sábado, 18 de novembro de 2017

COLUNA WILSON BELCHIOR: A confissão que eu gostaria de ter havido na igreja do Rosário

Depois de um café no Beco do Cotovelo e de um papo com o “Catedrático-Mor da Universidade do Beco”, Irapuan Cumbuca, seu amigo e colega de profissão, Antônio Félix Ibiapina (foto), dirigiu-se à igreja do Rosário e, na curta fila dos que escolheram para se confessar com o Mons. Fontenelle, entrou.

Chegando a sua vez, ainda de pé Antônio disse:
- Monsenhor, sexta feira é aniversário do meu casamento e estou aqui para me confessar, coisa que jamais o fiz com o senhor.

- A voz me parece a do Antônio Felix, disse o Monsenhor, de dentro do fechado confessionário, entrevendo-o pelas gretas da treliça lateral.

- Sou eu mesmo, Mons. Fontenelle.

- Mas você está de pé, ajoelhe-se e fale baixo, ordenou o religioso.

- Vou me ajoelhar, mas, falar baixo, nunca. Todos os que estão presentes nessa igreja poderão ouvir o que irei lhe contar. Primeiro de tudo, esclareço-lhe que estou com muita pressa, pois, ao sair de casa, vieram me pedir ajuda para eu ir acudir uma vaca que caíra de uma ribanceira, quebrou os quartos e as duas pernas. E está lá no Caioca, toda escambichada e à minha espera. Eu sei o que é isso, e estou com muita pena dela. Por isso, despache-me logo, Monsenhor. Perdoe-me logo e não estenda muito suas perguntas.

- Mas, Antônio Félix, para perdoá-lo primeiro eu terei que atentamente ouvir todos os seus pecados.

- Pecado? Que pecado? Eu não tenho pecado, eu nunca pequei. O único pecado que eu poderia ter é o de ser pobre. Mas até o senhor diz que ser pobre não é pecado.

- Então o que você veio fazer aqui?

- Me confessar, empurrado por minha mulher.

- Pensar não ter pecado já o leva a pecar pela “Presunção”, que é um pecado gravíssimo contra o Divino Espírito Santo.

- Mas quem é essa Presunção. Eu nunca ouvi falar de tal mulher, não a conheço. - Conhece sim, é sua companheira inseparável, filha bastarda da ignorância com o orgulho, mulher diabólica que se acha mais poderosa do que Deus.

- Eu vou perguntar ao Irapuan Cumbuca quem é essa Presunção. Se ele não a conhecer, ninguém em Sobral a conhecerá.

- E o senhor a conhece por acaso, Mons. Fontenelle?

- Estou agora mesmo a vendo abraçada a você.

- Tá bem! ‘Seje’ quem for, perdoe-me Monsenhor, pois tenho que estar no Caioca ainda hoje.

- Em nome de Deus e por Sua infinita misericórdia estás perdoado.

- Eu já estou me levantando e saindo.

- Só mais uma coisa, Antônio Félix, no dia de sua comunhão, oito horas antes comece o jejum; não beba água; reze três vezes o Rosário. Venha com o melhor dos seus ternos e sua esposa com o mais comprido e sem decote nos vestidos. E que venha também de mantilha grossa e preta. E se as mangas do vestido forem curtas, que use manguitas.

- O senhor deve estar brincando Mons. Fontenelle! Todas as vezes que saio de casa vou direto tomar café, no Beco do Cotovelo. O senhor imaginou eu chegar no café do Edmundo de terno e gravata, usando uma mantilha grossa e preta, o que irão dizer de mim? E quando eu passar em frente ao Renato Borges e ao sobrado do Chico Monte? Irão, com certeza, me chamar do que eu não sou, nunca fui e nunca serei.

- O véu é só para sua mulher.

- Ainda bem!

Ao se levantar, Antônio Félix disse de viva voz: Eu e o Mons. Fontenelle somos amigos. Porém, confessar-me com ele, jamais.






(*) Wilson Belchior é engenheiro civil, articulista, poeta e memorialista.  

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