sexta-feira, 14 de julho de 2017

LITERATURA CEARENSE: Minha Vida - O Seminário da Betânia (Por José Abner de Melo Carvalho)

Vou eu, Zé Ody, Leopoldo, Pires e o Cícero no gol, era meu time escalado para o racha de futebol de salão depois do almoço a quarenta graus.
A sineta do canto ordenava o fim do jogo e a formação da fila de preto, muda com rosto vermelho e umedecido pelo calor escaldante. Serpenteava rumo ao salão de estudo onde preparávamos as aulas do dia seguinte. O silêncio era pesado, sob o olhar severo e atento de alguém do sexto ano, nomeado prefeito, portador de grande autoridade e respeito.

O sacerdócio do altar ou da família era cuidadosamente burilado por sábios e dedicados mestres.

Normas de vida correta era o foco maior das aulas, que além da matéria específica, a didática permitia que o professor indicasse os caminhos de futuros homens de bem, obedientes à ética, à moral e com profundo respeito às coisas de Deus.

Nós escolhidos para habitar, por alguns anos em Betânia, portamos, ao de lá sairmos, o antídoto para muitos males morais e espirituais.

Muitos são chamados e poucos os escolhidos, nós que infelizmente não fomos eleitos para a sagrada missão do sacerdócio, porém somos cristãos conscientes e que vivemos Ad majorem Dei gloriam, baseados nestas normas de condutas cristãs, temos nossas vidas sempre renovadas diante de Deus.

Ao deixar a Prainha, conheci entre coisas diversas, a face perversa do mundo, onde a competição brutal e desumana ditava o modus vivendi, conflitante com minhas convicções de lealdade e respeito, tive então uma triste saudade de minha batina surrada por longos anos de uso, entre a Betânia e a Praínha.

Amparado por colegas, eis seminaristas como eu, consegui meu primeiro emprego em uma fábrica, onde aprendi a beneficiar castanha de caju; em outra transformei o pó da carnaubeira em valiosa cera. O trabalho era muito agradável, mas não permitia continuar meus estudos. Trabalhei então na IBM, onde conheci o ancestral do computador. Fui convidado para lecionar e constatei que o magistério não estava entre minhas aptidões. Estava eu quase perdido quando me lembrei do Pe. Antônio Tomaz: “As esperanças vão conosco à frente e os desenganos vão ficando atrás.” Voltei para o interior, trabalhei como chefe de setor na Cenorte, Companhia de Eletrificação do Nordeste, onde não senti consistência no futuro reservado para mim em minha terra.

Durante esses anos de luta e conflito, entre o sofrimento e o prazer, conheci muitas jovens com quem me relacionei, algumas por amor outras apenas por desejo, porem sempre preocupado com a filosofia cabocla do meu avô, Florêncio Ribeiro da Silva, o Seu Fulô, que dizia:       “Ao desejares uma mulher para casar agiras com se procura uma vaca de leite, pela procedência, conhecerás sua mãe, sua família, seus costumes, suas qualidades e seus defeitos”

Entre as muitas jovens com quem namorei, conheci uma especial. A Orineide, que encheu meus olhos e meu coração, logo deslumbrei um grande futuro para nós, antes porem pus em pratica a filosofia de Seu Fulô.

Conheci Dona Berenice, senhora guerreira, de muitos predicados, viúva, mãe de nove filhos, entre eles a Orineide, minha amada Neném, com quem me casei.

Então, constatei a veracidade da filosofia de meu avô, fui muito feliz e premiado na escolha, Orineide, aquela jovenzinha frágil com porte de menina, tinha procedência; é mulher de verdade, ela é forte, responsável, honesta, trabalhadeira, bondosa, justa, amante maravilhosa e, sobretudo uma educadora competente, pois a base e os princípios da vida irrepreensível de nossos filhos foram ministrados por ela.

Logo que casamos, eu e minha esposa fechamos as malas, com roupas minguadas, muita coragem e esperança inabalável, chegamos a Brasília, uma menina de oito aninhos, imponente e bela, mas com semblante triste com o triunvirato que governava o pais, paralisado pela incompetência dos três.

Aqui conhecemos a tenebrosa face do desemprego, e a sós em terras estranhas, onde em nossa volta tudo era belo, porem distante, provamos então do desastre quase mortal da fome, mas assistimos também o bendito espetáculo da generosidade do povo desta terra, que hoje é minha por adoção.

O tempo perverso se foi célere, deslumbramos a chegada da bonança e a vitória veio em tempo breve. Com muita luta montei a Escala, meu primeiro escritório de engenharia e projetos. Adquiri algum recurso, comprei imóveis, construímos uma confortável residência e a felicidade veio morar conosco.  

Consolidando a família chegou nosso primeiro filho, que homenageando meu pai, chama se Raimundo. Neto é fisioterapeuta renomado, cidadão correto e traz consigo as boas qualidades do avô que lhe deu o nome. Neto é casado com Waltrisia, mãe amorosa do nosso Murilo querido.

Carlos Eugenio, artista plástico, desenhista competente, está cursando engenharia civil. Carlos é homem de bem, caráter exemplar, casado com Patrícia, boa mãe, que não mede esforços para dar aos filhos Carlos Miguel, Rafaela e Gabriela, uma boa educação.

Deborah é pedagoga, educadora, pós-graduada, dedicada diretora de colégio. É mulher virtuosa e vive sob a proteção de Deus, ela nos deu Nicolas, Isabelle, Louise e José Bento. Deborah é casada com Richard, homem amoroso e responsável.

Rachel é bióloga de formação, pós-graduada em educação ambiental e língua brasileira de sinais. Rachel é dona de casa por opção, tem personalidade forte e honestidade a toda prova; é casada com Ronaldo, o genro desejado por todo pai de filha amada e nos deram netinhos maravilhosos Samuel, Davi e Isadora.

Não construí opulência, não acumulei riqueza, nunca experimentei vida abastada e rica, que danificasse minha moral nem meu caráter, porém o legado que fica para meus filhos é indestrutível: o amor que nos une, o ensinamento primado pelo exemplo, à presença constante na Igreja onde conheceram os princípios da fé inabalável no Deus que sempre nos protege com sua benção e misericórdia.      

A família é a obra prima de minha vida, sem ela de nada valeu minha existência. Sou eternamente grato a minha querida Neném, a mulher que edificou o teto onde moramos com Deus e nossos filhos.                

Hoje sou um feliz aposentado, que olha para trás com alegria, sem mágoa, sem saudade e contente digo como São Paulo, “Combati o bom combate, guardei a minha fé” que trago comigo desde os tempos da Betânia.


  
José Abner, guaraciabense, residente em Brasília (DF)
 (Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – 90 ANOS – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR,  de Leunam Gomes e Aguiar Moura

Nenhum comentário:

Postar um comentário