sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Quais podem ser as consequências políticas da denúncia contra Cunha?
A denúncia
apresentada na quinta-feira pela Procuradoria-Geral da República contra o
presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao STF (Supremo Tribunal
Federal) é uma nova fonte de desgaste para o principal opositor do governo, o
que tende a trazer benefícios para a presidente Dilma Rousseff e enfraquecer a
oposição. No entanto, o alcance
desses impactos depende ainda da decisão dos ministros do STF de aceitar ou não
a denúncia e tornar Cunha réu, observam analistas e políticos ouvidos pela BBC
Brasil.
Por enquanto, a maioria dos deputados tem defendido o direito de Cunha de
prosseguir como presidente da Casa e se defender. No entanto, é crescente o
número de deputados que defendem seu afastamento. Uma nota defendendo sua saída
já tem o apoio de parlamentares de dez partidos – PSOL, PSB, PT, PPS, PDT,
PMDB, PR, PSC, PROS e PTB.
Cunha foi denunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot,
sob a acusação de participar do esquema de corrupção investigado pela Operação
Lava Jato. Ele é acusado de receber propina de US$ 5
milhões (R$ 17 milhões) para viabilizar a construção de dois navios-sondas da
Petrobras, o que ele nega. Na denúncia, é pedida a condenação do presidente da
Câmara por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A ex-deputada federal Solange Almeida (PMDB), atual prefeita de Rio
Bonito (RJ), também foi denunciada sob a acusação de corrupção passiva. Outra
denúncia foi apresentada contra o senador Fernando Collor (PTB-AL), mas ainda
não tornada pública porque algumas das delações que o incriminariam ainda são
sigilosas. Entenda quais devem ser os impactos políticos da denúncia contra o
presidente da Câmara.
Governo x oposição - Para o
cientista político e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Renato
Perissinotto, a denúncia contra Cunha é mais um fator de desgaste para
presidente da Câmara, que já vinha perdendo poder desde a semana passada.
Ele afirma que líderes empresariais e grandes jornais nacionais e
estrangeiros, como O Globo e o americano The New York Times, se manifestaram nos
últimos dias, por meio de entrevistas e editoriais, a favor da governabilidade
e contra as decisões de Cunha de colocar em votação projetos que elevam os
gastos do governo.
"Essa denúncia é mais um ponto nesse processo de desgaste. De saída,
representa o enfraquecimento de um dos mais contundentes adversários do
governo", afirma o professor.
Na sua avaliação, as acusações contra Cunha também são uma notícia
negativa para políticos de oposição, como os tucanos, que têm se alinhado com o
presidente da Câmara nas críticas e nas votações contra o governo. "Ele
agora faz parte de todo esse escândalo de corrupção que está sendo investigado,
e qualquer tentativa de se aliar ao Cunha também passa a ter os custos desse
problema", acrescenta.
Por todos esses fatores, Perissinotto diz acreditar que as chances de um
impeachment da presidente Dilma Rousseff caíram muito nas últimas duas semanas.
É Cunha, como presidente da Câmara, que teria o poder de colocar a questão em
votação. No entanto, o cenário político atual torna mais difícil que isso
ocorra, ainda mais porque decisões das últimas semanas indicam que os
julgamentos que correm contra Dilma no TCU (Tribunal de Contas da União) e no
TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ainda vão demorar para ser concluídos.
Mais instabilidade - O
professor de ciência política da UnB (Universidade de Brasília) David Fleischer
também considera que a denúncia contra Cunha é um fator negativo para a oposição
e que reduz as chances de que o impeachment seja votado. No entanto, pondera
que o peemedebista ainda é forte na Câmara e pode dar mais trabalho para a
presidente. "Isso pode gerar mais instabilidade porque pode aumentar a
raiva dele. Ele pode ainda atrapalhar muita coisa (ao definir as pautas de
votação)", diz.
O especialista lembra que, em 2005, o então presidente da Câmara Severino
Cavalcanti se afastou do cargo devido a denúncias envolvendo valores muito
menores – acusações de ter recebido propina mensal de R$ 10 mil da empresa que
gerenciava o restaurante da Casa. "Por muito menos, Severino foi afastado.
Mas ele não tinha um controle sobre a Câmara como Cunha tem. Cunha foi eleito
pela maioria absoluta e tem um poder muito consolidado sobre os deputados",
observou.
"Agora, nós também não sabemos para onde vai a Lava Jato, pode ser
que apareçam mais denúncias contra ele. Há um crescente grupo de deputados que
querem afastá-lo. Se esse grupo ganhar mais força, isso pode diminuir o
controle dele sobre a Câmara", ressaltou.
Afastamento? - A maioria
dos deputados vem mantendo um discurso cauteloso sobre a situação de Cunha,
destacando que ele não está condenado e terá direito a se defender.
O PSOL é o único partido que em bloco defende o afastamento do
peemedebista da presidência da Casa. Mas, segundo o deputado Chico Alencar
(PSOL-RJ), parlamentares de outros nove partidos já manifestaram o mesmo desejo
– PSB, PT, PPS, PDT, PMDB, PR, PSC, PROS, PTB.
Os nomes ainda estão sendo colhidos e serão apresentados na próxima
terça-feira. Os pernambucanos Jarbas Vasconcelos (PMDB) e Silvio Costa (PSC) já
vinham defendendo o afastamento de Cunha mesmo antes de a denúncia ser
apresentada por Janot.
O petista Alessandro Molon foi um dos que engrossaram o coro: "Não
há dúvida de que o deputado Eduardo Cunha deve se afastar da presidência da
Câmara imediatamente, para preservar a Casa e para que não continue usando o
poder que o cargo lhe dá para sua defesa pessoal", disse à BBC Brasil.
Os parlamentares que cobram a saída do peemedebista afirmam que ele está
usando a estrutura da Câmara para atrapalhar as investigações. Um episódio que
alimentou essas críticas foi a contratação da empresa Kroll pela CPI da
Petrobras, com o objetivo de investigar alguns dos delatores do esquema de
corrupção.
Defesa - Muitos deputados, porém, mantêm o apoio para que Cunha permaneça
no cargo. Ouvidos pela BBC Brasil, Marcus Pestana (PSDB-MG) e Alceu Moreira
(PMDB-RS) defenderam o direito dele de permanecer na cadeira mesmo se o STF
aceitar a denúncia e torná-lo réu. "Por que as outras autoridades que têm
denúncias semelhantes não têm tratamento semelhante? Por que só ele e o Collor
(foram denunciados)? Há de se perguntar se há outros interesses além do fato em
si", questionou Moreira.
"Até que se transite em julgado, uma ampla defesa é um direito
capilar. Se fosse por desmoralização, a Dilma já tinha que ter saído, o Lula
tinha que estar preso", argumentou.
No caso de o STF tornar Cunha réu, no entanto, é esperado um novo desgaste
na sua rede de apoio. "Se o Judiciário aceitar (a denúncia) e a partir daí
ele se tornar réu, nós vamos reunir a bancada e o partido para encaminhar o
afastamento ou o que tiver que fazer", observou o líder do PPS, Rubens
Bueno. (BBC)
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