Por
volta desta época no ano passado, as redes sociais foram invadidas por vídeos
de pessoas jogando um balde de água fria em suas cabeças. Quem não embarcou no
desafio do balde de gelo pelo menos conhece alguém que participou. Vídeos
foram compartilhados, amigos foram desafiados e inúmeras celebridades
apareceram encharcadas - tudo por uma boa causa.
Mais
de 17 milhões de pessoas postaram seus vídeos no Facebook - e eles foram
assistidos 440 milhões. Mas o que aconteceu um ano após aquela que foi
considerada a maior campanha de mídias sociais do mundo?
Apesar
das críticas, à época, de que poucas pessoas que participaram realmente sabiam
o motivo do desafio, as instituições de caridade ligada a doenças do neurônio
motor como a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que motivou o desafio, dizem
que o dinheiro chegou até elas.
No
Reino Unido, a Motor Neurone Disease (MND) Association arrecadou 7 milhões de
libras (cerca de R$ 35 milhões) - em grande parte graças a um casal de
Yorkshire. Paula
e Robert Maguire viram que o desafio estava se tornando viral nos Estados
Unidos e montaram uma página de arrecadação de recursos na internet para quem
quissesse participar do desafio no Reino Unido.
Alguns
anos antes, o tio de Paula havia morrido por causa de uma doença do tipo em
apenas nove semanas e eles estavam determinados a ajudar a arrecadar fundos e
criar consciência. "Estávamos
vendo o jornal e os Kennedys haviam desafio Barack Obama nos EUA. Imediatamente
pensamos que queríamos que as pessoas dos EUA se conectassem com as do Reino
Unido", afirma.
Eles
criaram um número para envio de mensagens, fizeram o desafio do balde de gelo
no início de agosto e criaram uma meta de levantar 500 libras (cerca de R$
2.500) para a associação MND. Até
agora, seus esforços pela página já renderam mais de 4 milhões de libras (cerca
de R$ 20 milhões) para a entidade.
EUA -
Nos EUA, a ALS Association - que representa pessoas com ELA e outros tipos de
doenças do neurônio motor - recebeu US$ 115 milhões (cerca de RS 390 milhões)
em doações de agosto a setembro de 2014, quando o desafio estava no auge. A
entidade americana diz que o dinheiro ajudou a triplicar seu gasto com
investimento em pesquisa por ano.
Chris
James, diretor de assuntos externos da MND Association, diz que foram 12 meses
extraordinários, que começaram com o ator Benedict Cumberbatch fazendo o
desafio para ajudar a instituição. Também
ajudou o fato de o ator Eddie Redmayne ter ganhado o Oscar por sua
interpretação do professor Stephen Hawking, que tem a doença, no filme "A
Teoria de Tudo".
"Nunca
houve nada tão grande em arrecadação de fundos e doações voluntárias. Fez com
que valorizássemos mais as redes sociais. Antes as víamos como ferramentas de
comunicação - mas agora é vista como a ferramenta de comunicação mais
importante para algumas campanhas particulares."
Mas
a entidade decidiu não pedir que as pessoas joguem água em suas cabeças de novo
neste verão (no hemisfério norte). "Levantamos
uma quantia significativa e aumentamos o conhecimento sobre a doença no ano
passado", afirma.
Pesquisa -
Em vez disso, eles criaram uma campanha para agradecer aos muitos doadores -
que também serve para lembrar o público sobre o verdadeiro objetivo do desafio
do balde de gelo.
Há
aproximadamente 5 mil pessoas vivendo com estas doenças no Reino Unido. James
afirma que o desafio fez com que algumas delas se sentissem menos sozinhas
porque, agora, mais pessoas sabem o que é o problema e o sofrimento que ele
causa.
O
desafio também teve efeitos positivos em termos de pesquisa sobre as causas da
doença.
Um
projeto internacional para analisar o genoma de 15 mil pessoas com doenças do
neurônio motor, incluindo cada pessoa no Reino Unido com o problema, foi
acelerado com fundos do desafio do balde de gelo.
Ammar
Al-Chalabi, professor de neurologia e doenças genéticas complexas no King's
College London, diz que este é "um projeto enorme que vai produzir dados
suficientes para encher 10 mil hard drives".
O
projeto vai permitir que cientistas comparem o genoma de pessoas afetadas pela
doença com o das que não sofrem dela, chegando perto assim de isolar os genes
que aumentam as chances de alguém desenvolvê-la.
Com
5 milhões de libras destinados a pesquisa, 1,5 mi foram usados com cuidados e
apoio aos pacientes. O resto do dinheiro bancará novos centros de tratamento e
dará bolsas a cuidadores. E
houve algum aspecto negativo no desafio?
Al-Chalabi
diz que há o risco de as pessoas pensarem que essas doenças não precisam mais
de dinheiro - mas a verdade é exatamente o oposto. "Precisamos
de um desafio do balde de gelo constante." (BBC)
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