Vou eu, Zé Ody, Leopoldo, Pires e o Cícero no gol,
era meu time escalado para o racha de futebol de salão depois do almoço a
quarenta graus.
A sineta do canto ordenava o fim do jogo e a
formação da fila de preto, muda com rosto vermelho e umedecido pelo calor
escaldante. Serpenteava rumo ao salão de estudo onde preparávamos as aulas do
dia seguinte. O silêncio era pesado, sob o olhar severo e atento de alguém do
sexto ano, nomeado prefeito, portador de grande autoridade e respeito.
O sacerdócio do altar ou da família era
cuidadosamente burilado por sábios e dedicados mestres.
Normas de vida correta era o foco maior das aulas,
que além da matéria específica, a didática permitia que o professor indicasse
os caminhos de futuros homens de bem, obedientes à ética, à moral e com
profundo respeito às coisas de Deus.
Nós escolhidos para habitar, por alguns anos em
Betânia, portamos, ao de lá sairmos, o antídoto para muitos males morais e
espirituais.
Muitos são chamados e poucos os escolhidos, nós que
infelizmente não fomos eleitos para a sagrada missão do sacerdócio, porém somos
cristãos conscientes e que vivemos Ad majorem Dei gloriam, baseados nestas
normas de condutas cristãs, temos nossas vidas sempre renovadas diante de Deus.
Ao deixar a Prainha, conheci entre coisas diversas,
a face perversa do mundo, onde a competição brutal e desumana ditava o modus
vivendi, conflitante com minhas convicções de lealdade e respeito, tive
então uma triste saudade de minha batina surrada por longos anos de uso, entre
a Betânia e a Praínha.
Amparado por colegas, eis seminaristas como eu,
consegui meu primeiro emprego em uma fábrica, onde aprendi a beneficiar
castanha de caju; em outra transformei o pó da carnaubeira em valiosa cera. O
trabalho era muito agradável, mas não permitia continuar meus estudos. Trabalhei
então na IBM, onde conheci o ancestral do computador. Fui convidado para
lecionar e constatei que o magistério não estava entre minhas aptidões. Estava
eu quase perdido quando me lembrei do Pe. Antônio Tomaz: “As esperanças vão conosco à frente e os
desenganos vão ficando atrás.” Voltei para o interior, trabalhei como chefe
de setor na Cenorte, Companhia de Eletrificação do Nordeste, onde não senti
consistência no futuro reservado para mim em minha terra.
Durante esses anos de luta e conflito, entre o
sofrimento e o prazer, conheci muitas jovens com quem me relacionei, algumas
por amor outras apenas por desejo, porem sempre preocupado com a filosofia
cabocla do meu avô, Florêncio Ribeiro da Silva, o Seu Fulô, que
dizia: “Ao
desejares uma mulher para casar agiras com se procura uma vaca de leite, pela
procedência, conhecerás sua mãe, sua família, seus costumes, suas qualidades e
seus defeitos”
Entre as muitas jovens com quem namorei, conheci
uma especial. A Orineide, que encheu meus olhos e meu coração, logo deslumbrei
um grande futuro para nós, antes porem pus em pratica a filosofia de Seu Fulô.
Conheci Dona Berenice, senhora guerreira, de muitos
predicados, viúva, mãe de nove filhos, entre eles a Orineide, minha amada
Neném, com quem me casei.
Então, constatei a veracidade da filosofia de meu
avô, fui muito feliz e premiado na escolha, Orineide, aquela jovenzinha frágil
com porte de menina, tinha procedência; é mulher de verdade, ela é forte,
responsável, honesta, trabalhadeira, bondosa, justa, amante maravilhosa e, sobretudo
uma educadora competente, pois a base e os princípios da vida irrepreensível de
nossos filhos foram ministrados por ela.
Logo que casamos, eu e minha esposa fechamos as
malas, com roupas minguadas, muita coragem e esperança inabalável, chegamos a Brasília,
uma menina de oito aninhos, imponente e bela, mas com semblante triste com o
triunvirato que governava o pais, paralisado pela incompetência dos três.
Aqui conhecemos a tenebrosa face do desemprego, e a
sós em terras estranhas, onde em nossa volta tudo era belo, porem distante,
provamos então do desastre quase mortal da fome, mas assistimos também o
bendito espetáculo da generosidade do povo desta terra, que hoje é minha por
adoção.
O tempo perverso se foi célere, deslumbramos a
chegada da bonança e a vitória veio em tempo breve. Com muita luta montei a
Escala, meu primeiro escritório de engenharia e projetos. Adquiri algum
recurso, comprei imóveis, construímos uma confortável residência e a felicidade
veio morar conosco.
Consolidando a família chegou nosso primeiro filho,
que homenageando meu pai, chama se Raimundo. Neto é fisioterapeuta renomado,
cidadão correto e traz consigo as boas qualidades do avô que lhe deu o nome.
Neto é casado com Waltrisia, mãe amorosa do nosso Murilo querido.
Carlos Eugenio, artista plástico, desenhista
competente, está cursando engenharia civil. Carlos é homem de bem, caráter
exemplar, casado com Patrícia, boa mãe, que não mede esforços para dar aos
filhos Carlos Miguel, Rafaela e Gabriela, uma boa educação.
Deborah é pedagoga, educadora, pós-graduada,
dedicada diretora de colégio. É mulher virtuosa e vive sob a proteção de Deus,
ela nos deu Nicolas, Isabelle, Louise e José Bento. Deborah é casada com
Richard, homem amoroso e responsável.
Rachel é bióloga de formação, pós-graduada em
educação ambiental e língua brasileira de sinais. Rachel é dona de casa por
opção, tem personalidade forte e honestidade a toda prova; é casada com
Ronaldo, o genro desejado por todo pai de filha amada e nos deram netinhos
maravilhosos Samuel, Davi e Isadora.
Não construí opulência, não acumulei riqueza, nunca
experimentei vida abastada e rica, que danificasse minha moral nem meu caráter,
porém o legado que fica para meus filhos é indestrutível: o amor que nos une, o
ensinamento primado pelo exemplo, à presença constante na Igreja onde
conheceram os princípios da fé inabalável no Deus que sempre nos protege com
sua benção e misericórdia.
A família é a obra prima de minha vida, sem ela de
nada valeu minha existência. Sou eternamente grato a minha querida Neném, a
mulher que edificou o teto onde moramos com Deus e nossos
filhos.
Hoje sou um feliz aposentado, que olha para trás
com alegria, sem mágoa, sem saudade e contente digo como São Paulo, “Combati o
bom combate, guardei a minha fé” que trago comigo desde os tempos da Betânia.
(Texto extraído do
livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – 90 ANOS – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR,
de Leunam Gomes e Aguiar Moura)


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