Depois de um café no Beco
do Cotovelo e de um papo com o “Catedrático-Mor da Universidade do Beco”,
Irapuan Cumbuca, seu amigo e colega de profissão, Antônio Félix Ibiapina (foto),
dirigiu-se à igreja do Rosário e, na curta fila dos que escolheram para se
confessar com o Mons. Fontenelle, entrou.
Chegando a sua vez, ainda
de pé Antônio disse:
- Monsenhor, sexta feira é
aniversário do meu casamento e estou aqui para me confessar, coisa que jamais o
fiz com o senhor.
- A voz me parece a do
Antônio Felix, disse o Monsenhor, de dentro do fechado confessionário, entrevendo-o
pelas gretas da treliça lateral.
- Sou eu mesmo, Mons.
Fontenelle.
- Mas você está de pé,
ajoelhe-se e fale baixo, ordenou o religioso.
- Vou me ajoelhar, mas,
falar baixo, nunca. Todos os que estão presentes nessa igreja poderão ouvir o
que irei lhe contar. Primeiro de tudo, esclareço-lhe que estou com muita
pressa, pois, ao sair de casa, vieram me pedir ajuda para eu ir acudir uma vaca
que caíra de uma ribanceira, quebrou os quartos e as duas pernas. E está lá no Caioca,
toda escambichada e à minha espera. Eu sei o que é isso, e estou com muita pena
dela. Por isso, despache-me logo, Monsenhor. Perdoe-me logo e não estenda muito
suas perguntas.
- Mas, Antônio Félix, para
perdoá-lo primeiro eu terei que atentamente ouvir todos os seus pecados.
- Pecado? Que pecado? Eu
não tenho pecado, eu nunca pequei. O único pecado que eu poderia ter é o de ser
pobre. Mas até o senhor diz que ser pobre não é pecado.
- Então o que você veio
fazer aqui?
- Me confessar, empurrado
por minha mulher.
- Pensar não ter pecado já
o leva a pecar pela “Presunção”, que é um pecado gravíssimo contra o Divino
Espírito Santo.
- Mas quem é essa
Presunção. Eu nunca ouvi falar de tal mulher, não a conheço. - Conhece sim, é
sua companheira inseparável, filha bastarda da ignorância com o orgulho, mulher
diabólica que se acha mais poderosa do que Deus.
- Eu vou perguntar ao
Irapuan Cumbuca quem é essa Presunção. Se ele não a conhecer, ninguém em Sobral
a conhecerá.
- E o senhor a conhece por
acaso, Mons. Fontenelle?
- Estou agora mesmo a
vendo abraçada a você.
- Tá bem! ‘Seje’ quem for,
perdoe-me Monsenhor, pois tenho que estar no Caioca ainda hoje.
- Em nome de Deus e por
Sua infinita misericórdia estás perdoado.
- Eu já estou me
levantando e saindo.
- Só mais uma coisa, Antônio Félix, no
dia de sua comunhão, oito horas antes comece o jejum; não beba água; reze três
vezes o Rosário. Venha com o melhor dos seus ternos e sua esposa com o mais
comprido e sem decote nos vestidos. E que venha também de mantilha grossa e
preta. E se as mangas do vestido forem curtas, que use manguitas.
- O senhor deve estar
brincando Mons. Fontenelle! Todas as vezes que saio de casa vou direto tomar
café, no Beco do Cotovelo. O senhor imaginou eu chegar no café do Edmundo de
terno e gravata, usando uma mantilha grossa e preta, o que irão dizer de mim? E
quando eu passar em frente ao Renato Borges e ao sobrado do Chico Monte? Irão,
com certeza, me chamar do que eu não sou, nunca fui e nunca serei.
- O véu é só para sua
mulher.
- Ainda bem!
Ao se levantar, Antônio
Félix disse de viva voz: Eu e o Mons. Fontenelle somos amigos. Porém,
confessar-me com ele, jamais.
(*) Wilson Belchior é engenheiro civil, articulista, poeta e memorialista.

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