visualização com as frases de
auto-sugestão. Por exemplo, se alguém quer se sentir mais aquecido, basta
evocar a imagem do sol; ou se o objetivo é se acalmar, a pessoa pode imaginar
nuvens levando suas preocupações para longe. “Temos
um enorme potencial para curarmos a nós mesmos. Só precisamos aprender a abrir
o caminho para essa mentalização e utilizá-la”, afirma Müller.
Terapia polêmica - Mas
nem todos os especialistas em carreira estão convencidos de que o treinamento
autógeno funciona. Para Isabel Bommer, palestrante motivacional e consultora de
executivos, as técnicas meditativas não dão ao corpo a total liberdade para
responder com sua sabedoria interna.
“Todos
os sentimentos são refletidos fisicamente, e se você os direciona com um
excesso de exercícios meditativos, corre o risco de não experimentar suas
próprias emoções”, afirma ela. “Os sentimentos querem ser sentidos. Seu corpo
sabe como liberar a tensão. Ele não precisa ser direcionado como acontece no
treinamento autógeno.”
Ainda
assim, pesquisas acadêmicas independentes comprovaram que o método alemão pode
melhorar o desempenho profissional de quem o adota. Helen Gibbons, psicóloga e
fundadora do Instituto de Treinamento Autógeno, na Austrália, cita um estudo da
Nasa que indicou que a terapia pode melhorar a reação de pilotos em situações
de emergência.
Em
um artigo intitulado The 6 Hour Solution to Work
Stress (“Como combater
o estresse do trabalho em seis horas”, em tradução livre), Gibbons argumenta
que os benefícios do treinamento autógeno puderam ser medidos em pacientes
através de exames neurológicos e cardiovasculares.
Para
ela, aprender a regular as reações psicológicas e fisiológicas do corpo pode
criar mudanças profundas que melhoram a saúde e o desempenho profissional. Por
isso, da próxima vez que escutar um colega do escritório conversando com seus
braços e pernas, não o julgue. Ele pode se tornar o seu próximo chefe. (BBC)

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