Tinha de ser Rei
Já famoso, certa vez este homem se condoeu com a
precária situação de um dono de circo e garantiu: “Irei me apresentar hoje
aqui”. Quase não acreditando, o pobre empresário espalhou a notícia e não deu
outra: casa cheia e a maior bilheteria que já viu. Ao tentar repartir o apurado
ouviu do artista: ‘Aproveite bem e compre uma empanada hoje mesmo’. Assim era
Luiz Gonzaga do Nascimento, que nasceu em Exu (PE), em 13 de dezembro de 1912,
e morreu no Recife (PE), em 02 de agosto de 1989.
Em se
tratando de Luiz Gonzaga ouvem-se muitas dessas ações de bondade por ele
praticadas. Muitas outras denotam generosidade, humildade, aspereza ou
sinceridade pra dizer o que pensava, bem como ações que demonstravam também seu
lado brincalhão. Conheça apenas alguns desses gestos do Rei do Baião:
- Numa de suas excursões pelo Brasil, enquanto
consertavam seu carro foi tomar café numa tendinha de beira de estrada. A
cazefeira o reconheceu, perguntou se podia lhe dar um abraço e disse:”Agora
posso morrer satisfeita, pois vi Luiz Gonzaga de pertinho”. Quando o sanfoneiro
perguntou quanto pagaria pelo café a mulher respondeu que o pagamento era tê-lo
conhecido. Do seu jeitão, Gonzaga arrastou um bolo de dinheiro e deu àquela
cafezeira. Essa quantia foi suficiente deu para comprar várias sacas do produto
e para ela ganhar um bom de dinheiro.
- Noutra ocasião, ele ouviu de um pedinte:
‘Dê-me uma ajudinha pelo amor de Deus. É melhor eu pedir que roubar, não é?’.
Sem titubear, deu a esmola, mas, de sobra, também a lição de moral: ‘Oxente,
cabra! Tu só sabe fazer essas duas coisas mesmo?
- Numa
época em que o forró estava meio em baixa, Gonzagão se apresentava num show na
Paraíba. Pouca gente, o povo não se empolgava, ele tocou, cantou, cantou e o
público começou a gritar: “Tá bom, seu Luiz. Chame o Pinto, Chame o Pinto
(Pinto do Acordeom)!”. Gonzagão falou para o grupo: “Para, para, para... Oi,
moçada, um galo véi como eu não tá dando conta do recado, carcule um pinto!”.
- Vendo
Gonzagão com os calçados sujos, o cantor Alcymar Monteiro convidou seu genial
colega para engraxar os sapatos numa praça. O mestre sentou-se na cadeira do
engraxate, que, cabisbaixo, fazia seu serviço sem notar o artista. Quando
levantou a cabeça, olhou meio desconfiado e disse: “Muito parecido com Luiz
Gonzaga”. E, com seu vozeirão, Gonzagão retrucou: “Tá bom... Antigamente,
quando eu era mais novo, eu era Luiz Gonzaga. Agora, eu sou só parecido com
ele”.
- Certo
dia, ao chegar de madrugada em sua casa cansado, depois de um dos muitos shows,
Gonzagão arriou no sofá, colocou a sanfona de lado e chamou a esposa. Ô,
Helena! Traga aí minha chinela antes que comece. Minutos depois falou: Ô,
Helena! Traga aí uma cervejinha gelada antes que comece. Passado pouco tempo,
pediu: Ô, Helena! Faça aí um tira-gostozinho antes que comece. Já irritada,
dona Helena disparou: Ô, Gonzaga! Tu chega numa hora dessas em casa e em tudo
que só fala diz também “antes que comece, antes que comece”. Me diz, homem:
Antes que comece o quê? E ele respondeu: Pronto, começou! (Gonzagão se referia
à zanga da mulher)
- Numa de suas vindas a Sobral, ao passar de
carro pela ponte Oto de Alencar em companhia de José Maria Soares, Ribamar
Coelho e outras pessoas, teve pena das lavadeiras que trabalhavam nas areias
quentes do rio Acaraú. Um dos colegas de viagem tentou amenizar: ‘Seu Luiz,
daqui a pouco elas irão comer do bom e do melhor na casa do patrão’. Ele
bradou: ‘Qual nada! Lá elas só entram pela porta dos fundos e saem ligeirinho,
ligeirinho’.
- Também em Sobral, na hora do almoço Luiz
Gonzaga foi tomar um aperitivo numa bodega que ficava próximo de onde estava
hospedado na Rua Oriano Mendes e ouviu de uma das muitas pessoas que
estavam no recinto: “Ô, veio macho!" Depois do gole, o velho sanfoneiro
respondeu: “Sou velho, sim, mas educado”.
E como essas existem outras centenas de
histórias pitorescas que gerariam vários livros sobre esse homem que fez fama
no Brasil, e até no exterior. Em todas elas ensinando, do seu modo, a se viver
melhor. Era sua receita: ser sempre humilde, fiel a seus pais e às suas raízes
e agir em todas as ocasiões com simplicidade e autenticidade.
Esse homem do povo, que venceu através do
talento e da obstinação, viveu seus 76 anos, cantando alegrias e tristezas,
ajudando a amenizar o sofrimento dos menos favorecidos, lutando pela paz entre
os irmãos e sempre consciente do seu dever de cidadão e de ser humano
privilegiado. Dessa forma, transformou-se num belíssimo exemplo de vida.
Seguir suas pegadas é o suficiente para quem
deseja viver de tal modo que até lembrar a data da morte - 02 de agosto de 1989 -
se reverte em momento especial.
Obrigatoriamente essa data torna-se ocasião de
louvar a existência profícua de quem fez muito o bem, deixando o caminho
traçado para quem deseja fazer o mesmo.
Foi exatamente isso o que fez Luiz Gonzaga do
Nascimento, o eterno Rei do Baião, que num dia como hoje, 2 de agosto, deve ser
muito lembrado no Brasil por ocasião dos 28 anos
da sua morte.
Obrigado, Gonzagão!
E viva o rei!
*************
Nossa
Senhora
A imagem de Nossa Senhora localizada entre as duas torres da Catedral
foi colocada solenemente às 12h do dia 09 de janeiro de 2000, dia chuvoso e
festivo para Sobral.
Responda,
se souber
Quando o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, esteve em Sobral pela última vez?
Resposta na Coluna de amanhã.
É
mesmo, né?
“Aprendi que não posso exigir o amor de
ninguém... Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim... E ter
paciência para que a vida faça o resto...” (William Shakespeare)

Nenhum comentário:
Postar um comentário